“Succession” e a sátira de um capitalismo decadente

“Succession” e a sátira de um capitalismo decadente

Em um primeiro momento, a série Succession (HBO), com seu elenco prioritariamente formado por homens cis brancos, não seria o lugar ideal para iniciar um diálogo sobre novas relações sociais. Assistir ao patriarca bilionário Logan Roy (Brian Cox) manipular seus filhos, enquanto lutam de forma tóxica pelo posto de chefia, é algo que não almejamos tanto acompanhar enquanto espectadoras.

O criador da série, Jesse Armstrong, que já foi roteirista de Veep e Black Mirror, vem para virar tudo do avesso em contrapartida ao que se apresenta como premissa. Armstrong conta ainda com a parceria de um produtor executivo de peso e também ex diretor do programa de humor mais tradicional norte americano, Adam Mckay (Saturday Night Live).

Logan e seus filhos na série Succession
Logan e seus filhos. (Imagem: reprodução)

Na série, acompanhamos a corrida e toda a politicagem envolvida na busca por um sucessor ao comando da fictícia Waystar, um conglomerado de notícias e parques de diversões liderado a cinquenta anos por Logan Roy. Assim como o sobrenome, Roy, quase royal, essa família bilionária está totalmente distante de tudo que é considerado ordinário.

Para além das viagens suntuosas e milhares de funcionários, o que realmente chama a atenção é a construção primorosa de personagens que é acompanhada por um texto afiado. Armstrong e Mckay fazem com que seja fascinante visualizar os conflitos envolvendo a escolha do sucessor ou sucessora de Logan. 

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Succession tem duas temporadas, sendo a primeira lançada em 2018 com pouco alarde, apesar dos 88% no Rotten Tomatoes – a segunda temporada estourou com 97%. Agora com as indicações ao Emmy de 2020, Succession está sendo comparada a antecessora Game of Thrones pelo grande número de indicações (18 no total). Dentre elas, a de Melhor Série Dramática. Interessante pensar como em um ano celebramos uma narrativa fantasiosa com dragões, para no ano seguinte nos depararmos com uma sátira contemporânea dos 2% que compõem a sociedade moderna.

No entanto, para falarmos de Succession, precisamos primeiramente conhecer um pouco sobre cada um dos naturais sucessores ao trono do magnata Logan Roy, seus queridos filhos.

O primogênito neutro, Connor

Connor e sua namorada Willa em cena de Succession.
Connor e sua namorada Willa em cena de Succession. (Imagem: reprodução)

Dentre os Roy, o primogênito acaba sendo sempre a piada mais óbvia. Connor (Alan Ruck) – o ator é nada mais nada menos que Cameron Frye, o melhor amigo de Ferris Bueller de “Curtindo a vida adoidado”.

Connor é um bon vivant e mora em uma mansão rural, retirada no Novo México, com sua namorada e ex garota de programa, Willa (Justine Lupe). Aliás, a ex profissão de Willa, que agora é uma dramaturga, dificilmente passa batido nos comentários e piadas maldosa da família.

O personagem de Alan Ruck é bonachão e flerta com temas progressistas, como a mudança climática, ao mesmo tempo em que pensa em pagar milhões pelas bolsa escrotal de Napoleão Bonaparte. Fica difícil, dessa maneira, não lembrar de outro tipo muito parecido, o príncipe Andrew da família real inglesa, agora derrubado do posto de membro sênior da realeza por conta de suas excentricidades e contatos com redes de prostituição.

Kendall – o garoto de ouro estragado

Kendall Roy na série Succession
Kendall Roy em Succession. (Imagem: reprodução)

Se existe alguma fábula mais coerente do “pobre menino rico”, com certeza Kendall Roy (Jeremy Strong), leva essa prêmio. Kendal, que nos é apresentado como um yuppie excêntrico a caminho da sucessão, garantida na primeira temporada, ganha camadas extras no decorrer dos episódios. Viciado em cocaína e em recuperação, ele perdeu sua esposa Rava (Natalie Gold), talvez a única personagem realmente ética de toda a série, e a guarda dos dois filhos.

No piloto da primeira temporada, Kendall está razoavelmente recuperado e de volta a ativa, depois de três anos limpo. Ele é um cara do bem e teria tido talvez um outro destino se não fosse o meio onde foi criado e as pessoas a sua volta. Roy, portanto, é o coração da série, e adoramos sofrer com ele. Mérito de Jeremy Strong por criar um personagem tão complexo, e não a toa, ele está indicado ao prêmio de Melhor Ator em Série Dramática, junto com seu “pai”, o veterano Brian Cox.

