Mulheres podcasters: a dor e a delícia em ser o que se é

Mulheres podcasters: a dor e a delícia em ser o que se é

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Fones a postos, vinheta e vozes! Elas nos acompanham a caminho do trabalho, depois que os filhos já saíram ou dormiram, nas tarefas domésticas ou onde sonharmos ouvir. Quem está ao nosso redor vê sorrisos tímidos, gargalhadas, expressões intrigadas ou de protesto – e até falando sozinhas.

A era digital revolucionou nossa comunicação nos inundando de redes, informações e entretenimento, e esse parente do rádio conquistou muitos corações. Caso você (ainda) não seja um “convertido”, trata-se de um arquivo digital de áudio transmitido pela internet que pode ser ouvido a qualquer momento. A palavra vem de iPod com broadcast (transmissão em inglês).

Há listas de indicações por todos os lados, você deve ter as suas, mas nossa ideia mesmo era ouvir por trás das vozes. Conheça então as piauienses do Malamanhadas, todo o black power das Pretas na Rede, as vibrantes PRIMAS e a poderosa e silenciosa Paula Scarpin, diretora do Maria Vai Com As Outras e Foro de Teresina, mulheres podcasters!

@Malamanhadas

Malamanhadas ou labrocheira, adjetivo regional, dito pelas mães quando reclamam que as filhas não cuidam da aparência. Elas se identificam por completo, pois a proposta é justamente recusar essa feminilidade.

A equipe é formada por Ananda Omati e Aldenora Cavalcante, jornalistas, Lara Silva, Dani Marques, Camila Hilário, Nariani Lopez, Deborah Falconete e Jhoária Carneiro, estudantes, que, além do podcast, promovem encontros e debates. A podosfera é pequena para elas!

Foto: reprodução/@malamanhadas no Instagram

Ao explicar a escolha do formato, vocês mencionam “que seria para demarcar narrativas, espalhar histórias, dúvidas, reflexões, afeto e esperança… sermos felizes”. Esse continua sendo o porquê?

Ananda Omati: sim, mesmo com as dificuldades, vejo muita alegria em cada lançamento de episódio. Não temos ainda um ano e muitas das nossas ideias estão em processo para serem adaptadas. Acredito que essa “missão” de contar histórias, levantar dúvidas e reflexões está muito presente em cada posicionamento dos temas mensais.

Sempre enxerguei neste projeto um potencial de esperança. Quando planejamos, imaginávamos que precisaríamos ocupar espaços e, nesse pouco tempo, projetos de podcasts nordestinos também foram lançados. Acho que todos tinham esse pensamento de que precisavam estar na podosfera, não só por uma urgência pessoal em ter voz, mas também pela importância de se ocupar esses espaços em meio à tanta desinformação.

Deborah Falconete: sim, além de ter a potência de produzir um conteúdo que pode ser instrumento de transformação para alguém ou mesmo de entretenimento.

Quais são as dores e as delícias de se fazer um podcast?

Ananda: você se percebe bastante exigente e isso é ótimo, porque mostra o quanto é importante esse projeto. A dor é não termos estrutura de gravação adequada, uma tentativa de resistir com poucos recursos desejando um material bom, que acaba às vezes abaixo do que desejávamos. Por outro lado, a resposta dos ouvintes é um acolhimento incrível, ver as pessoas se sentindo acolhidas com nossos temas e empolgadas em escutar sobre outros assuntos.

Deborah: uma das dificuldades é me desligar da insegurança e de ficar pensando que aquele áudio está sendo gravado e vai ser publicado [risos]. Não tenho nenhum problema em falar em público, mas a ideia de uma fala minha ser captada para sempre me deixa mais nervosa com o resultado [risos] e a delícia acho que também é um pouco disso. Ao mesmo tempo que dá um nervoso ter suas besteiras ou conteúdo que você traz eternizados ali de certa forma, é interessante poder oferecer isso pros ouvintes.

Como vocês preparam um episódio?

Antes do piloto, gravamos ensaios; alguns foram sem roteiro e não funcionou, então temos uma lista com mais de cem temas. Depois de escolhido, pensamos na convidada, marcamos a gravação, cada uma faz sua pesquisa pessoal e a Ananda coloca um fio na discussão (com o roteiro).

Contem para nós alguma situação inusitada ou algo que nem imaginamos sobre o trabalho de vocês.

Olha, muita coisa, mas é melhor continuar assim [risos]. São muitos perrengues para conseguir gravar um episódio. Por exemplo, gravamos no estúdio da Universidade Estadual do Piauí, que é bastante sucateada pelo estado, mas resiste por conta dos alunos e das pessoas que trabalham por ela. Temos muita ajuda do professor Américo, responsável pelo estúdio, que fica meio isolado no campus e atrás dele existe um lago. Lago, mato, muitos sapinhos, pererecas, rãs… então, gravamos em meio à essa fauna maravilhosa.

