Mulheres nos Quadrinhos: Lu Cafaggi

Mulheres nos Quadrinhos: Lu Cafaggi

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A jornalista e ilustradora belo-horizontina Lu Cafaggi começou a publicar quadrinhos em seu blog pessoal em 2010. No ano seguinte, lançou a Mix Tape, uma coletânea com quatro “gibis miudinhos” de 7×10 cm, que lembram as extintas fitas cassetes, sobre a relação das personagens com a música em narrativas curtas, mas cheias de significado. Já em 2013, Lu foi convidada, juntamente com o irmão, Vitor Cafaggi, para contar a primeira das três histórias da Turma da Mônica dentro do universo Graphic MSP, Laços, adaptada em 2019 para o cinema.

Com a publicação, Lu levou o 26° Troféu HQ Mix nas categorias “Novo Talento – Desenhista” e “Melhor Roteirista” ao lado do irmão, ambos são co-autores da HQ. A sequência, Turma da Mônica: Lições, lançada em 2015, recebeu o 28° HQ Mix na categoria “Melhor Publicação Juvenil” – e em 2017 veio a terceira parte, Turma da Mônica: Lembranças

Mônica e Magali pelos traços de Lu em “Turma da Mônica: Lições”
Mônica e Magali pelos traços de Lu em “Turma da Mônica: Lições” | Imagem: reprodução

Agora, em 2021, Lu segue solo em Magali, a nova Graphic MSP anunciada na CCXP Worlds, e conta em primeira mão para o Delirium seus processos e descobertas!

DN –  Como surgiu seu interesse por quadrinhos?

Curto quadrinhos desde que aprendi a ler. Aprendi a ler com os livros que minha avó, Maria, escolhia para mim entre os livros de escola dos meus irmãos mais velhos. Ela foi professora de português, me ensinou a ler com muito gosto, e reforcei o aprendizado fazendo a leitura dessa outra linguagem, que são os quadrinhos. Meus irmãos mais velhos tinham coleções ótimas de Turma da Mônica e Luluzinha.

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Passei a infância no meio das pilhas de revistinhas. Acho que o meu olhar pro mundo se abriu por meio dessas linguagens. Daí vem o tanto que os quadrinhos me interessam; eles são uma parte fundadora de quem eu sou. E desde essa idade, decidi que queria ser desenhista. A vida foi apresentando outras possibilidades, que fui estudando e curtindo também, mas acabei dando um jeito de me manter firme no plano original.

Pequena Lu Cafaggi cozinheira e sua Magali
Pequena Lu cozinheira e sua Magali | Imagens: reprodução

DN – Quais são suas influências, inspirações ou artistas preferidos? Como isso se reflete em suas criações?

Esse é um tema que sempre me dá muito pra pensar. Fiz um quadrinho sobre isso para a coletânea Mulheres & Quadrinhos, da Dani Marino e da Laluña Machado. Quanto mais eu penso a respeito, mais eu entendo que influência é tudo aquilo que te abre o terreno pra criar ali, então existem muitas formas de se proporcionar isso a uma pessoa, de formas mais artísticas a ações mais práticas e até distraídas.

Quadrinho de Lu Cafaggi publicado no livro Mulheres & Quadrinhos.
Quadrinho publicado no livro Mulheres & Quadrinhos como agradecimento às influências que fizeram Lu ir mais longe | Imagem: reprodução

DN – Lu, você também é jornalista. A profissão influenciou de alguma forma seu trabalho como quadrinista?

O jornalismo foi fundamental pra eu entender que gosto de fazer quadrinhos que contam coisas que considero verdadeiras. Mesmo quando conto uma história de ficção, gosto de comunicar alguma coisa que é verdadeira (uma sensação, um jeito de ser, um contexto histórico…). O mundo do lado de fora da minha cabeça me chama muito a atenção.

É tudo muito gostoso de ficar “curiando” (adoro essa palavra, meu irmão que me ensinou) a respeito, então adoro observar, estudar sobre ele e puxar esses assuntos com as pessoas por meio dos quadrinhos.

Parceria de berço, Lu e Vitor Cafaggi se fortalecem além dos quadrinhos
Parceria de berço, Lu e Vitor Cafaggi se fortalecem além dos quadrinhos | Fotos: reprodução

DN – Quais são seus projetos autorais preferidos? Qual o motivo?

