Capitã Marvel: Homens odiaram o filme e o culpado é o machismo

Capitã Marvel: Homens odiaram o filme e o culpado é o machismo

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Quando “Capitã Marvel” estreou, em 07 de março, não chocou ninguém com as primeiras impressões negativas em redes sociais e sites especializados. Isso porque este tipo de “crítica” já dava sinal de vida muito antes do lançamento: comentários sobre Brie Larson não servir para o papel por não ser carismática, por não sorrir enquanto defende o universo e até por não ter bunda suficiente eram frequentes. Não foi raro encontrar quem defendesse que a direção seria ruim, que a produção deveria ter escalado gente experiente neste nicho e até a pouco pertinente “quem lacra não lucra”. Mas cá entre nós, a enxurrada de opiniões rasas sobre o desempenho de Capitã Marvel, vindas principalmente de homens (brancos), não parece ter tanto fundamento assim.

“É o pior filme da Marvel”

Gostaria de entender essa, pois o que assisti é um filme com início, meio e fim, coerente e que entrega o que promete. Particularmente, eu esperava algo mais linear, por ver uma Carol Danvers ainda criança nos trailers e por ser baseado na atual HQ, na qual a heroína tem DNA Kree. No entanto, as escolhas narrativas me surpreenderam positivamente e além de mesclar a origem lá da década de 70 com a atual, ainda fez a(o) espectadora(o) desvendar a história ao lado da protagonista.

E ao falar sobre empoderamento feminino e sororidade, sobre os vários lados de uma guerra e até refugiados, a diretora Anna Boden e o diretor Ryan Fleck também conseguiram ir além do entretenimento puro e simples. Nem precisamos citar o humor característico da Marvel, aliado a boas cenas de ação e drama em momentos precisos e emocionantes para o público-alvo, que é sim o feminino – opa, será essa a verdadeira razão para tanto ódio?

Capitã Marvel
Reprodução: Empodere duas mulheres

“Quem lacra não lucra”

Ou porque um filme de super-heroína para mulheres incomoda tanto. Só no MCU foram 20 filmes em 10 anos. VINTE filmes estrelados por HOMENS. Você pode citar a Viúva Negra, a Feiticeira Escarlate e até a Vespa, por exemplo, mas sabemos que elas nunca foram o foco. Então, depois de tanto tempo, fomos presenteadas com um filme estrelado por uma mulher, que não é a Scarlett Johansson, nem tão sexy como eles gostariam e que não sorri ao enfrentar vilões – um verdadeiro absurdo! Confesso que amo a Viúva Negra, mas vamos combinar que ela é tão aguardada pelos homens não apenas por ser incrível, mas por ser o que eles querem homenagear, se é que me entendem… Realmente é complicadíssimo ser homem e, depois de 10 anos e 20 filmes, ter de engolir uma protagonista que eles não queriam ver, dizendo que este não é um filme para eles. #ForçaGuerreiros!

“Perderam a oportunidade de fazer igual [insira outro filme aqui]”

Quando li que poderiam ter caprichado na trilha sonora, como fizeram em Guardiões da Galáxia, me bateu uma preguiça. Até hoje nenhum outro filme da Marvel teve uma trilha como aquela, que é sensacional mesmo, mas ninguém questionou os demais! Nenhum filme do MCU é igual ao outro: Thor é diferente de Homem de Ferro, que é diferente de Capitão América e assim por diante. É diferente até quando todos estão juntos em Vingadores, então por que Capitã Marvel deveria ser igual?

Particularmente, eu achei a trilha sonora no mínimo certeira, porque aquelas músicas fizeram parte da minha adolescência e se encaixaram no contexto do filme. Imagino que detalhes como esse gerem tanta identificação do público feminino com Capitã Marvel, enquanto que para tantos homens a trilha e o filme não consigam ser melhores…

E falando em criar identificação, outra comparação muito pertinente, ainda que deturpada pelos ~críticos~, é com Mulher-Maravilha, nossa melhor referência atualmente. Eu sou apaixonada pelo filme de Patty Jenkins, mas são produções completamente diferentes e uma não é melhor que a outra! A jornada de Carol Danvers cria uma identificação quase que automática, porque vemos que o seu maior inimigo parte de uma vida inteira de homens duvidando e desqualificando a sua capacidade, simplesmente por ser mulher.

Enquanto que em outros filmes os inimigos são externos, pela primeira vez temos de lidar com um vilão interior, conhecido por todas nós: o medo criado por este mundo que nos diz o que fazer, como fazer e quando fazer. Então ver uma super-heroína tão humana, se superando e enfrentando este nosso inimigo em comum é libertador em níveis inimagináveis. Além disso, Gal Gadot, Patty Jenkins e equipe torceram e parabenizaram Capitã Marvel pelo sucesso, então vamos parar de alimentar essa rivalidade desnecessária, ok?

