Porquê “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” pode não ser sobre um romance saudável

Porquê “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” pode não ser sobre um romance saudável

Compartilhe

Para pensar no título desse artigo, precisa-se primeiramente pensar sobre o que parece ser um romance saudável. “Brilho eterno de uma mente sem lembranças“, dirigido por Michel Gondry e roteirizado por Charlie Kaufman, vencedor de vários prêmios, inclusive o Oscar de 2005, na categoria Melhor Roteiro, traz a história de Clementine (Kate Winslet) e Joel (Jim Carrey).

Um dito romance bastante agitado e confuso, assim como a ordem cronológica da apresentação dos fatos e a escolha narrativa – o que faz com que haja uma possível ambiguidade na interpretação do filme – também é o que torna a história interessante e deixa a espectadora em dúvida sobre o que é real e o que é fantasia

Manic Pixie Dream Girl e a impulsividade exacerbada 

Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Clementine (Kate Winslet) em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Imagem: reprodução

Uma das primeiras falas de Joel é “por que eu sempre me apaixono pelas mulheres que se abrem um pouco pra mim?“, referindo-se à Clementine, que na cena faz um movimento como um aceno com sua xícara para ele. O que está escrito nas entrelinhas aqui é que Joel é um homem que se apaixona por qualquer mulher que lhe dá atenção, o que já pode ser alvo de crítica e de problemas futuros no relacionamento dos personagens, uma vez que a socialização da mulher é sempre voltada para sua simpatia e bondade, confundindo por completo os sentimentos desse tipo de homem que entende equivocadamente que uma mulher sendo boazinha está perdidamente apaixonada por ele.

Assim como o clássico cult “500 dias com ela” traz um certo ódio ao dia dos namorados, “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” começa assim: Joel é um homem que odeia o dia dos namorados e, a caminho do trabalho, subitamente muda sua rota na busca inconsciente de alguma aventura, onde encontra Clementine.

Mas a semelhança entre esses clássicos adorados por adolescentes e jovens que começam a lidar com o amor, vai além do desprezo pela tal data capitalista. As mulheres retratadas nesses filmes são sempre colocadas como loucas, impulsivas e explosivas. Ninguém sabe qual será o próximo passo dado por elas, muito menos sabem como controlá-las. Este tipo de papel e representação feminina é conhecido como Manic Pixie Dream Girl. Os filmes que usam dessa representação sempre trazem algo de encantador e assustador na personagem feminina incontrolável.

Manic Pixie Dream Girl
Uma das lembranças apagadas de Joel em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” Gif: reprodução

Relacionamento conturbado e romantizado 

Em Brilho eterno de uma mente sem lembranças” existe uma ideia de que Joel, que inúmeras vezes afirma que não tem uma vida interessante, passaria a ter uma experiência mais intensa se relacionando com Clementine. Afinal, Clementine é a garota que vai fazer você vencer todos os seus medos e aproveitar a vida verdadeiramente, além de te propor loucuras que você jamais preveria. Assim, é possível criticar se realmente o filme é uma história de amor por trás da narrativa do casal, ou seria apenas uma história sobre interesses em experiências existenciais diferentes, através de uma tentativa de completude inalcançável para as pessoas.

Fica muito claro que Joel só está interessado nas aventuras proporcionadas por Clementine, principalmente quando ela expressa desejos de uma vida, na teoria, tida como estável socialmente: ter filhos e se casar. Mesmo que as propostas sejam feitas com pouco tempo do relacionamento dos dois, Joel sempre a desqualifica por ser muito impulsiva, como se nada do que ela propusesse fosse efetivamente se realizar, já que ele não é capaz de prever seu próximo movimento, inclusive faz com que ela fale: “Talvez encontre alguém mais pacífica pra sair”.

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
Cena de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Imagem: Cinematologia (reprodução)
Leia também: 
>> Paterson: A representação feminina e o Manic Pixie Dream Girl
>> 17 Personagens da cultura pop que são belas, recatadas e dos lares
>> Manic Pixie Dream Girl, Teste de Bechdel e a representação feminina

Clementine pontua diversas vezes seu medo de estar perdendo algo da vida, e assim como ela sabe que seus relacionamentos são sempre sobre o homem que deveria “completar”, dificilmente seu parceiro lhe entrega o que ela gostaria de receber. 

Brilho eterno de uma mente sem lembranças traz a possibilidade de apagar as pessoas da memória, como uma chance teórica de recomeçar de novo ou parar um sofrimento que é necessário. Afinal, o luto vai muito além da morte física e deve ser vivenciado em âmbitos de términos também, sendo essencial a elaboração dos sentimentos envolvidos, sem mascará-los com positividade. A questão é que Joel descobre que Clementine o apagou de suas lembranças e decide fazer o mesmo. 

Uma possível chance de recomeço 

Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet)
Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) em “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Imagem: reprodução

Entretanto, durante tal procedimento, Joel entende como Clementine foi significativa para sua vida e parece se sentir confortável com inúmeras lembranças dos dois, querendo assim parar com esse processo invasivo. A estratégia que o personagem desenvolve é fazer com que eles, mentalmente, fujam do mapa feito para a exclusão das memórias, o que efetivamente dá certo. Ao acordar, Joel ainda se lembra de Clementine e pode-se dizer que eles recomeçam.

Nesse recomeço há um entendimento de que os dois têm defeitos e não vão se completar simplesmente por estarem juntos, de tal forma que a idealização do relacionamento é posta em jogo e vencida através da compreensão de que Clementine não é o elo aventureiro faltante de Joel e Joel não é o elo apaziguador e passivo faltante em Clementine.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças
Pôster de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Imagem: divulgação

Nessa altura do filme pode-se pensar em alguma forma de relacionamento mais interessante e saudável do que o retratado no início: o cara bobão que se apaixona pela doidinha agora parece se transformar em uma pessoa mais madura e o casal finalmente parece compreender e aceitar a incompletude de um relacionamento, sem que haja a necessidade de idealizar um ao outro como complemento.

De qualquer forma, mesmo que haja alguma mudança na postura do casal, é preciso pensar criticamente sobre o modo como Clementine é retratada pela narrativa de Brilho eterno de uma mente sem lembranças, já que ela é colocada numa posição de mulher incontrolável que deveria ser capaz de satisfazer todos os desejos de um homem, como se esse fosse seu único projeto de vida, além de ser uma “doidinha fofa e adorável”.


Edição realizada por Isabelle Simões.


Compartilhe

Written by:

Psicóloga, mestranda e pesquisadora na área de gênero e representação feminina. Riot grrrl, amante de terror, sci-fi e quadrinhos, baterista e antifascista.
View All Posts
Follow Me :