Siobhan – Shiv para pouquíssimos íntimos

Siobahn em Succession.
Siobhan em Succession. (Imagem: reprodução)

Interpretada por Sarah Snook (indicada ao Emmy como Melhor Atriz Coadjuvante de Série Dramática), Siobhan é o estereótipo perfeito da “cold bitch”, daquele tipo que consegue julgar tudo em um ambiente apenas com um olhar, desde a decoração e as pessoas, mantendo uma expressão neutra.

Siobhan está sempre impecável com seus terninhos e camisas caríssimos, além de minimalista com sua maquiagem simples ao modo das verdadeiras bilionárias. É a única dos quatro irmãos a seguir uma carreira em paralelo a empresa do pai, atuando como estrategista política. Parece ter um talento real e alheio aos benefícios de seu sobrenome.

Fica clara a diferença com que ela é tratada em relação aos seus irmãos, mas não ao ponto de realmente sentirmos muita empatia com a personagem. Shiv tem a personalidade mais parecida com a do pai e parece incapaz de qualquer empatia, principalmente com seu companheiro, Tom (Matthew Macfadyen – o Darcy de “Orgulho e Preconceito”). Ele, aliás, é um alpinista social que falaremos melhor ao final do texto.

O caçula desconcertante, Roman 

Roman Roy em Succession. (Imagem: reprodução)

Ainda pensando em um casting de rostos conhecidos da década de 80, temos Kieran Culkin, irmão de Macaulay Culkin, que vive o caçula dos Roy. Roman é o playboy sádico depravado que todos conhecemos. Porém, assim como Kendall, ele mostra outros aspectos interessantes de sua personalidade, sem nunca necessariamente contradizer o estereótipo que o representa.

É delicioso, portanto, acompanhar as tiradas de Roman, além da forma como ele não usa nenhuma cautela social para lidar com qualquer pessoa que esteja ao seu lado. Com exceção do pai, por quem nutre um respeito muito próximo do medo.

Sua inexistência de filtro é uma das melhores ferramentas do sucesso de Succession, e ele talvez seja um pouco a voz não autorizada do narrador. Roman dá rosto a razão da série, que pretende escancarar o ridículo que é a existência de bilionários em um mundo desigual.

Succession, portanto, não vai pelo lado da didática, a série é boa porque confia que seus espectadores entendam todas as entrelinhas contidas no subtexto, e elas inundam a narrativa por todos os lados, muitas vezes de forma explícita.

Succession é um grande sketch dramático

Junte Porta dos Fundos e Saturday Night Live, e mesmo assim nem cheguemos perto do que são as mais de vinte horas das duas temporadas de Succession. O produtor executivo Adam Mckay pode ser considerado uma peça chave na criação do tom da série, principalmente por ser ele mesmo comediante.

Parte do elenco comentou em entrevistas como ele sempre fez questão de inspirar a linha de improviso, tornando as falas de todos os personagens muito mais fluídas, e porque não, engraçadas. Vale ressaltar, na parte da direção de fotografia, a escolha dos movimentos de câmera mais soltos, as vezes zooms aleatórios, como em um documentário. Essa técnica ficou célebre na própria Veep, mais notoriamente no sitcom The Office, e depois na ótima Parks and Recreation. 

E enquanto Succession tem a duração e a densidade narrativa de um drama clássico, quase shakesperiano, muitos momentos de sua construção discursiva leva a comédia. Em um mundo “chato”, depois que minorias passaram a não ser um tema aceitável para piada, é revigorante assistir a uma série completamente voltada para explicitar o ridículo dos homens brancos e super ricos. Entretanto, é difícil contar a quantidade de “fuck off” que os personagens usam, fora as muitas metáforas de poder envolvendo pênis.

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Kendall, Logan e Marcia em uma das muitas confusões em Succession.
Kendall, Logan e Marcia em uma das muitas confusões em Succession. (Imagem: reprodução)

Logan Roy é o representante maior dessa classe de homens que acreditam que são onipotentes. Ele é um imigrante escocês que chegou nos EUA para construir um império midiático, e que claramente não foi construído apenas pelo suor honesto de seu corpo. Não se pode negar o charme do patriarca e a firmeza de seu punho, mas essa narrativa já não cola mais.

E o mais interessante ainda é acompanhar a trajetória de seus filhos, principalmente Kendall. Um empresário bilionário que supostamente seria recebido com sorrisos e agrados, no mundo atual é visto como um personagem um pouco patético. Um homem adulto que vive se referindo ao pai como dad, Kendall é a personificação dessa segunda geração que talvez não vai ser bem sucedida como a primeira, porque talvez as coisas tenham realmente mudado.

Todavia, claro que existem novas lideranças, talvez tão antiéticas quanto a geração de Logan, mas elas têm agora outros rostos e direcionamentos. É o capitalismo se adaptando aos novos tempos.

