His Dark Materials – 2ª temporada: a força das mulheres no patriarcado da fantasia

His Dark Materials – 2ª temporada: a força das mulheres no patriarcado da fantasia

Depois de sete semanas e sete episódios, finalmente tivemos a 2ª temporada completa de His Dark Materials, da HBO, para fazermos uma maratona – isso se você não tem os nervos de aço daquelas pessoas que assistem um episódio por semana.

Continuamos acompanhando Lyra Silvertongue (Dafne Keen), a qual no fim da primeira temporada decide dar um rumo novo à sua vida depois de um acontecimento trágico. Já na 2ª temporada acompanhamos o seu amadurecimento – talvez endurecimento – e principalmente, num contexto geral, o desenvolvimento de uma série que se na 1ª temporada poderia nos passar a ideia de um mundo de fantasia juvenil, nesta temporada vemos que a complexidade de suas abordagens não pode ser subestimada.

Atenção: este texto contém spoilers de His Dark Materials

“Todas as pessoas estão conectadas” Lyra Silvertongue

Se você se distraiu no ano que passou (parabéns, você é um gênio!) e não sabe do que estamos falando, vamos recapitular. A série His Dark Materials é fruto da adaptação para as telas da trilogia Fronteiras do Universo, best-seller de Philip Pullman; por enquanto temos duas temporadas, ou seja, dois livros adaptados (A Bússola de Ouro e A Faca Sutil) – e parece de bom tom começarmos por aí.

Com o próprio Philip Pullman envolvido na produção da série – dizem que os fãs de Game of Thrones ficaram com inveja –, a adaptação para as telas está impecável, segundo fãs da trilogia. Cenas foram honradas e personagens foram respeitados com o adicional de uma produção de tirar o fôlego proporcionada pela HBO.

Lyra Silvertongue em His Dark Materials
Lyra Silvertongue em His Dark Materials. Imagem: reprodução/HBO

Se durante a primeira temporada apenas arranhamos a superfície do mundo de Lyra Silvertongue, o que provavelmente deixou a sensação de superficialidade no roteiro, na segunda somos jogadas de cabeça numa história cheia de tramas políticas, religiosas, com muita maldade e pecado, mas principalmente cheia de amor, carinho e bondade em His Dark Materials.

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Lyra vê seu próprio pai, Lorde Asriel (James McAvoy), acabar com a vida de seu melhor amigo Roger (Lewin Lloyd) – e este momento, como um ritual de passagem, mostra algumas verdades sobre a vida para a menina. Ela parte, então, em companhia de seu daemon Pantalaimon (Kit Conoor) – mais conhecido como Pan –, em busca de seu caminho e de respostas sobre a bagunça em seu mundo e em sua cabeça.

Logo de início ela dá de cara com Will Parry (Amir Wilson), um garoto desta “nossa” realidade e que aparenta esconder tantos segredos como ela – e a relação deles se mostra como o fio condutor da narrativa da série com, inclusive, personagens os procurando sem saber quem eles são.

Porém, não é só isso. A relação entre esses dois adolescentes de realidades diferentes é apenas a ponta do iceberg dessa história. A obra traz embates, mesmo que nas entrelinhas, entre religião e ciência, além de retratar o comportamento de pessoas vaidosas em regimes ditatoriais que não aceitam pessoas diferentes.

Will Parry e Lyra Silvertongue na série de fantasia da HBO
Will Parry e Lyra Silvertongue em His Dark Materials. Imagem: reprodução/HBO

Personagens femininas se destacam mesmo no patriarcado da fantasia

No mundo da ficção de His Dark Materials o patriarcado também é uma realidade. Os homens são os líderes políticos como membros do Magistério e estão em posição de destaque na academia, na ciência e em todas as outras áreas, porém existe alguém que foge a todas as regras: Marisa Coulter (Ruth Wilson).

Fria, manipuladora, sem escrúpulos e, o pior de tudo, trata muito mal seu daemon, Marisa Coulter não é alguém que você gostaria de encontrar na sua vida, mas, por conta de uma atuação impecável de Ruth Wilson, sua complexidade nos impede de odiá-la totalmente. Ela é capaz de fazer seu daemon torturar o daemon de outras pessoas enquanto move o mundo, quase que literalmente, para achar Lyra.

Porém, numa viagem à “nossa realidade”, ela tem contato com a existência de um mundo problemático, percebendo que sua vida poderia ser muito melhor do que já é. Numa cena tensa com Carlo Boreal (Ariyon Bakare), a personagem nota ser vítima do machismo/sexismo tanto quanto qualquer outra pessoa.

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Resumindo, Marisa Coulter é uma personagem forte, marcante e, sem mais sedas rasgadas para a atuação de Ruth Wilson, só nos resta dizer: se você não acha que tem nenhum motivo para assistir a segunda temporada de His Dark Materials, pense em Marisa.

