A grandiosidade do luto em “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre”

A grandiosidade do luto em “Pantera Negra: Wakanda Para Sempre”

Pantera Negra: Wakanda Para Sempre (2022) foi uma das estreias mais aguardadas pelos fãs do Universo Cinematográfico da Marvel desde que a fase 4 foi anunciada, ainda em 2020. Enquanto Pantera Negra (2018) foi um filme marcado por muita representatividade negra, mas que não fugiu da fórmula da Marvel de trabalhar muito com cenas de ação, o segundo longa da franquia explora muito mais os conflitos humanos e sentimentais, deixando as cenas de lutas físicas em segundo plano. 

Homenagem ao rei T’Challa (Chadwick Boseman) em Pantera Negra: Wakanda para Sempre
Homenagem ao rei T’Challa em Pantera Negra: Wakanda para Sempre | Foto: divulgação / Disney

A história começa com Shuri (Letitia Wright), irmã mais nova do rei T’Challa (Chadwick Boseman), lutando contra o tempo para salvar a vida do irmão, que estava perdendo uma batalha para uma doença misteriosa. Doença essa que nem a inteligência acima da média de Shuri ou a tecnologia avançada de Wakanda conseguem combater.

Esse foi o paralelo encontrado pelo diretor Ryan Coogler para explicar a ausência permanente de Chadwick, que faleceu de câncer em agosto de 2020. A obra é composta por várias analogias entre realidade e ficção que fazem menção à perda que o mundo real sofreu com a partida inesperada de Boseman, que nunca falou publicamente sobre a doença que enfrentava.

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Se destacando entre as diversas cenas emotivas do longa, está a cerimônia de despedida dos Wakandanos para com o Pantera Negra, onde a população se veste inteiramente de branco e é embalada por músicas e danças tradicionais. Muito mais do que uma cena dramática, é a reprodução de uma nação dando adeus ao seu rei e defensor, uma irmã se despedindo de seu maior exemplo e uma mãe chorando a partida de um filho. É impossível não se render à emoção, mesmo para quem não acompanha toda a evolução do MCU.

Letitia Wright como Shuri
Letitia Wright como Shuri em Wakanda Para Sempre | Foto: divulgação / Marvel

A inclinação sentimental do filme foge do padrão preestabelecido dos filmes de heróis, que os aprisiona na caixa de figuras intrépidas presas a cenas de lutas improváveis que causam destruições justificadas, sempre pelo bem maior.

Pantera Negra: Wakanda Para Sempre abre o leque de possibilidades e mostra a humanidade por trás da máscara de um grande protetor. Demonstra que heróis podem ser muito mais do que uma fórmula básica de conflitos e super poderes.

E apesar de manter cenas de ação de mocinhos contra vilões (pois permanecem sendo necessárias em produções do gênero), a direção optou por valorizar sentimentos comuns ao ser humano, que acabam não sendo desenvolvidos em tramas heroicas. 

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As cinco fases do luto em Wakanda Para Sempre

Indubitavelmente, o segundo filme do Pantera Negra é sobre luto, e Shuri é a personagem que mais sofre com esse estado emocional. Ainda que a dor de Ramonda (Angela Bassett) seja imensurável, por tratar-se de uma mãe que sofre a perda de um filho, Shuri precisa lidar, além da morte do irmão, com o falecimento da mãe, que morre na invasão dos Talokan a Wakanda.

As fases do luto em "Pantera Negra: Wakanda Para Sempre"
Cena do segundo filme | Foto: divulgação / Disney

Em 1969, a psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross publicou o livro Sobre a Morte e o Morrer, onde divide o luto em cinco estágios, que podem ser observados no desenvolvimento de Shuri na trama:

Estágio 1: Negação

Na primeira fase do luto, a pessoa tenta não ter contato com a realidade e sofre ao negar a si mesma que um ente querido partiu. No filme, esse estágio é percebido na primeira cena, no momento em que Shuri recebe a notícia da morte do irmão e mesmo assim continua tentando reverter a situação. Também fica evidente durante a cerimônia de despedida, quando a personagem se mostra contrariada durante os ritos realizados.

