Rastro de Sangue – Jack, o Estripador: a releitura da lenda pela perspectiva feminina

Rastro de Sangue – Jack, o Estripador: a releitura da lenda pela perspectiva feminina

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Um mistério que intriga gerações, de autoria jamais revelada. As vítimas são mulheres, prostitutas principalmente. Isto leva a crer que havia um desejo de purificação do mal. Claro, o mal era visto como o feminino que desobedece os padrões. Em cima disso, Kerri Maniscalco concede uma nova perspectiva à história. Após perceber que a famosa lenda nunca fora reimaginada pela perspectiva de uma mulher estudante de medicina forense, decidiu desenvolver a história de sua protagonista Audrey Rose. E assim escreveu “Rastro de Sangue – Jack, o Estripador“, o primeiro de uma série, publicado em uma linda edição da Darkside Books e acompanhado de uma entrevista com a autora.

Originalmente, Kerri Maniscalco pensou em desenvolver Audrey Rose como a famosa assassina, no entanto, desistiu da ideia. E apesar do quão interessante poderia ter sido esse rumo, fez um bom trabalho ao escrever uma história intrigante sobre crimes contra mulheres solucionados por uma corajosa mulher.

Uma mulher contra um assassino em Rastro de Sangue – Jack, o Estripador

Audrey Rose é uma jovem rica, mas nada convencional. Criada na reclusão da hipocondria de seu pai, desenvolveu uma atração pelo estudo do corpo humano. Talvez como uma reação à perda de sua mãe quando ela possuía 12 anos. E, assim, ela estuda medicina forense com seu tio nos tempos livres. Ao invés de costurar bordados, ela costura corpos. Contra a relutância de seu pai e de seu irmão, ela não acha que uma mulher deveria ser limitada ao simples fato de usar vestidos bonitos. Uma mulher poderia, sim, como qualquer homem, lidar com sangue e corpos dissecados.

Contudo, corpos femininos com evidências específicas começam a surgir. E tudo leva a crer que um assassino em série esteja rondando Whitechapel. Intestinos jogados sobre os ombros, órgãos em falta. Brutalidade sem tamanho contra mulheres em geral. E sempre com corte perfeito de alguém que tenha o conhecimento em medicina.

A curiosidade conduz Audrey Rose a uma investigação particular. Ela deseja descobrir o assassino antes que mais mulheres sejam assassinadas. E com a ajuda do estudante Thomas Cresswell busca semelhanças nos crimes para desvendar o mistério. Ela não sabia, contudo, que as evidências poderiam levá-la para tão perto de si. E quando qualquer um em seu entorno poderia ter motivos para ser o criminoso, nem mesmo ela está em segurança.

Mulheres aliadas e não inimigas

Rastro de Sangue - Jack, o Estripador

A personagem Audrey Rose começa sua trajetória como muitas protagonistas femininas contemporâneas. Possui uma família que a repreende por se negar a seguir estritamente os códigos de etiqueta feminina, e ao mesmo tempo o desejo de transgredir essas normas em nome da liberdade feminina. Apesar de Kerri Maniscalco não inovar na caracterização da personagem ou criticar mais avidamente uma realidade, ela consegue desenvolvê-la bem.

O foco é majoritariamente na perspicácia de Audrey Rose. Ainda que apresente personagens femininas em comparação a ela no que concerne ao preenchimento de “requisitos de feminilidade”, a autora não se atém a isso. E, mais, não coloca personagens femininas em oposição. Quando a prima de Audrey Rose foi introduzida na história, tudo levava a crer que seguiria o clichê de mulher ideal versus mulher transgressora. A autora, contudo, revelou que, ainda que a sociedade compare e oponha as mulheres, elas podem ser diferentes e, mesmo assim, amigas.

Isto se intensifica com a vontade de Audrey Rose de resolver assassinatos de mulheres. A personagem em momento algum defende a “higienização” que o assassino promove ao matar prostitutas. Pelo contrário, explora as condições de vida dessas mulheres e a empatia para com elas. Nem toda mulher escolhe a vida de prostituição. E a prostituição não implica numa desumanização das mulheres. Classe não é sinônimo de moral. E o perverso assassino é pior do que todas as regras morais que pretende defender.