As mulheres de Succession

Apesar de poucas mulheres, Succession tem personagens muito interessantes e passa quase batendo na trave, no teste Bechdel, apenas se considerarmos a série como um todo. E além de Shiv ser talvez a filha que mais esteja preparada para suceder o comando do pai, ela nunca é totalmente levada a sério por ser mulher. 

Já a personagem Marcia, a esposa, é uma imigrante libanesa ainda com passado misterioso. Ela leva a administração da casa e os cuidados de Logan, que acaba de sofrer um derrame, com competência e precisão. Apesar de cortês e elegante, ela sabe se posicionar muito enfaticamente no jogo do poder, que acontece a cada segundo nos muitos e suntuosos eventos familiares. Quando quer ser enfática e provar seu ponto, Marcia costuma usar a língua francesa e é incrível!

Gerri e Marcia aconselhando Logan.
Gerri e Marcia aconselhando Logan em cena de Succession. (Imagem: reprodução)

Na empresa ainda temos Gerri (J. Smith-Cameron), algo muito próximo ao braço direito de Logan. Ela é um dos muitos personagens inusitados por se parecer demasiadamente com uma dessas tias queridas de consideração, enquanto é, na verdade, uma executiva super perspicaz e estratégica.

E finalmente temos uma participação especial na segunda temporada. A ganhadora do Oscar de Melhor Atriz, Holly Hunter (O piano) interpreta Rhea Jarrell. CEO da maior rede de notícias, a fictícia Pierce, Rhea conquista o respeito e também o desejo de Logan com sua inteligência e análise cirúrgica do negócio e, principalmente, de seus filhos.

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Holly Hunter como Rhea Jarrell.
Holly Hunter como Rhea em Succession. (Gif: Reprodução)

Avaliando em retrospecto todos os personagens, ficamos com a impressão de que os homens em Succession estão ainda vivendo em um mundo fantasioso, onde não conseguem enxergar nada para além de seus próprios egos. Enquanto isso, as mulheres da série, apesar de não estarem necessariamente unidas, têm suas próprias consciências elevadas, com uma visão muito mais clara e estratégica do que acontece de fato em volta delas.

Menção honrosa a Tom e Greg

Necessário falarmos sobre o duo Tom e Greg Hirsh (Nicholas Braun), ambos indicados ao Emmy para Melhor Ator Coadjuvante junto com o colega Kieran Culkin.

Tom é o companheiro de Shiv, e apesar do ator ser originalmente inglês, consegue dar vida ao mais tradicional redneck ou o caipira norte-americano que vai tentar a sorte em Nova Iorque. Aliás, ninguém entende muito bem porque Shiv está com ele, mas a razão começa a ser melhor explorada mais para o final da primeira temporada.

Greg é o sobrinho-neto de Logan, um outsider do clã, já que seu avô não tem boas relações com o irmão, seu avô. Cousin Greg, como é carinhosamente chamado pelos fãs da série, passa a estar presente nas festividades da família Roy por conselho da mãe, e aos poucos vai fazendo parte da empresa, também muito graças a “química” que tem logo de cara com Tom, que é alto executivo por causa de Shiv.

A princípio, sentimos que essa simpatia vem muito mais de Tom, no entanto Greg é um daqueles personagens geniais e diferente de tudo o já assistimos até hoje. E isso é Succession, uma fórmula batida e quase novelesca que foge do senso comum, através de personagens primorosos.

"Cousin Greg" em cena com Tom.
“Cousin Greg”, como ficou famoso nas ruas por Succession, em cena com Tom. (Imagem: reprodução)

O que esperar da terceira temporada de Succession

As filmagens que estavam previstas para março deste ano tiveram que ser postergadas pela nossa situação atual da pandemia do Covid 19. Aparentemente a nova data para filmagens estaria prevista para novembro deste ano. O que significa que, com sorte, teremos a terceira temporada no final de 2021.

Existem algumas teorias sobre a primeira temporada ter sido mais voltada para o arco de Kendall, na segunda para Shiv, e talvez a terceira temporada foque mais em Roman. Há certamente muito o que ser desenvolvido em cima do personagem, principalmente no que diz a respeito de suas questões sexuais.

No entanto, a única pessoa que poderia realmente sanar a nossa curiosidade seria Brian Cox, que segundo algumas fontes teria ouvido do próprio showrunner o que vai acontecer na terceira temporada, já adiantando que será algo incrível.


Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.

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Jacu metropolitana com mente abstrata, salva da realidade pelas ficções. Formada em comunicação social, publicitária em atividade e estudante de Filosofia. Mais de trinta anos sem nunca deixar comida no prato.
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