“Eu Nunca…” e a nova onda de narrativas adolescentes

“Eu Nunca…” e a nova onda de narrativas adolescentes

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Eu Nunca…” (Never have I ever, no original), nova série teen da Netflix, não vem com a pretensão de reinventar a roda das comédias adolescentes. Também não se trata tão somente em trazer representatividade para a TV, apesar de contar com o protagonismo de people of color – como são lidas as pessoas que não têm origem européia nos Estados Unidos. A série vem com a consolidação do que hoje é considerado boa televisão, um processo de troca dos contadores de história que vem evoluindo nos últimos anos. 

A escritora best-seller nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie falou sobre o “Perigo de uma única história”, em sua lendária fala no TED.  Não se trata apenas de colocar uma amiga negra ou um amigo gay engraçado no elenco, o que podemos ver na excelente e também com temática adolescente Sex Education. “Eu Nunca…” vai além disso e coloca os protagonistas escrevendo a história.

A Netflix literalmente encomendou a série para a comediante, produtora e roteirista Mindy Kalig, para que contasse a sua visão como adolescente indoamericana crescendo nos Estados Unidos. Mindy topou o desafio e chamou sua parceira Lang Fisher, também roteirista do seu show “The Mindy Project“. Juntas, elas criaram o universo de Devi (Maitreyi Ramakrishnan). A garota de dezesseis anos é muito inteligente e extrovertida. Deri busca popularidade no colégio enquanto vive a sua forma peculiar de luto pela morte do pai. A série traz uma escolha curiosa tendo todos seus episódios narrados pelo jogador de tênis veterano John McEnroe, exceto por um episódio que em especial que é narrado pelo ator e comediante Andy Samberg, o Jake Peralta de “Brooklyn 99“.

Devi, a jovem heroína moderna em “Eu Nunca…”

Maitreyi Ramakrishnan como Devi em cena de “Eu Nunca…” (Imagem: Reprodução)

Temos aqui umas das protagonistas mais carismáticas dos últimos tempos. Devi é filha única, e apesar de sua ascendência indiana, é como qualquer adolescente norte-americana, com caráter expansivo e gosta de centralizar a atenção em si mesma. De maneira inconsciente ela acaba conseguindo isso ao ficar meses literalmente sem conseguir mexer as pernas, tendo que andar de cadeira de rodas. Quando ela volta a andar, o que se entende ter sido um trauma pela morte do pai, ela decide não medir mais esforços para ser popular.

Devi começa propondo que suas duas besties, Eleanor (Ramona Young), e Fabiola (Lee Rodriguez), comecem urgentemente seus projetos de namoro, para buscarem evidência. Enquanto isso, ela mesma tentaria namorar um dos colegas claramente gay mas ainda não assumido. O problema é que Eleanor já tem um namoro secreto, e Fabiola é uma lésbica recém descoberta. Percebemos que as amigas tratam Devi com um cuidado especial, por sua situação trágica e acabam aceitando o plano da amiga.

Devi também é uma das melhores alunas da classe e tem como foco entrar em uma universidade de prestígio apesar e também com o estímulo da competição do outro melhor aluno da classe, Ben (Jaren Lewison). O peculiar da jornada dessa heroína, além dos conflitos esperados pela coexistência de uma cultura oriental no subúrbio norte-americano, é a morte repentina de seu pai (Sendhil Ramamurthy). Ele aparece recorrentemente em cenas de flashback, explicitando a grande amizade e amor que ele e Devi tinham. No presente, Devi tenta manter uma boa relação com sua mãe exigente, interpretada pela incrível Poorna Jagannathan.

AVISO: spoilers a seguir

O pai morre por conta de um ataque cardíaco que acontece em um dos seus concertos de música – ela toca harpa. Depois de perceber que sua primeira missão namorados tinha fracassado, Devi resolve ir direto ao ponto e propor uma transa despretensiosa para seu crush e o cara mais gato da escola, Paxton (Darren Barnet). Para sua surpresa, Paxton acaba aceitando sua proposta, mas na primeira tentativa de ir a fundo com seu plano, ela não consegue seguir adiante. Na sequência surge uma afinidade com o bonitão. Entretanto, depois de um curioso acontecimento envolvendo o ataque de um coiote em uma festa, Devi acaba subindo no escalão de famosinhos do colégio.

Devi (Maitreyi Ramakrishnan), Fabiola (Lee Rodriguez) e Eleanor (Ramona Young) em "Eu Nunca..."
Devi (Maitreyi Ramakrishnan), Fabiola (Lee Rodriguez) e Eleanor (Ramona Young) em “Eu Nunca…”. (Imagem: Reprodução)

Dali em diante acompanhamos a força da natureza que é Devi, que não mede esforços não apenas para ser popular, mas também para se entender como indivíduo dentro desse caos que é crescer, perder um ente querido, entender que muito de sua força vem de suas raízes culturais e principalmente, estar a altura da expectativa das pessoas ao seu redor. Temos todos os ingredientes dramáticos necessários para trazer a profundidade que uma boa comédia pede, e além de tudo “Eu Nunca…” garante boas risadas.

Comédias adolescentes em tempos de quarentena

Não é porque somos adultas que não podemos curtir uma boa comédia e romances adolescentes. Não tem porque também consumir esse tipo de conteúdo de forma alienada, pois há várias boas opções nessa temática mais leve e nostálgica. Temos a já citada “Sex Education” também da Netflix, indo para a sua terceira temporada. Para aqueles que preferem uma trama menos puritana norte-americana existe a possibilidade do thriller latino sensual com “Elite“, que se passa em um colégio de pijos, com muito sexo, drogas e reggaeton, também na Netflix.

Na categoria longas metragem não tem erro assistir pela décima vez o incrível “Dez coisas que eu odeio em você“. O filme de 1999 inspirado na peça “A megera domada”, de Shakespeare, trata de pautas atuais do feminismo, como slut shaming, empoderamento e independência femininos. E de quebra dá para matar a saudade do Heath Ledger, jovem e com o cabelo ensebado cantando “You’re too good to be true” na arquibancada para a sua amada. Tem também o clássico “Clube dos cinco“, de 1985, um filme dramático com pegada teatral, uma única locação praticamente e muita conversa existencial, dirigido pelo rei dos filmes adolescentes dos anos 90, John Hughes.

E, para fechar com chave de ouro, temos “Booksmart” lançado no ano passado, e o primeiro filme dirigido pela atriz Olivia Wilde. Muito bem recebido pela crítica, conta a histórias das amigas Amy (Kaitlyn Dever), e Molly (Beanie Feldstein), que assim como Devi, buscam criar alguma espécie de marca no Ensino Médio para além de seus excelentes resultados no currículo escolar.

Amy e Molly em cena de “Booksmart”. (Imagem: Reprodução)

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Autora

Jacu metropolitana com mente abstrata, salva da realidade pelas ficções. Mais de trinta anos sem nunca deixar comida no prato.
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