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Mistério e romance em “Rastro de Sangue – Jack, o Estripador”

Ao longo da narrativa, Kerri Maniscalco também insere doses de romance, o que poderia desvirtuar a história, como em alguns livros, mas não o faz. O romance na literatura pode ser um pouco complicado diante de uma cultura de romantização do abuso. Em muitos casos, homens autoritários e intransigentes são idealizados em contraste à submissão feminina. E ainda que o par romântico de Audrey Rose seja inicialmente descrito como arrogante, não ofusca ou limita as ações dela.

A autora consegue desenvolver um romance sem dramas clichês e que ainda entretém. Afinal, não há um julgamento negativo dos romances, mas é necessário analisar as relações de poder por trás dos desenvolvimentos. Audrey Rose forma com Thomas uma dupla cativante. As leves discordâncias entre eles fazem parte de um jogo de flerte ainda dentro dos limites aceitáveis. E os personagens se unem para evidenciar o que pode haver de melhor entre eles. São ambos inteligentes e sarcásticos e reconhecem as capacidades do outro, de modo a formarem um bom casal.

Dos fatos para a ficção

Rastro de Sangue - Jack, o Estripador

Mesmo que Jack, o estripador, tenha se tornado lenda, os crimes por ele cometidos foram reais. A autora realizou pesquisa acerca dos nomes levantados como suspeitos e também de suas vítimas para escrever a história. Nem todos os detalhes foram mantidos. Nomes, datas e algumas especificidades foram alteradas para adequação ao enredo.

Entretanto, a autora revelou em entrevista a vontade de desenvolver melhor o que havia por trás das vidas de algumas vítimas. Desse modo, mostrou ao público uma faceta das mulheres assassinadas que o simples registro histórico não concedia. Aproximou as leitoras das vítimas para desconstruir o estereótipo da “mulher delinquente” e mostrar que as prostitutas também são mulheres.

Não obstante, ela fez pesquisa acerca das práticas forenses na Era Vitoriana. Mesmo que a imagem de eras passadas remeta à ideia de defasagem medicinal, muito do conhecimento de hoje se deve aos esforços dos profissionais dessa época. Eram eras de misticismo, mas também eras de produção de conhecimento. Então, a autora se empenhou em revisitar o passado para reimaginar uma série de crimes que poderiam ter ocorrido hoje também.

Rastro de Sangue: uma série de mistérios

A narrativa de Kerri Maniscalco prende. É leve, mesmo diante do assunto, e bem construída. Todos os pontos foram bem amarrados. Kerri consegue inserir elementos de desconstrução ainda que não fuja muito da união entre mistério e romance. Apresenta personagens que conquistam e um mistério que intriga até as últimas páginas. Apesar de o assassino ser um tanto previsível, bem como a motivação, a autora disfarça bem. Há justificativas para quase todos os personagens serem culpados pela série de assassinatos, e isso motiva a leitora a continuar até que tudo seja confirmado.

A série “Rastro de Sangue” possui três continuações. O segundo livro é intitulado “Príncipe Drácula” e também faz referências ao livro “Assassinato no Expresso do Oriente“, da autora Agatha Christie. O terceiro livro intitulado “Escaping From Houdini” e o quarto “Capturing the Devil” já foram lançados em inglês, sem previsão lançamento no Brasil. Mas, seguindo a frequência de publicação da série pela Darkside Books, podemos esperar o lançamento do terceiro para o início de 2020 e do quarto para o início de 2021.

Rastro de Sangue – Jack, o Estripador” é um livro para quem gosta de mistérios no estilo de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, com uma pitada de romance e protagonismo feminino.


Rastro de Sangue - Jack, o Estripador

Rastro de Sangue – Jack, o Estripador

Kerri Maniscalco

354 páginas

Darkside Books

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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