Esquadrão Suicida: entre clichês e desvalorização da mulher

Esquadrão Suicida: entre clichês e desvalorização da mulher

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Inicialmente, será feita uma breve análise sem spoilers, mas, para melhor discutir a adaptação, alguns detalhes serão revelados posteriormente. 

“Esquadrão Suicida” era uma das grandes apostas do ano. Alguns diziam que não atingiria as expectativas, outros colocavam um filme em um pedestal… Certo é que muita propaganda foi feita em cima da obra: imagens e trailer sensacionais, personagens fortes, versões diferentes de grandes ícones. O que se tem, no entanto, é uma adaptação que focou muito na propaganda e esqueceu de construir uma história.

Esquadrão Suicida
Cena de “Esquadrão Suicida”. Imagem: reprodução

“Esquadrão Suicida” traz bons personagens, bem interpretados, divertidos, dotados de histórias próprias, mas negligencia o trabalho em equipe, que é a sua proposta. As histórias individuais são interessantes, mas constituem boa parte do início do filme, retirando espaço da história principal, que começa e termina rapidamente, sem grande desenvolvimento. Vilões ascendem e elos sem muito explicação, o que culmina em uma história central fraca, que mais lembra um episódio de desenho animado. Não obstante, “Esquadrão Suicida” não surpreende na problematização cinematográfica, entregando-se aos clichês do estilo, entre eles a desvalorização da mulher.

Spoilers adiante

“Esquadrão Suicida” começa com os principais vilões/heróis do grupo: Arlequina (Margot Robbie) e Pistoleiro (Will Smith). Um pouco do passado de cada um é revelado através de imagens. Posteriormente, haverá uma pequena introdução à história dos demais membros, os quais ficam ofuscados pelos dois primeiros . Assim, mostra-se um pouco da relação do Pistoleiro com a filha e da – aguardada – relação entre Arlequina e Coringa – personagem que aparece bem pouco, apesar do destaque no trailer. Sobre o primeiro, há pouco que se falar. A filha do personagem é utilizada para humanizar o assassino e será utilizada como pretexto para seu envolvimento na missão suicida. Sobre a segunda, no entanto, muito há a ser discutido.

Esquadrão Suicida
Cena de “Esquadrão Suicida”. Imagem: reprodução

Antes mesmo da estreia, Arlequina tornara-se polêmica, sobretudo pelo seu visual. Ao entrar no cinema, um dos principais pensamentos era sobre a explicação que dariam ao seu uniforme. Sexualização banal ou motivada? A princípio, é possível pensar que toda a sexualização da personagem é em função de sua personalidade e da objetificação pelo Coringa. O Coringa surge na vida da Dra. Harleen Quinzel como um encantador paciente. Seduz a médica, que acaba contribuindo para um terrível crime. Mas sua ajuda não era suficiente.

O personagem de Jared Leto então tortura aquela que se tornará sua “parceira” – e seu objeto sexual, como bem se destaca na obra. Sob o nome de Arlequina (Harley Quinn), ela não vira companheira de crime do Coringa, vira sua propriedade, age como ele manda, seja entregando-se a crimes ou homens. Coringa zela por ela, mas não pelo bem dela, zela por seu precioso bem (bem com sentido de objeto). E Arlequina, torturada, com a mente fragilizada, aceita todo tipo de opressão por parte de Coringa sob o nome de amor extremo, de louco amor, o grande amor de sua vida.

Arlequina (Margot Robbie)
Cena de “Esquadrão Suicida”. Imagem: reprodução

Toda esta terrível história poderia ter sido contada de forma a empoderar a personagem, e há um momento no filme em que parece que isto ocorrerá. Arlequina liberta-se do Esquadrão, mas perde aquele que pensa amar. Parece ser o rompimento, a hora em que ela se dá conta da verdade, de que não existe amor entre eles, mas posse e propriedade. Parece que todas as lembranças mostradas de torturas horríveis farão a personagem crescer e desconstruirão este “romance”.