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“O filme é diferente dos quadrinhos”

E é mesmo, porque é uma adaptação. E de uma mídia para outra, então é certo que coisas na HQ podem não funcionar na telona e ponto. Além disso, este não é o primeiro filme com algumas mudanças. E já que falamos sobre Guardiões da Galáxia, sabiam que a origem de Peter Quill tem MUITAS diferenças se comparada a HQ? Mas ainda assim foi o filme preferido para desmerecer a origem de Carol Danvers. Então, porque foi Capitã Marvel que ~arruinou~ todo o MCU?

Minha aposta é que se atreveram a transformar o poderoso e heroico Capitão Marvel em uma mera cientista Kree disfarçada de terráquea… Mesmo que no filme tenha sido Mar-Vell/ Dra. Lawson (Annette Bening) quem “dá” os poderes a Carol Danvers, em um incidente envolvendo tecnologia Kree e Yon-Rogg (Jude Law), assim como nos quadrinhos… Não importa, porque o grande pecado foi transformar O Mar-Vell/ DOUTOR Lawson das HQs em A Mar-Vell/ DOUTORA Lawson nos cinemas!

Reprodução: IGN.com

Para ser honesta, as únicas grandes diferenças são que na HQ ela se torna Ms. Marvel e, no cinema, encaixaram o Tesseract no incidente, mas nada disso afeta a história e continua coerente. Então, meu palpite é que os homens não estão incomodados com os possíveis furos da história, ou teriam tentado boicotar outros filmes também, mas sim com o fato de se construir uma situação de empoderamento feminino, na qual a protagonista não precisa de um homem nem para receber seus poderes.

Podemos destacar também a ótima leitura que fizeram do conflito Kree/Skrull, que no começo pareceu-me completamente equivocada, mas depois de pensar a respeito, fiquei satisfeita. É muito fácil colocar um povo heroico como os Kree em um conflito com os Skrulls, uma raça de conquistadores, sem refletir que estes esterótipos não representam a totalidade de um grupo. Então, quando nos fazem enxergar que há quem só queira um lar para viver em paz longe do conflito, ou que nos faz questionar se vale tudo em uma guerra, é simplesmente genial. Resumindo, um filme com boas sacadas, atuais e pertinentes.

Arte: Rizurinn

“Filme da Marvel todo mundo assiste”, “o gato salvou o filme”, “só fui pela cena pós-crédito”, etc…

Vamos reiterar que Capitã Marvel é muitíssimo bem amarrado e também vai além ao contar a origem da iniciativa Vingadores. Mostrando como surgiu a necessidade da força tarefa, também vemos que Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Phil Coulson (Clark Gregg) não nasceram prontos e como construíram sua parceria e confiança. Convenhamos também que foi genial a forma que encaixaram o Tesseract – que é basicamente a origem de tudo – em Capitã Marvel e na linha temporal do MCU. Então, olha que legal! Não é só um filme lacrador sobre a heroína mais poderosa do universo, mas também sobre o que culminará em “Vingadores: Ultimato”.

Dizer que ela já chega poderosa demais é tão raso quanto afirmar que ela nem é tão forte assim. Depois de tantos heróis que lidam com inimigos externos o tempo todo, uma heroína tão poderosa que encara a própria insegurança, ainda que inconsciente, deve ser incompreensível mesmo para alguns homens. E porque qualquer mulher já foi uma Carol Danvers em algum momento, neste mundo que insiste em nos dizer que não somos capazes, afirmo que para nós a Capitã Marvel é forte na medida certa!

Capitã Marvel
Simplesmente rainhas, né mores? Reprodução: Minas Nerds

Sobre os demais personagens, as cenas com a gatinha Goose são ótimas e Nick Fury continua ácido de uma forma carismática, mas afirmar que a estrela do filme é qualquer outro só para não admitir que Brie Larson está impecável, parece só infantilidade. Ou a sua masculinidade frágil. E para não dizer que a gente só critica, eu tenho que concordar com vocês quando dizem que a gente ~só~ vai pelas cenas pós-créditos. Desde o segundo ou terceiro filme do MCU que todos nós fazemos isso, então não seria diferente com Capitã Marvel! Desculpa te decepcionar =)

É claro que ainda há o que questionar, assim como foi com Mulher-Maravilha e será com os futuros filmes do gênero, mas vamos fazer isso pelos motivos certos! Eu não sou nenhuma especialista em cinema, mas como ávida fã de quadrinhos, fiquei completamente encantada com Capitã Marvel, para mim um dos melhores filmes do MCU. E imagino que seja também para grande parte do público feminino, não apenas pela história bem construída, mas pela ligação emocional conquistada. E tudo bem se você é mulher e não gostou tanto, ou se você é homem e sentiu que o filme não era para você. Mas entenda que isso não é motivo para desmerecer gratuitamente algo tão bem feito. E espero, de verdade, que você tente não ser essa pessoa triste e amarga, simplesmente por não ser o centro das atenções pela primeira vez na vida.

Capitã Marvel

Vamos apreciar críticas feitas por mulheres sobre o filme:

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No momento gamer casual. Em tempo (quase) integral Comunicadora, Relações Públicas e Pesquisadora. Pisciana e sonhadora, meio louca dos signos, meio louca dos gatos. Fã de tecnologia, games, e-sports e outras nerdices.
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