A confortável solidão nas canções de Mitski

A confortável solidão nas canções de Mitski

Talvez 2020 seja o ano em que pudemos experienciar com maior propriedade a solidão. De uma forma ou de outra, todos nós tivemos de lidar com muitas questões difíceis durante este ano. A iminência da morte, o medo de perder alguém, a distância física e emocional de outras pessoas… E tudo, durante boa parte do tempo, sozinhos. Claro, 2021 começou e já estamos em meados de fevereiro, ainda sozinhos, ainda em pânico. É como se estivéssemos presos no looping temporal do Dia da Marmota – mas não sei se haverá uma lição ao final da história.

São muitas as narrativas que falam sobre solidão. Geralmente, o estar sozinho é visto como algo negativo e indesejável. Lembro que as revistas dos anos 90 – e algumas durante o início dos anos 2000 – sempre estampavam suas capas com segredos para não ficar sozinha, como conquistar um par, receitas para fazer amigos e ter uma vida social agitada.

Ainda que eu não concorde com nada disso, pois não enxergo a solidão como inimiga, é estranho ter de lidar com uma situação que nos impele para ela. Estar sozinho agora é questão de saúde pública, de bem-estar social. E isso pode ser difícil. Mas a solidão não precisa ser um demônio que nos engole – ela pode ser confortável.

Mitski
Mitski. Foto: Bao Ngo (reprodução)

Encontrei esse abraço em diversas coisas durante esse quase um ano de quarentena. Uma delas certamente foi as músicas da Mitski. Ela tem 30 anos, é nipo-americana e compõe sobre a solidão. Suas músicas são como um abraço que diz que está tudo bem estar sozinha, tudo bem desejar coisas que não se têm, pessoas que não se sabe se um dia estarão ali. É normal, não é o fim do mundo. A espera pode ser poética e bonita, não tem problema.

A ficção nas letras de Mitski

Porém, suas letras não são confessionais. Em entrevistas, a cantora já afirmou não escrever necessariamente sobre si mesma, até implicando que mulheres são geralmente acusadas de serem sentimentais e de se revelarem em suas músicas, especialmente quando as mesmas são românticas; enquanto isso, homens apenas são tidos como intérpretes do romance, raramente aqueles por trás do sentimento. Ainda existe misoginia no mundo musical.

Não que Mitski se importe. Assim como Taylor Swift, que recentemente descobriu a ficção dentro da composição musical, Mitski segue com suas músicas que podem ou não ser sobre ela. Esse julgamento diz mais sobre a própria pessoa que o profere do que sobre a artista. O fato é que, ficção ou não, nada grita mais “quarentena” do que a canção “Nobody“, do álbum Be the Cowboy.

“My God, I’m so lonely
So I open the window
To hear sounds of people
To hear sounds of people”

Todavia, embora esse seja seu álbum mais famoso, é em Lush, o primeiro de sua carreira, de lançamento independente, que encontro maior refúgio. Ele é melancólico, mais do que Be the Cowboy, que pende para o rock. Em Lush, tudo é onírico e tudo é um pouco triste, mas bonito. Ao contrário do outro, que é sobre afirmações, às vezes até mesmo agressivas, este é sobre desejos. Há muita ficção, nem tudo é confessional, mas mesmo a ficção é repleta de anseios, de angústias, de quereres. Daquilo que falta.

Entre Lush e Be the Cowbo: a aceitação do desejo

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Mitski. Foto: Bao Ngo (reprodução)

Quando passeamos por sua discografia, que conta com cinco discos, e analisamos suas letras, percebemos uma mudança de tom da jovem Mitski para a mulher adulta. Seus anseios melancólicos tornaram-se expressões com menos lacunas e mais contornos firmes sobre quem ela é – ou o que sentem suas personagens.

“I am hungry
I have been hungry
I was born hungry
What do I need?
I am something
I have been something
I was born something
What could I be?”

A mulher que canta a lacuna em “Abbey“, uma das mais belas músicas de Lush, não é a mesma que fala sobre a solidão em “Nobody”. Ainda existe um desejo, mas ele é menos nublado. Existe exatidão, existem palavras expressando precisamente aquilo que ela deseja.

Lush passa a sensação de ser uma só com o precipício. Be the Cowboy nos traz a imagem de uma mulher à beira dele, o encarando com curiosidade e um pouco de afeto, confortável em seu lugar, ouvindo sua voz ecoando nas pedras e sabendo que, embora sozinha, existe mais do que ela.

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A solidão confortável nas canções de Mitski
Mitski. Foto: Samantha Marble (reprodução)

As lacunas foram preenchidas com certezas. “Your mother wouldn’t approve of how my mother raised me / But I do, I finally do” – ela canta em “Your best American girl“. Falar sobre término nesse tom, ao invés do lamento, é também abraçar a si mesma e dizer que tudo bem estar sozinha, que tudo bem ser como se é. Não há erro em se amar, mesmo que o outro não nos ame. Também não é vergonha alguma precisar de alguém.

“There is a door to me
I’ve never seen it
Sometimes I get closer to it
But I’ve never found it
At twilight, I almost had it
But then the night fell
And I looked out at the dark and wondered
How could I have lost it?

Then, one night, at the park I saw it
With my cheek in the dirt
I couldn’t move underneath the dark
But at least I finally found it
Cried out a creak and opened
To show me what’s beyond it
A hopeless violence
I named it love”

Existe beleza em se bastar. Todos precisamos de alguém, de proximidade, de carinho e de troca. Mas, se esse for o centro de nossas vidas, a trajetória fica mais difícil. Bastar-se também é apreciar a companhia do outro – mas sentir-se bem na própria pele. Mitski nos propõe esse diálogo em suas músicas. Escutar Mitski é acostumar-se com sua própria pele – fazer dela casa, abrigo e obra de arte.

 

Edição e revisão por Isabelle Simões.

Autora:

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Jornalista e pessoa da internet há uma década. Analista literária, quando não está lendo, escreve sobre clássicos e sobre mulheres na história. Vive em Porto Alegre, onde está há vinte e poucos anos ajudando na entropia do universo.
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