Outra personagem forte e marcante é Lyra Silvertongue. A adolescente protagonista da série vai de uma garota curiosa e encantada pelo mundo para uma jovem determinada e corajosa. É claro que a teimosia adolescente tem seu papel nas ações, às vezes impensadas de Lyra, mas Pan e Will garantem que Lyra mantenha sempre seus pés no chão, mesmo que não esteja sempre na mesma realidade. Como toda boa personagem não é nada sem uma grande atuação, fica aqui nossa admiração pelo trabalho de Dafne Keen.

Lyra Silvertongue e Marisa Coulter na fantasia da HBO
Lyra Silvertongue e Marisa Coulter em His Dark Materials. Imagem: reprodução/HBO
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Outra personagem fundamental para o bom andamento da série é a Drª Mary Malone (Simone Kirby), uma cientista meio maluca que nos faz querer abraçá-la e que tem um trabalho intrigante e não reconhecido sobre a matéria escura (ou, na realidade de Lyra, o pó). Ela é a primeira a dar respostas satisfatórias para Lyra e é quem desperta – mesmo sem saber – a consciência sobre a opressão de gênero vivida por Marisa Coulter.

Fica claro que ela tem um papel fundamental em toda a história, mesmo que até o fim da segunda temporada ainda não saibamos exatamente qual é, pois parece que nem a própria Mary sabe, nesta altura dos acontecimentos. Além disso, Simone Kirby é responsável por entregar uma atuação sem defeitos e nos deixar com vontade de tomar um chá ou café com Drª Mary Malone e gastar horas a fio falando de tudo o que não entendemos (e provavelmente ela sim) sobre a nossa matéria.

Drª Mary Malone em His Dark Materials.
Drª Mary Malone em His Dark Materials. Imagem: reprodução/HBO

Mas nem só de elenco principal vive um roteiro, é claro, então vamos falar de outras personagens femininas interessantes que acabam não ficando tanto tempo na nossa tela. As fadas (assim como quase todo o resto do elenco) estão procurando e tentando proteger Lyra, mas as adolescentes que vivem aterrorizadas pelos espectros na cidade dos anjos não a estão procurando – e nem Will, pois sabem bem onde eles estão, inclusive querendo acabar com eles.

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Porém, se não há críticas às personagens principais, não podemos dizer o mesmo sobre essas histórias secundárias. As fadas parecem sempre atrasadas para cumprir seu papel – se não tivessem, haveria menos lágrimas, vocês podem ter certeza – e as adolescentes antagonistas de Lyra só servem para serem suas antagonistas, sem que seu papel fique bem definido, nos deixando com o questionamento: quem sabe na próxima temporada?

Serafina Pekkala e Ruta Skadi em His Dark Materials.
Serafina Pekkala e Ruta Skadi em His Dark Materials. Imagem: reprodução/HBO

A expectativa para a 3ª temporada de His Dark Materials

Exaltações de personagens femininas à parte, também precisamos falar da produção da série como um todo. Quer dizer, não há muitas críticas a serem feitas. Os cenários – mesmo os de computação gráfica – são lindos, os efeitos sonoros são impecáveis (a única cena que tem música é ótima) e os alívios cômicos estão lá (e são bem cômicos). Além disso tudo, devemos várias salvas de palmas para as pessoas que escolheram o elenco. Atuações incríveis, cenas cheias de tensão e muita taquicardia para acompanhar. Fica fácil assistir uma série quando não se há nada para criticar.

Por ser baseada em uma trilogia, havia rumores de que seriam três temporadas e isso foi confirmado recentemente pelos produtores da série. Pois bem, então vamos aguardar, afinal, a 2ª temporada de His Dark Materials deixou grandes expectativas e deu um fôlego revitalizante a um roteiro que parecia usual.

Com isso, não queremos dizer que foram feitas mudanças na história e/ou roteiro, que continua recheado de realismo fantástico, criaturas fofas, profecias e tudo o mais que cabe numa série de fantasia. Se isso é por conta do envolvimento do próprio Phillip Pullman, não podemos ter certeza. Mas o que podemos afirmar é que a produção da HBO está de parabéns. E agora nos resta lidar com a ansiedade para a terceira e última temporada de His Dark Materials.


Revisão por Gabriela Prado.

Escrito por:

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Lésbica, feminista, produtora de conteúdo, fluente em inglês e memes brasileiros. Sua trajetória pode ser seguida de uma adolescente emo para uma hipster meio torta, sempre bebendo muito café. Ativista dos direitos humanos, é fundadora do grupo “Féministas” que envolve feminismo e religião. Nunca nega um bom papo, mas se o assunto estiver relacionado com cultura nerd, signos ou gatos trabalha na base dos slides com muita convicção.
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