“Derry Girls” e a apatia como instrumento de defesa

“Derry Girls” e a apatia como instrumento de defesa

Com 8.5 no IMDB e disponível na Netflix, Derry Girls pode ser a tragicomédia que você procura. A história apresenta as aventuras de um grupo de adolescentes forçados a amadurecer enquanto, durante os anos 90, protestantes e católicos travavam o maior conflito político da história da Irlanda do Norte. É uma espécie de mundo invertido, onde a vida funciona quase normalmente em meio a uma guerra civil.

O maior atrativo de Derry Girls é que o conflito aparece como um dos planos de fundo da história. O grande elefante branco está sempre ali, mas nunca é aprofundado. Você pode olhar assustado, mas nem mesmo você quer pensar neste problema.

A série se passa nos anos 90 e durante as três temporadas vemos diversos assuntos e clichês da adolescência: falta de dinheiro, tabus sobre sexualidade, religião e, claro, o amor.

É difícil amadurecer em meio a momentos históricos.

Quem são as Derry Girls

Temos como eixo central da história: Erin (Saorse Monica- Jackson) e Orla (Louisa Harland) – primas que convivem com sua família; além de James (Dylan Llewellyn) e Michelle (Jamie- Lee O´Donnell). Cada personagem cumpre o papel tão conhecido nas séries adolescentes; Erin é ingênua, Orla não reproduz as normas sociais, Michelle é egoísta e manipuladora, e James é inglês – maior ofensa possível para as garotas.

James é um garoto inseguro e não se incomoda em fazer parte de um grupo feminino. O personagem sempre é desconsiderado por ser ao mesmo tempo “o inimigo”. Apenas quando James decide “ser uma Derry Girl” que elas conseguem se conectar com o personagem de forma mais tranquila.

Cena de "Derry Girl"
Divulgação

Highlights

Uma das personagens favoritas do público é Clare (Nicola Coughlan), uma garota loira, gorda e sáfica, que sai do armário mesmo estudando num colégio católico. Porém, isso não afeta em nada a dinâmica com o restante do grupo, e esse é um grande ponto na obra. Ela é extremamente inconveniente, beira a histeria e tem algumas das melhores cenas da obra, além de ter um corpo comum a muitas adolescentes.

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Clare (Nicola Coughlan) em Derry Girls
Clare (Nicola Coughlan) em Derry Girls | Imagem: Divulgação

Outros personagens colaterais têm uma dinâmica muito conhecida em obras do gênero; temos o núcleo escola-família que movimenta a vida tranquila de Derry, a segunda maior cidade da Irlanda do Norte. Nesse sentido, as movimentações dos adultos em Derry Girl são politicamente ingênuas como as das adolescentes. Ou seja, os conflitos surgiram antes dos personagens propriamente e assim eles escolheram ignorar os momentos históricos que compõem o cotidiano.

Após um ou dois episódios de estranhamento, é interessante observar a figura de maior autoridade da série. A rígida irmã Michael (Siobhán McSweeney), diretora do colégio, se opõe a figura nada austera do Padre descolado, interpreto pelo ator Peter Campion, que mais parece um item decorativo.

A série marca o primeiro momento de negação da realidade conflituosa quando escolhe não detalhar a movimentação e atuação do IRA (que controla e ocupa toda a região), tendo em vista que a figura de autoridade é estabelecida por meio de uma freira sem freios sociais e de um padre que escuta rock. A obra, portanto, opta pela negação como mecanismo de defesa, numa tentativa de normalizar o cotidiano em meio a uma guerra civil.

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Em volta dessas incertezas, a conexão ocorre de forma fluída. Ou seja, se durante sua adolescência a sua cidade recebesse a visita do presidente norte-americano e de sua filha (que tem a mesma idade que seu grupo de amigas), você teria alguma reação além de tentar fazer a filha do presidente membro honorário do seu grupo?

Derry Girls
Imagem: Netflix (Divulgação)

Mas chega um momento onde toda essa negação falha. Sabemos que tais escolhas são difíceis e que as garotas fazem de tudo para ignorar a guerra. Seja através de um romance impossível, luto familiar, fim de amizades ou do peso da solidão, nos conectamos com as garotas. A série, portanto, passa essa sensação de universalidade, tendo em vista que presenciamos uma pandemia e amadurecemos enquanto indivíduos, assim como as protagonistas da série.

Com 3 temporadas completas (a última foi exibida no segundo semestre de 2022), Derry Girls foi a série mais assistida na Irlanda do Norte entre os anos de 2018 e 2022, e por isso ela foi disponibilizada na Netflix. É interessante pensar que a série fez sucesso na região em que ocorreram os desdobramentos da obra, entregando uma homenagem satírica que se alimenta da apatia diária de vivenciar um momento histórico.

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Antes de conhecer Derry Girls, meus conhecimentos sobre o conflito eram limitados à clássica canção Sunday bloody sunday, do U2. Na série tudo parece muito distante e ao mesmo tempo capaz de nos comover. Por fim, um momento tocante ocorre já na última temporada, por meio de um flashback sobre o incidente ao qual essa música se refere, mas claro; é familiarmente superficial como já esperamos ver.

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