WandaVision – 1×04:  We Interrupt This Program

WandaVision – 1×04: We Interrupt This Program

Em sua entrada mais expositiva e convencional até o presente momento, WandaVision responde a alguns questionamentos da audiência, levanta um punhado de novos e mantém a audiência atenta às cenas dos próximos capítulos em seu quarto episódio, We Interrupt This Program, disponível na Disney +.

AVISO: o texto contém spoilers de WandaVision

O quarto episódio é o capítulo mais direto e didático da série. Não estabelece um ritmo narrativo novo, adotando uma abordagem mais familiar, que se aproxima de mídias como a série Agents of S.H.I.E.L.D., bem como dos curtas-metragens do próprio MCU. Como estratégia para manter a atenção do público e oferecer uma “âncora” em meio aos mistérios e incertezas levantados pelo território narrativo dos episódios anteriores, esse capítulo traz familiaridade a quem assiste.

No entanto, embora o episódio traga alguns poucos mistérios próprios em seu entorno, dedica-se muito mais a “responder” e situar os questionamentos da audiência. Seria, portanto, uma espécie de “respiro”, um tomar fôlego, antes de prosseguirmos pelos próximos episódios.

Interrompendo a programação 

Monica Rambeau (Teyonah Parris) e Jimmy Woo (Randall Park) em WandaVision
Monica Rambeau (Teyonah Parris) e Jimmy Woo (Randall Park) em WandaVision. (Imagem: Divulgação)

Continuamos no rastro deixado pelo episódio anterior, “Now in Color”, cujas cenas finais nos apresentaram vislumbres do mundo real, desta vez na forma de flashbacks. Somos oficialmente apresentadas à Capitã Monica Rambeau (Teyonah Parris), anteriormente “Geraldine” – embora não houvesse muito segredo quanto à identidade da personagem internet afora, é a primeira vez que WandaVision a endereça diretamente como tal.

Para quem tenha assistido a Capitã Marvel, o nome é familiar: trata-se da filha de Maria Rambeau (Lashana Lynch), a piloto da força aérea amiga de Carol Danvers (Brie Larson). Aliás, o episódio se inicia justamente com falas retiradas diretamente da produção de 2019, fragmentos de memória desconexos que transitam na mente de Monica quando esta retorna do chamado “blip” ocorrido em Vingadores: Ultimato.

Como resultado do estalar de dedos de Hulk, a fim de reverter os efeitos do primeiro estalar empreendido por Thanos em Vingadores: Guerra Infinita, as milhares de pessoas desaparecidas e dissolvidas retornaram abruptamente à vida. WandaVision revela, portanto, que Monica Rambeau era uma delas, reintegrando-se no hospital em que sua mãe se encontrava internada, por ocasião de um tratamento contra o câncer. Entre os cinco anos subsequentes após a passagem do Titã Louco pela Terra, Maria eventualmente faleceu no hospital.

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Mas esta não é sua única participação indireta no episódio: após os acontecimentos de Capitã Marvel, Maria Rambeau ainda funda a organização conhecida como S.W.O.R.D. (em livre tradução, sigla para “Departamento de Divisão e Resposta ao Mundo Senciente”), uma espécie de divisão da S.H.I.E.L.D. voltada para observação do espaço, e monitoramento de eventuais ameaças cósmicas.

Aliás, já se notou a interferência deste Departamento em diversos momentos da série até então – desde o helicóptero colorido avistado no segundo episódio, até o símbolo no colar de “Geraldine” no terceiro. Trata-se, portanto, de uma introdução esperada.

Retrato de Maria Rambeau na sede da S.W.O.R.D. O codinome "Photon" (Fóton) foi utilizado originalmente por Monica nos quadrinhos.
Retrato de Maria Rambeau na sede da S.W.O.R.D. O codinome “Photon” (Fóton) foi utilizado originalmente por Monica nos quadrinhos. (Imagem: Divulgação)

Com o falecimento de Rambeau, e o desaparecimento de sua filha, quem assume a diretoria da S.W.O.R.D. durante estes cinco anos é Tyler Hayward (Josh Stamberg), também introduzido neste episódio. É ele quem recepciona a jovem capitã na sede da organização, três semanas após os acontecimentos de Vingadores: Ultimato – o que inclusive, já posiciona WandaVision cronologicamente. Hayward ainda repassa a Monica, que anteriormente realizara diversas missões no espaço, a incumbência de permanecer na Terra e investigar as estranhas ocorrências de Westview.