@PretasnaRede

A descrição do podcast Pretas na Rede já empolga de antemão: episódios quinzenais para melanizar sua rede! Gabriela Santos e Camila Ferraz trazem timbres graves e agudos como ausência paterna, colorismo, infância negra e convidadas e convidados vibrando harmonicamente!

mulheres podcasters
Imagem: arquivo pessoal

Por que esse formato? 

Ouvimos podcast há muitos anos e não encontrávamos representatividade, algum feito por mulheres pretas, daí veio a ideia do Pretas na Rede.

Quais são as dores e as delícias de se fazer um podcast?

A delícia é poder multiplicar nossas opiniões sobre diversos temas, mostrando que pretos e pretas sabem falar de outras temáticas além da negritude. Já dentre as maiores dificuldades que enfrentamos está o investimento para servidor, edição, designer, etc. Para quem não faz isso custa dinheiro e queremos muito que o podcast se pague.

Como vocês se preparam para um episódio? Há um roteiro?

Sim, existe cronograma de temas aprovados, pesquisa para montagem de pautas e seleção de participantes.

Contem para nós alguma situação inusitada ou algo que nem imaginamos sobre o trabalho de vocês.

Gravamos há um ano e quatro meses. Detalhe: só nos conhecemos pessoalmente há um mês no evento 2ª Maratona de Podcast da CBN (foto dessa data), pois cada uma é de um estado, assim gravamos via internet.

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@PRIMAS

O primeiro episódio do podcast PRIMAS já anuncia a que veio: “se eu não puder dançar, não é a minha revolução“. A frase é da anarcofeminista Emma Goldmann e ressoa muito bem as “primas” Carla Lemos (também conhecida como modices) e a roteirista e escritora Renata Corrêa.

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Foto: divulgação/@recorrea no Instagram

Quais são as dores e as delícias de se fazer um podcast?

Renata Corrêa: a delícia é poder se aprofundar num assunto. Eu amo estudar, amo pesquisa, poder dividir essa paixão com outras pessoas é muito estimulante e divertido. O ponto chato é que a gente faz um conteúdo muito “profissa”, mas a podosfera ainda não é profissional, então a gente tem conteúdo de qualidade, contato com os ouvintes e tudo isso demanda tempo e dedicação demais. É como um segundo trabalho!

Carla Lemos: caramba, eu estou fascinada com o formato de podcast. Já produzo conteúdo nessa internet há tanto tempo, então está sendo uma delícia experimentar esse novo formato. Aqui podemos aprofundar os assuntos, contar mais histórias, coisas sem espaço em outras plataformas. A maior dificuldade é dar conta de tudo [risos].

Como vocês se preparam para um episódio?

Renata: nos primeiros, eu e Carla pesquisávamos e fazíamos o roteiro. Agora temos a Kelly Ribeiro como colaboradora que faz a parte da pesquisa. 

Carla: essa é a parte que eu mais amo. A pesquisa sempre mexe muito com as minhas memórias afetivas e é quase terapêutico. Como no podcast a gente tem mais tempo, eu me permito fazer uma pesquisa mais caprichada. No segundo episódio que falamos da Dercy Gonçalves, mergulhei em vídeos e entrevistas dela no YouTube e vi como ela já falava coisas importantíssimas sobre amor próprio. Para o próximo episódio sobre stand-up, maratonei praticamente todos os de mulheres na Netflix

Num episódio vocês mencionam a necessidade de estar próximo a mulheres, se cercar delas e sobre lugares “só com mulheres”. Como vocês veem os ouvintes de podcast? Mulheres e homens ouvem quem?

Renata: nosso público é majoritariamente feminino. Eu e Carla já éramos pessoas públicas que falávamos de feminismo em outras esferas. Não acho que homens só ouçam homens e mulheres só ouçam mulheres, mas ainda existe uma resistência entre os homens de entender que conteúdo produzido por mulheres é universal. 

Carla: exatamente. Quando comecei a estudar o formato, vi que universo de podcasts era dominado por homens e daí que surgiu a vontade de criar podcast de mulheres para exaltar mulheres. Infelizmente, os homens veem conteúdo feito por mulheres como algo que não é do interesse deles, mas estamos aqui para desconstruir o androcentrismo. Se você gosta de cultura pop, você vai se divertir com nosso podcast. 

Contem para nós alguma curiosidade sobre o trabalho de vocês.

Renata: o meu primo Vitor, marido da Carla, faz a produção e sempre recebe a gente com comidas gostosas, drinks ou cafés maravilhosos. Todo aquele bom humor também é por estarmos alimentadas e mimadas antes de gravar!

Carla: sim! E essa é a maior curiosidade do PRIMAS. Todo mundo quer saber se somos primas. A gente se considera assim, porque convivemos há tantos anos (mais de quinze!) como família e me apropriei do parentesco. É divertido porque somos realmente meio parecidas e todo mundo acha que nós somos primas.