Ilusão de quem acredita que um filme de super-heróis poderia ser diferente. “Esquadrão Suicida” perde sua grande oportunidade ao trazer de volta o personagem de Coringa ascendendo como o grande salvador da vilã. Embora forte, embora capaz de lutar com vários e de matar, Arlequina é, ao fim, reproduzida como uma boneca sexual de um dos vilões mais conhecidos e de um grupo composto majoritariamente por homens. Sua sexualização, embora parte da personagem, foi utilizada ao extremo para não ser problematizada, para ser mero entretenimento.

Coringa (Jared Leto)
Cena de “Esquadrão Suicida”. Imagem: reprodução

“Esquadrão Suicida” poderia ao menos ter dado mais força às outras personagens, as quais não carregavam em sua essência tanta sexualização quanto Arlequina. Todavia, faz menos ainda. Não adianta trazer vilãs mulheres e aparentemente poderosas e não lhes conceder força e destaque, apaga-las diante dos homens. Pior do que isso, torna-las personagens rasas, de uma única faceta e completamente previsíveis.

Amanda Waller, por exemplo, é a idealizadora do Esquadrão Suicida, que pretende utilizar criminosos em missões arriscadas em troca de benefícios na pena. Interpretada por Viola Davis, mostra-se uma mulher forte, determinada e capaz de tudo. De fato, ela o é. Porém, todas as suas ações em relação ao Esquadrão são intermediadas por um homem, Rick Flag. Mesmo que haja piadinhas durante o filme sobre a verdadeira comandante ser Amanda Waller, isto não se reproduz com a mesma intensidade na tela.

Viola Davis em "Esquadrão Suicida".
Cena de “Esquadrão Suicida”. Imagem: reprodução

Então, há a outra grande vilã: Magia. Magia surge como parte do Esquadrão, uma poderosa entidade no corpo da arqueóloga June Moone, que será usada como arma. A importância que parecem dar a ela, contudo, é muito pequena. Enquanto humana, sempre dialoga com intermédio de Rick Flag, apresentando-se fraca e necessitando de constante apoio. Quando entidade, somente dialoga com outra mulher quando está prestes a ser derrotada. Seu destaque é tão pouco, que sua ascensão é a parte mais rasa do filme. Ocorre de forma tão rápida e fácil, que se torna difícil acreditar que ela é a grande vilã.

Magia foge com facilidade para libertar uma outra grande força. Mas imaginem que a outra grande força é seu irmão homem. Novamente, uma mulher abre o caminho para que um grande homem atinja o ápice. Cena repetida, não? Seu irmão é derrotado, e Magia, com sua força completa, volta a ser o centro. O confronto é rápido, porém. Ela ameaça dominar o mundo, Arlequina mostra sua lealdade, há um breve diálogo – um dos poucos entre duas mulheres e sem a interferência masculina -, fim rápido, sem luta, porque toda a luta já ocorreu antes. E toda a cena é substituída para o grande sacrifício de Rick Flag, outro homem.

Esquadrão Suicida
Cena de “Esquadrão Suicida”. Imagem: reprodução

Esquadrão Suicida” poderia ter mais a apresentar além destes detalhes, mas como focou pouco na história central, acabou por contar várias pequenas histórias em uma, de modo que nenhuma foi realmente boa e a maioria dotada de problemáticos clichês. Como mencionado, a ascensão do vilão não possui graça alguma e a ligação entre os membros do Esquadrão intensifica-se inexplicavelmente. Embora todos estejam na mesma situação (presos), isto não é motivo suficiente para que se vejam como uma família instantaneamente. Além disso, é extremamente previsível. Ao menos a trilha sonora é espetacular e a imagem é boa.

No tocante à série de filmes produzida pela DC, é possível compreender a posição do filme na ordem. Parece que a intenção da produtora era criar a imagem divina do super-herói com o filme do Superman e colocar o mundo à prova com a sua morte, o que ocorre em “Batman vs Superman”. “Esquadrão Suicida”, então, aparece para mostrar que outras entidades tão poderosas quanto o Superman podem surgir e que é preciso a união de vários para enfrentar algo do gênero, dando margem à criação da Liga da Justiça.

Por fim, se forem assistir ao filme, não criem expectativas grandes. Assistir sem esperar uma obra grandiosa pode ser a resposta para o aproveitamento.


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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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