Watchmen – 1×07: An Almost Religious Awe

Watchmen – 1×07: An Almost Religious Awe

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Com a insólita missão de suceder ápice narrativo da série (o episódio 6, “This Extraordinary Being”), o sétimo episódio de Watchmen, “An Almost Religious Awe”, não apenas retoma o ritmo da história, como a acelera a todo vapor rumo a uma das mais esperadas revelações da trama. A nós é concedido um breve instante para recuperar o fôlego da semana anterior, para sermos dolorosamente surpreendidas mais uma vez, em uma reviravolta escondida no local mais adequado possível: bem na frente dos nossos olhos.

AVISO: o texto contém spoilers do sétimo episódio de “Watchmen”

Infância perdida, raízes negadas – os caminhos do vigilantismo de Angela em Watchmen

Cena do episódio “An Almost Religious Awe”.
Cena do episódio “An Almost Religious Awe”. (Imagem: reprodução)

Entre as gôndolas de uma pequena locadora em Saigon, uma jovem Angela Abar (Faithe Herman) apanha um VHS do filme Sister Night (obra de um gênero bastante popular no Vietnã entre os anos 70 e 80, o chamado “Black Mask”, a versão do universo da série para os filmes blaxploitation) antes de se juntar aos pais.

As ruas estão repletas de brinquedos, decorações, bugigangas e pessoas fantasiadas de Dr. Manhattan, em comemoração aos seus feitos na guerra do Vietnã. Entretanto, como era de se esperar de uma anexação forçada, fruto de uma violência colonialista, nem todos estão dispostos a celebrar: pelos olhos de Angela, acompanhamos enquanto dois terroristas detonam uma bomba nas ruas em um ato de protesto, matando dezenas de pessoas, dentre elas os pais da garota. Imagens da tragédia de Will Reeves (Louis Gossett Jr.) em Tulsa se intercalam à cena, ratificando a ideia de trauma geracional.

Em 2019, Abar (Regina King) se recupera dos efeitos destrutivos da Nostalgia em seu organismo, assistida por Lady Trieu (Hong Chau) em suas instalações próximas do Relógio do Milênio. Memórias do avô e de si mesma se confrontam em pequenos flashes ao longo do episódio, e quando a policial é advertida por Trieu que ainda não é capaz de separar a si mesma da pessoa de Reeves, nós acreditamos. Grande parte do episódio se dedica, não apenas a explorar as origens e motivações de Angela para assumir o manto da policial mascarada Sister Night, como também resgatar uma herança e um elo perdido entre dois indivíduos que, cada um à sua maneira e em suas respectivas épocas, tiveram suas raízes brutalmente arrancadas de si.

June (Valeri Ross) e Angela (Faithe Herman) em "Watchmen".
June (Valeri Ross) e Angela (Faithe Herman) em “Watchmen”. (Imagem: reprodução)

Retomando às memórias do passado, uma idosa June (Valeri Ross), ex-esposa de Will Reeves e avó de Angela, aparece para retirar a menina do marasmo do orfanato. A mulher comenta sobre como perdera contato com o filho depois que este se alistou no exército e passou a viver no Vietnã com outros grupos afro-americanos, e apenas após seu falecimento é que tomara conhecimento da neta — mais uma vez, visualizamos os elos fragmentados e as raízes negadas à família de Will e Angela, perpassada por mais flashes das memórias de Reeves. Como que zombando de quem acreditou nas promessas da idosa, mesmo sabendo que Abar só abandonaria Saigon muitos anos depois, a cena termina com June sofrendo um infarto momentos antes de levar a pequena Angela consigo para Tulsa.

Mais um capítulo da fantasia de Ozymandias em Watchmen

Watchmen
Adrian Veidt (Jeremy Irons) em Watchmen 1×07 – “An Almost Religious Awe”. (Imagem: reprodução)

A digressão semanal à prisão particular de Adrian Veidt (Jeremy Irons) parece um tanto quanto desconectada, levando em conta as peças incompletas do quebra-cabeça montado até agora. Muito mais engraçado que efetivamente informativo (pelo menos por enquanto), o “julgamento” de Ozymandias presidido pelo Guarda Florestal não chega a avançar o sub-enredo da estada do ex-vigilante no local. Veidt é julgado por infringir a regra máxima de nunca abandonar o local, bem como por ter forjado o ataque de 2/11. Não há muitas informações novas, além do fato de que quem o colocou ali tem conhecimento nos eventos de 1985, mas não deixa de ser absurdamente engraçada a defesa que o “homem mais inteligente do mundo” apresenta ao tribunal: um sonoro peido.

A revelação escondida em plena luz do dia

Enquanto isso, Laurie Blake (Jean Smart) segue firme nas investigações que permeiam o assassinato de Judd Crawford (Don Johnson). O agente Dale Petey (Dustin Ingram) comunica à ex-vigilante que Wade Tillman, o Espelho (Tim Blake Nelson), escapou do ataque da Sétima Kavalaria à sua casa (retomando o gancho deixado ao final do quinto episódio) e, ao que parece, está infiltrado entre as fileiras do grupo.

Resta claro para nós que Crawford e o senador Joe Keene (James Wolk) sempre estiveram por trás da chamada Noite Branca, e sabiam muito bem o que estavam fazendo. Por isso, quando Laurie propositalmente morde a isca e vai até a casa da viúva, Jane Crawford (Frances Fisher), a surpresa vem muito mais pelo teor quase cômico da emboscada armada por Crawford e Keene para aprisionar a agente do FBI. Sem muita paciência para discursos inflamados de vilões caricatos, Blake se deixa emboscar, se for para acabar logo com isso.