Estágio 2: Raiva

A raiva é o momento em que a pessoa não consegue mais negar a perda, mas ainda não aprendeu como exatamente lidar com ela. Na produção, acontece quando Ramonda sugere o ritual de queima das vestes que usaram no funeral de T’challa, e Shuri se recusa a participar, além de ficar com raiva da “rapidez” com que todos parecem lidar com a morte de seu rei.

Ramonda (Angela Bassett) e Shuri (Letitia Wright) defendendo Wakanda em cena do segundo filme
Ramonda (Angela Bassett) e Shuri defendendo Wakanda em cena de Wakanda Para Sempre | Foto: divulgação / Marvel

Estágio 3: Negociação

O terceiro estágio é marcado pela tentativa de barganhar alguma solução para mascarar o sentimento da perda. Acontece em todos os momentos em que Shuri tenta ressuscitar o Pantera Negra, claramente tentando trazer seu irmão de volta à vida por meio de atitudes diplomáticas e heroicas que sabe que ele teria se estivesse vivo.

Estágio 4: Depressão

Nesse momento, considerado o mais duradouro dos cinco estágios, a pessoa dá grandes sinais de tristeza profunda e prefere se fechar para o mundo externo pois se considera impotente. Esse é o estágio mais evidente na trajetória de Shuri no longa. Tudo recai com peso dobrado sobre ela no momento em que Wakanda é invadida pelos Talokan e sua mãe é morta durante o ataque.

Esse é o momento em que ela compreende que todos os seus esforços não fariam com que seu irmão voltasse à vida e se sente inapta a assumir o poder que assumiu para si depois de perder o que restou de sua família e não conseguir proteger seu reino. Tudo piora quando ela consegue recriar a erva-coração e não encontra a mãe, o irmão ou o pai durante o ritual, mas sim Killmonger (Michael B. Jordan), que a confronta e a deixa ainda mais atordoada.

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Os cinco estágios do luto em "Wakanda para Sempre"
Cena de Pantera Negra: Wakanda para Sempre | Foto: divulgação / Disney

Estágio 5: Aceitação

A última fase do período de luto é marcada pelo momento em que se compreende que esse é um estado emocional doloroso, e finalmente se aceita a realidade de que uma pessoa querida partiu.

No filme, é marcado pela viagem de Shuri ao Haiti, quando finalmente faz o ritual de queima das roupas que usou nas cerimônias fúnebres da mãe e do irmão. O processo de aceitação se torna ainda mais sentimental e marcante, pois é o momento que Nakia (Lupita Nyong’o) lhe apresenta Toussaint (Divine Love Konadu-Sun), filho de T’challa, o que, ao mesmo tempo em que surpreende Shuri, a conforta, pois sabe que ainda há um pedaço de seu irmão na Terra. 

Superação em Pantera Negra

Apesar de passar por um processo mais lento do que os demais para aceitar as mortes de seus entes queridos, Shuri acaba encontrando nessas perdas a força que precisava para seguir em frente com o legado da família.

Desde o início do longa até o momento da morte de sua personagem, Angela Bassett desempenha o papel de uma rainha que pensa no próprio povo e faz o possível para respeitar o luto coletivo pela morte de um monarca tão importante, ao mesmo tempo que precisa conciliar a dor da perda de um filho com a governança de Wakanda. Essa é a principal herança que Shuri recebe não apenas da mãe, mas do pai e do irmão, que sempre buscaram governar pensando no bem das pessoas que viviam sob sua regência. 

Angela Bassett na continuação de Pantera Negra
Angela Bassett em Pantera Negra: Wakanda para Sempre | Foto: divulgação / Disney

Todo o apelo sentimental explorado na medida certa por Ryan Coogler faz com que as quase três horas de duração do filme pareçam curtas, tendo em vista o envolvimento do público com a narrativa dos personagens. Embora misture comédia e ação, as cenas dramáticas e a produção como um todo mostram de maneira nada sutil que a grandiosidade do luto não está apenas nas fases de sofrimento da perda, mas sim em aprender a lidar com o ciclo da vida e em todo o processo de compreensão do sentimentalismo humano.

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Uma quase jornalista apaixonada por música, literatura e cinema. Seus maiores hobbies são criar playlists para personagens fictícios e falar sobre Taylor Swift nas redes sociais.
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