@ForodeTeresina e @MariaVaiComAsOutras

O “Foro de Teresina” é um podcast semanal de política e o “Maria Vai com as Outras” sobre mulheres e mercado de trabalho, ambos da Revista Piauí. Não conhecemos a voz de Paula Scarpin, diretora de ambos e também editora do Foro, mas seu trabalho é aguardado ansiosamente pelos seus ouvintes, a cada evento que inflama nosso país.

mulheres podcasters
Imagem: Foro de Teresina (reprodução)

Por que a escolha do formato?

Cresci numa casa com um aparelho de rádio em cada cômodo, às vezes todos ligados ao mesmo tempo em emissoras diferentes. Meu pai é apaixonado por rádio, me passou essa paixão, fui fazer jornalismo para ser radialista. Durante o curso, acabei me encantando mais pela forma narrativa do que “hard news” e não encontrei nenhuma rádio na época onde eu pudesse contar histórias. Fui selecionada para estagiar na Revista Piauí no fim da faculdade, contratada em seguida, e tive a sorte de ser repórter por 12 anos.

Nunca esqueci do rádio, que virou objeto de estudo, fiz mestrado sobre narrativa radiofônica. Quando descobri os podcasts, insisti por anos até conseguir emplacar a Rádio Piauí, com o Foro e o Maria, além do “Tudo o que você não quer e não precisa saber sobre a Copa“. No começo deste ano, numa espécie de spin-off da Piauí, criamos a Rádio Novelo – produtora de podcasts dos programas da Piauí, de outros clientes, além de seus próprios já em produção.

Quais são as dores e as delícias de se fazer um podcast?

Como gosto muito de trabalhar em grupo, é o meio perfeito, porque cada etapa da produção demanda habilidades e formações muito diferentes. Difícil pensar em dores, porque me divirto muito fazendo. É muito desafiador coordenar uma equipe grande, tentar tirar do papel uma ideia quando todos estão começando a trabalhar no meio.

Como é feito um episódio?

O Foro e o Maria já têm um fluxo de trabalho bem desenhado, estão em “voo de cruzeiro”, digamos, mas em resumo: no Foro, definimos as pautas na segunda e os produtores começam a preparar uma pesquisa que será enviada para os apresentadores na terça (com clipping dos assuntos de cada bloco, coleta de dados de pesquisas, etc). Gravamos na quarta de manhã, editamos à tarde/noite e finalizamos na quinta de manhã para ir ao ar à tarde.

Não temos exatamente um roteiro porque é um podcast conversacional. Fazemos fichas simples para o Fernando Barros (apresentador) com uma introdução aos blocos e sugestões de perguntas para o José Roberto de Toledo e a Malu Gaspar. No caso do Maria, preparamos cada temporada com antecedência, pensando nos temas que pretendemos abordar em cada episódio.

Além da pesquisa de possíveis entrevistadas, a produção levanta informações e leituras sobre os temas para embasar as entrevistas. Temos um roteiro de perguntas, mas nada rígido, para manter a espontaneidade na conversa. Neles, acompanho todo o processo, da escolha de pautas às gravações em estúdio, intervenho quando necessário (muito pouco), reviso as edições de áudio e acompanho a finalização.

Temos um novo projeto na Novelo sobre o caso Doca Street/Ângela Diniz. Ao contrário dos outros, é um podcast narrativo, então totalmente estruturado em roteiro. Pesquisa e entrevistas começaram a ser feitas em janeiro, em agosto começamos o roteiro/montagem costurando trechos das entrevistas e informações de pesquisa. Acompanhei este processo inicial à distância, mas agora estou 100% envolvida no roteiro e montagem.

Contem para nós uma curiosidade.

O Foro leva em média 10 horas pra ser editado/finalizado.

Alguma situação inusitada: ficamos sabendo do atentado sofrido por Bolsonaro, então candidato à Presidência, apenas 15 minutos antes de o Foro de Teresina ir ao ar. As análises do programa ficaram velhas imediatamente, então decidimos cancelar a publicação e avisar nas redes que colocaríamos o programa no ar o quanto antes. A Malu Gaspar entrou em ação apurando (publicou três matérias no site da Piauí na sequência), às 22h voltamos ao estúdio para regravar, finalizamos naquela mesma noite e o programa foi ao ar às 2h da manhã.

Considerando o sucesso do Foro e sua experiência, qual dica você daria para quem deseja ter seu próprio podcast?

Aconselho a sair fazendo, porque é o tipo de coisa que só se aprende na prática.

Dizem que o futuro da internet é a voz… logo saberemos! O que já sabemos é que o presente é das mulheres podcasters e de quem mais quiser tramar com essas vozes.

Escute o nosso podcast! >> Delirium Cast


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


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Nativa do Paraná, atualmente cultivada no Rio de Janeiro. Adubada por livros, séries, música brasileira e outras mulheres.
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