É difícil ser um homem branco nos Estados Unidos”, afirma o senador para uma Laurie aprisionada, uma frase comicamente absurda, se não fosse trágica, “então vou tentar me tornar um azul”. Tomamos conhecimento, então, que os planos da Kavalaria nunca se restringiram à candidatura de Keene à presidência, consistindo em uma trama elaborada para usurpar os poderes de Dr. Manhattan e eliminá-lo logo em seguida. Ele nunca esteve em Marte, mas sim em Tulsa, vivendo os últimos dez anos como um humano.

Watchmen
Cena de Watchmen – 1×07, série da HBO. (Imagem: reprodução)

A descoberta em si vem até nós quando, em uma conversa com Angela, Trieu expõe seu plano de impedir a criação de um novo Manhattan, não apenas para a policial, como para a audiência. Desta vez, contudo, Angela já não representa apenas os olhos e os ouvidos das espectadoras, escondendo um detalhe crucial. Trieu sabe disso e, ao revelar que a entidade azul está em Tulsa, comenta: “Você sequer perguntou quem ele é”.

Em uma súbita virada a poucos minutos do final do episódio, Angela volta para casa, apanha um martelo e “mata” o marido, Cal Abar (Yahya Abdul-Mateen II), abrindo-lhe o crânio e retirando uma joia no formato do famoso símbolo do átomo de hidrogênio, familiar a quem quer que tenha lido a graphic novel de 1986: Dr. Manhattan esteve debaixo de nossos narizes o tempo inteiro, na figura mundana de Cal, com as memórias e a onisciência suprimidas para que levasse uma vida normal ao lado de Angela em Tulsa. Mas como? Por quê? Ao final do sétimo episódio da série da HBO, as espectadoras se vêem obrigadas a questionar tudo o que testemunharam na série até agora.

Cultura pop, simbolismos e a importância das (meta)narrativas afrocentradas

Sister Night
Cena de “Watchmen”. (Imagem: reprodução)

O episódio não deve nada aos anteriores quanto a subtextos e simbologias. Destaca-se a sutil inclusão do gênero de filme “Black Mask” como parte crucial para a construção da Sister Night de Angela Abar. Já fora comentado anteriormente sobre a importância da Peteypedia para o aproveitamento da série, com um papel muito similar aos materiais adicionais após cada edição da graphic novel de 1986. Sempre fornecendo informações bastante relevantes e enriquecedoras para o pano de fundo da obra, a Peteypedia desta semana se supera com o memorando de Dale Petey detalhando o fenômeno “Black Mask”, acarretado com a migração de populações negras da América para o Vietnã.

Como já adiantado, Black Mask é a versão do universo de Watchmen para o cinema blaxploitation que se popularizou entre o fim dos anos 60 e meados dos anos 70 — filmes de ação (e ramificações como terror, comédia e artes marciais) com direção e protagonismo negro, voltados para o público negro estadunidense. Esta versão, contudo, tem um foco especial numa apropriação da figura dos vigilantes, no contexto da promulgação da Lei Keene anti vigilantismo. Em uma deliciosa inversão metanarrativa, super-heróis como Superman e Batman (que inspiraram Moore a projetar certos personagens da graphic novel original) são apresentados aqui como paródias e pastiches de figuras como o próprio Manhattan e o segundo Coruja. Sister Night, uma freira vigilante lutando contra o racismo institucional em Hell’s Kitchen, Nova York, se insere neste contexto.

Para além do primor na projeção destas narrativas de pano de fundo, a riqueza no detalhamento se aproxima do próprio primor de Moore ao contextualizar o universo de suas histórias (algo evidente não apenas em Watchmen, como também em “Promethea”), o que toma uma dimensão simbólica ainda maior ao resgatar e valorizar um importante elemento da cultura pop afro-americana.

O que nos espera pela frente?

Angela Abar
Regina King em “Watchmen”. (Imagem: reprodução)

Já comentamos, em diferentes ocasiões, acerca da indiferença inumana de Manhattan e sua relação com os privilégios de gênero, raça e classe usufruídos por Jon Osterman antes de sua transformação. O fato de termos toda uma cultura de blaxploitation de vigilantes na série, e de que Dr. Manhattan é, atualmente, um homem negro, nos obriga a perguntar, afinal: por que a totalidade de heróis apresentados na graphic novel é branca? Mesmo reconhecendo e retratando os abusos da branquitude masculina, a HQ nunca endereçou diretamente a questão; embora este aspecto não retire o mérito da trama, é inevitável e indispensável que a questão racial seja levantada no atual contexto. E a série responde à pergunta.

Em um dado momento de sua conversa com Jane Crawford, Laurie Blake comenta o irônico legado de Will Reeves para os demais heróis brancos corrompidos. Como que provocando a parcela reacionária da audiência que não entende o teor político da série, ela diz: “Homens brancos mascarados são heróis, mas homens negros mascarados? Eles são assustadores”.

Há uma grande lacuna no retrato do vigilantismo na cultura popular. No ato de suprir estes espaços vazios com narrativas outrora ocultas pelo discurso hegemônico, a série de Watchmen se prova extremamente bem-sucedida em suas críticas, e sem medo de ousar sob o material-base. Nas palavras de Damon Lindelof, o que testemunhamos é o Novo Testamento sucedendo um texto consagrado: o deus bélico, azul e indiferente do Antigo Testamento deu lugar a um homem comum, ligado a forças históricas e sociais além de sua compreensão. É quase impossível prever o que nos espera, mas uma coisa é certa: a dois episódios do grande final, uma nova aliança entre o público e a narrativa foi estabelecida.


Edição e revisão realizada por Isabelle Simões.

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Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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