A volta dos que não foram em WandaVision

Jimmy Woo (Randall Park) e Monica Rambeau (Teyonah Parris) em WandaVision. (Imagem: Divulgação)

O episódio ainda (re)introduz uma figura relativamente familiar do MCU: o agente do FBI Jimmy Woo (Randall Park), cuja última aparição datava de Homem-Formiga e Vespa, em 2018. Aqui, ele investiga as estranhas ocorrências em Westview, recepcionando Monica e inteirando-a dos acontecimentos. Conta o agente, portanto, que uma testemunha sob sua supervisão, moradora da cidade e alocada no Serviço de Proteção à Testemunha do FBI, desaparecera misteriosamente; durante a investigação acerca de seu paradeiro, parentes e amizades sequer se lembravam que a cidade ou a pessoa em questão existiam.

Tomamos conhecimento, então, que o domo em torno de Westview não apenas absorveu toda a sua população na realidade televisiva habitada por Wanda (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany), como também a envolveu em uma espécie de cortina de esquecimento para o mundo exterior.

Monica questiona como ela e Jimmy reconhecem a existência do local, mas a pergunta permanece sem resposta: logo a capitã é absorvida ao se aproximar demais da superfície do domo, reaparecendo do outro lado como “Geraldine”, conduzindo-nos aos acontecimentos dos episódios anteriores.

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Cena de WandaVision. Imagem: Disney+
Cena de WandaVision. (Imagem: Divulgação).

Darcy Lewis, vista pela última vez em Thor: O Mundo Sombrio, de 2013, também retorna aqui, desta vez como doutora em astrofísica, recrutada pela S.W.O.R.D para investigar os pulsos emitidos pelo domo de Westview. Ela reconhece as tais ondas como CMBR (ou “radiação cósmica de fundo em micro-ondas”), uma forma de radiação eletromagnética residual, datada do Big Bang, e que de fato existe: descoberta na década de 60 por Arno Penzias e Robert Woodrow Wilson, ganhadores do Nobel de Física de 1978, ela é responsável pelo ruído de estática em canais mal sintonizados ou fora do ar. A partir deste ruído, Darcy identifica a transmissão e a sintoniza em uma TV analógica, que exibe as imagens de Wanda e Visão no formato televisivo que acompanhamos até então.

Darcy Lewis (Kat Dennings) e Jimmy Woo (Randall Park) em WandaVision
Darcy Lewis (Kat Dennings) e Jimmy Woo (Randall Park) em WandaVision. (Imagem: Divulgação)

Neste capítulo um pouco mais “tradicional” em relação às exibições anteriores, Jimmy Woo e Darcy Lewis cumprem o papel da audiência dentro do show – figurativa e literalmente. As personagens, portanto, dedicam-se a mapear o perfil de cada uma das pessoas exibidas na tela da TV, identificando seus nomes verdadeiros e ocupações em fichas, além de listar as perguntas levantadas desde os primeiros episódios: qual o significado dos hexágonos nos temas de abertura? Qual o motivo da atmosfera de sitcom? Visão não estava morto? Assim, apesar de ajudar a situar quem assiste, a exposição excessiva destes questionamentos pode soar um tanto didática em alguns momentos – como que direcionando suas espectadoras ao que elas deveriam se perguntar enquanto assistem.

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Em outros, contudo, a série aposta em uma abordagem mais intrigante na hora de plantar novas perguntas, e não apenas reafirmar aquelas presumidamente já feitas – como, por exemplo, a ficha vazia correspondente à personagem de Agnes, ou as observações anotadas na ficha do personagem Norm, que podem requerer uma pausa no player de exibição ou uma atenção mais redobrada aos detalhes.

Em seguida, Jimmy e Darcy ainda acompanham os episódios de WandaVision, e se interessam genuinamente pelo enredo e pelas personagens envolvidas. É praticamente um reflexo da própria audiência interessada na série, que reconhece os mistérios para além de uma “mera” homenagem aos programas clássicos da televisão estadunidense, mas ainda se vê engajada nas histórias criadas para aquele simulacro de realidade enquanto espera por indícios de algo maior.

