Antonia – Uma Sinfonia: biografia de uma das primeiras maestrinas da história

Antonia – Uma Sinfonia: biografia de uma das primeiras maestrinas da história

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Antonia Brico foi uma das primeiras mulheres a reger uma orquestra erudita no mundo. Imigrante holandesa nos EUA, ela conquistou uma promissora carreira na Europa, antes de voltar ao país norte-americano e se estabelecer no estado do Colorado.

A diretora holandesa Maria Peters ficou fascinada ao descobrir a história de sua conterrânea, e se perguntou como essa história nunca havia chegado às telas do cinema (além de um documentário de 1973 sobre a maestrina).

Peters, então, conseguiu trazer à vida uma versão ficcional sobre Antonia. O filme foca em sua trajetória entre os anos de 1926 e 1933, quando começa ativamente a procurar uma carreira profissional ligada à música. Enfrentando tanto o preconceito da sociedade quanto a falta de apoio de seus pais adotivos, a protagonista percorre uma jornada improvável para as mulheres da época.

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Antonia (Christanne de Brujn) no filme "Antonia - Uma Sinfonia".
Antonia (Christanne de Brujn) em “Antonia – Uma Sinfonia”. (Imagem: divulgação)

Aspectos técnicos que prejudicam Antonia – Uma Sinfonia

É uma pena que o filme seja construído de uma forma que deixa muito a desejar. O roteiro não desenvolve nenhuma das personagens, nem mesmo Antonia, além de dar alguns saltos grandes demais, fazendo parecer que a protagonista consegue as coisas com toque de mágica. Ela é definida apenas por seu amor pela música, e nada mais. É impressionante que num filme com mais de duas horas de duração, o público consiga saber tão pouco sobre a protagonista.

Outro incômodo, talvez o que mais prejudica a fruição da história, é a falta de organicidade da trama. Os diálogos são por vezes risíveis, calculados, mais pensados como frases feitas para causar um impacto do que como uma representação de como as pessoas realmente se comunicam. Por exemplo, o gerente de concertos que a expulsa de um teatro logo no começo do filme, repentinamente se apaixona por ela, sem nenhuma plausibilidade. E apesar de todo o preconceito que Antonia tem que enfrentar, dois professores machistas a aceitam como aluna sem nenhuma explicação, dois segundos após se recusarem. No entanto, nunca é explicado o que os fez mudar de ideia, nem quais eram suas intenções. As coisas simplesmente “acontecem”.

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Essa falta de organicidade na representação das situações se alia à má interpretação dos atores principais, em especial Christanne de Brujn como Antonia, e Benjamin Wainwright como seu par romântico. A primeira só tem uma única expressão no rosto, com olhos arregalados sempre que tem de enfrentar alguma situação desafiadora, e o segundo mais parece um leão de chácara do que gerente de qualquer coisa, além de incapaz de convencer em seu papel por um segundo sequer. Uma cena “romântica” repentina que os dois tem na varanda de uma festa de gala é uma das coisas mais mal ajambradas já feitas na história do cinema.

Christanne de Brujn e Benjamin Wainwright em "Antonia - Uma Sinfonia"
Christanne de Brujn e Benjamin Wainwright em “Antonia – Uma Sinfonia”. (Imagem: divulgação)

O filme também não convence como um retrato de época, parecendo mais uma trama contemporânea em diversas ocasiões, tanto pela forma como os personagens agem, por vezes muito autoconscientes, como pela parca reconstrução artística de cenário e figurino.

O terço final traz alguma esperança

Após dois terços sofríveis, o filme finalmente foca mais na carreira de Antonia, e menos em sua vida pessoal, e traz algum sopro de alívio. Podemos contemplar a tensão sobre a realização de um concerto nos EUA pelo qual ela tanto batalhou, com uma orquestra formada apenas por mulheres, e essa subtrama é de longe a mais interessante de todas.

Os créditos trazem ainda a informação de que, apesar de Antonia ter obtido relativo êxito em sua época, nunca conseguiu o mesmo reconhecimento que os homens da mesma profissão, e até hoje o mundo da regência permanece muito fechado às mulheres.

Antonia - Uma Sinfonia: biografia de uma das primeiras maestrinas da história
Cena de “Antonia – Uma Sinfonia”. (Imagem: divulgação)

Essa informação nos lembra do quanto é importante termos filmes como Antonia – Uma Sinfonia, por mais imperfeitos que sejam. Ainda mais escritos e dirigidos por uma mulher. Afinal, o direito de falhar é mais uma coisa que não deve ser restrita apenas aos homens. É preciso reivindicar que possamos errar e continuar tendo segundas, terceiras chances, como sempre foi o caso dos cineastas do gênero oposto.

“Antonia – Uma Sinfonia” está disponível nas plataformas de Streaming Now, Claro Vídeo, Vivo Play, iTunes, Apple TV, Google Play, YouTube Filmes e Sky Play.


Edição, revisão e arte em destaque por Isabelle Simões.


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Autora

72 Posts

Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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