Tem muitos. Uma coisa que me faz gostar dos quadrinhos que gosto é sentir que os autores estão sendo verdadeiros e atenciosos com eles mesmos. Para citar alguns que leio: Florzinha, da Marília Mafé, e Arlindo, da Ilustra Lu. E vou com tudo em tudo o que a Keikoucha, a Dika Araújo, a Carol Rossetti, a Lita Hayata, a Chris Eiko e a Luna Pan publicam.

Autoras que têm lugar garantido no coração da Lu Cafaggi
Autorais que têm lugar garantido no coração de Lu | Imagens: reprodução

DN – Você identifica algum marco na sua carreira ou um momento decisivo que influenciou sua trajetória?

Quando li Retalhos, do Craig Thompson, eu finalmente lembrei que era possível, em quadrinhos, contar histórias de um jeito que se parecia com o jeito que eu entendia o mundo. 

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DN – Como foi guardar por esse tempo a notícia de que você faria a Graphic MSP da Magali? O que podemos esperar da publicação e como é sua relação com essa personagem do Maurício?

Eu estava doida pra que deixasse de ser segredo, porque pesquisei muita coisa legal enquanto escrevia o roteiro! Daí eu queria compartilhar essas coisas nos stories do Instagram e tinha de me segurar, pra ninguém suspeitar. Sobre o que esperar da publicação: pode esperar um trabalho feito com toda a minha atenção e cuidado.

Acho que estou muito “dentro da história” pra saber te dizer o que esperar em relação ao conteúdo dela – e minha relação com a Magali. Ela é a minha personagem favorita (sempre foi a favorita da Turma e agora é a favorita de tudo que existe). Adoro o tanto que ela é tranquila e firme nas coisinhas que curte. Acho que não devo me alongar muito nessa resposta, porque posso acabar entregando um pouco do que preciso contar na Graphic.

A Magali pelos traços de Lu foi revelada na CCXP Worlds 2020
A Magali pelos traços de Lu Cafaggi foi revelada na CCXP Worlds 2020 | Imagem: divulgação

DN – Você já lançou, juntamente com seu irmão, três títulos do selo Graphic MSP. Quais são os desafios para essa criação solo e como é sua rotina de trabalho em “Magali”?

Fazer a Magali tá muito gostoso. Eu estou menos medrosa, porque já passei por outros trabalhos, então sei que consigo chegar até o final. Então tenho conseguido prestar uma “atenção mais desapegada” ao que pede cada etapa da feitura de um quadrinho. Tem sido quase como fazer um quadrinho pela primeira vez. Acho que nunca me preparei pra um trabalho com tanto empenho. Pesquisei um bocado sobre cozinha pra preparar o roteiro.

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Acompanho a Neide Rigo há tempos e com ela cheguei à Nina Horta, daí depois fui estudar química, física, antropologia e, claro, cozinhei bastante e mantive um caderninho, por um tempo, de notas sobre o que comia e como e por quê, nos meus dias. Observar o jeito de comer das outras pessoas e a relação delas com comida e cozinha me ajudou muito também. 

Diário de estudos da Lu com desenhos de comidinhas para a graphic novel da Magali
Diário de estudos da Lu com desenhos de comidinhas para a graphic novel da Magali | Foto: Lu Cafaggi

Depois de pronto o roteiro, vi que encarar o processo com essa postura de “quero aprender mais sobre essas coisas”, em vez da atitude que eu costumava ter (que era mais no sentido de “preciso provar que sei fazer este trabalho”), faz muito mais sentido pra mim, então tenho trabalhado no desenho assim, curtindo as referências de fotografias que fiz dos meus amigos ou de desenhistas que adoro pra poder aprender e tentar reproduzir. Trabalho todos os dias. Tem dias que ainda sinto os medos que mencionei, mas quando consigo entrar nessa outra frequência, mais saudável, nossa, é bom demais.


Edição e arte em destaque por Isabelle Simões. Revisão realizada por Gabriela Prado.


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Rafaella Rodinistzky é graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela PUC Minas e atualmente cursa Edição na Faculdade de Letras da UFMG. Participou do "Zine XXX", contribuiu com a "Revista Farpa" e foi assistente de produção da "Faísca - Mercado Gráfico". Você tem um momento para ouvir a palavra dos fanzines?
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