Outra referência um tanto quanto sutil é o fato de que tanto Randall Park como Kat Dennings já protagonizaram sitcoms – Fresh Off the Boat e Two Broke Girls, respectivamente –, algo que a própria showrunner Jac Schaeffer comenta a respeito, referindo-se às interações como uma “metalinguagem divertida”. E, de fato, as tiradas engraçadinhas das personagens funcionam como um humor sutil e pontual, de modo que a audiência não perca de vista a atmosfera de estranheza (e, por vezes, terror) que ainda ronda a série.

Voltamos à programação normal: o retorno de Wanda após as digressões do quarto episódio de WandaVision

Visão (Paul Bettany) e Wanda (Elizabeth Olsen) em WandaVision.
Visão (Paul Bettany) e Wanda (Elizabeth Olsen) em WandaVision. (Imagem: Divulgação).

A Feiticeira Escarlate somente reaparece perto do fim, quando vislumbramos a expulsão de Monica da barreira de Westview. Logo em seguida, deparamo-nos com um (quase) jumpscare na aparição seguinte de Visão, como que lembrando às espectadoras de que nem todos os mistérios se solucionaram neste capítulo expositivo – mesmo que uma ofegante Monica Rambeau estirada na grama em frente ao domo, exclame que Wanda está por trás de tudo.

O olhar de confusão e surpresa da feiticeira ao vislumbrar o brilho vermelho irradiado por seus poderes (e que não tínhamos visto até então, em virtude da caracterização dos efeitos especiais de acordo com o formato de cada década), ou o terror de deparar-se com um vislumbre cadavérico de seu marido, sinaliza-nos a não adotar saídas simples ao teorizar a respeito da série. Neste esteio, uma vez que se estabeleça oficialmente o que muitas de nós já sabíamos e meramente esperávamos confirmação – Wanda possui algum nível de controle sobre Westview –, resta-nos teorizar acerca da força motriz (quem ou o quê) por trás das alterações daquela realidade.

Tendo em vista conhecidas histórias dos quadrinhos como os eventos Vingadores: A Queda (2004) e Dinastia M (2005), não é difícil encontrar quem cite exaustivamente o histórico de Wanda Maximoff nas HQs dos últimos quinze anos, na expectativa de que a série nos mostre uma heroína enlouquecida, vilanizada e incapaz de lidar com a extensão dos próprios poderes sem prejudicar a si mesma e às pessoas ao seu redor.

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Cena de WandaVision
Cena de WandaVision. (Imagem: Divulgação)

Em uma entrevista para a Total Film Magazine, Jac Schaeffer declarou não desejar seguir pelo caminho mais “fácil” – e um tanto quanto preguiçoso – ao retratar a Feiticeira Escarlate em WandaVision. Há mais de quarenta anos nos são contadas histórias de mulheres “enlouquecidas” que, inábeis no controle de seus poderes, são por eles dominadas – para além da própria Wanda, histórias como X-Men: A Saga da Fênix Negra (já adaptada duas vezes para os cinemas) em relação a Jean Grey, por exemplo, não nos deixam mentir.

Desta forma, WandaVision tem a chance de se estabelecer como um diferencial em relação a como tais personagens foram, e ainda são retratadas, na medida em que sua showrunner mostra se comprometer em explorar os desejos e a pessoalidade de sua protagonista, para além do velho estereótipo de “mulher descontrolada” e convenções relativas à “histeria feminina” que até hoje seguem a personagem. Se essa empreitada resultará bem-sucedida, só o futuro dirá.

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WandaVision - 1x04:  We Interrupt This Program

We Interrupt This Program de fato se apresenta como uma grande interrupção na grade de programação; ao contrário dos famosos anúncios de plantão da TV aberta, contudo, esta situa suas espectadoras em um território relativamente familiar, seja apresentando personagens já conhecidas de outras produções, seja retomando um estilo narrativo mais tradicional. Ainda assim, os mistérios e as estranhezas ainda nos seguem. Com mais cinco episódios de um total de nove, e mais algumas décadas de sitcoms televisivas a serem exploradas, o que WandaVision ainda nos reserva?


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

20 Textos

Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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