Yara Flor: Mulher-Maravilha brasileira acumula críticas em primeira edição

Yara Flor: Mulher-Maravilha brasileira acumula críticas em primeira edição

O anúncio de uma Mulher-Maravilha brasileira empolgou os fãs de quadrinhos pelo país em 2020. Contudo, após grande mistério acerca da personagem, somente em janeiro de 2021 pudemos conhecer Yara Flor, heroína criada pela quadrinista Joëlle Jones. A ilustradora e também roteirista já esteve por trás do desenho de personagens como Mulher-Gato, Superman, Batman e do autoral Lady Killer, portanto, um nome de peso para a nova aposta da DC Comics.

Jones é tida em conta alta entre fãs de quadrinhos, por isso tamanha expectativa para a Mulher-Maravilha brasileira (Imagem: reprodução)

Yara Flor: o início

No dia 5 de janeiro de 2021, a espera por Yara Flor acabou com o lançamento de Future State: Wonder-Woman. Contudo, antes de entrar na revista, é válido lembrar que a personagem é uma das heroínas que estão estreando na linha editorial da DC de quadrinhos ambientados no futuro, de 2025 até o fim dos tempos, chamada DC Future State. Apesar da caminhada independente em sua HQ, Yara terá aparições em outros títulos, como Superman/Mulher-Maravilha, ao lado do filho do Super-Homem, Jon Kent, e Liga da Justiça.

Yara Flor aparece ao lado de Jon Kent, filho do Superman, em DC Future State: Superman/Wonder Woman #1 
Yara aparece ao lado de Jon Kent, filho do Superman, em DC Future State: Superman/Wonder Woman #1. (Imagem: reprodução)

Future State: Wonder-Woman é o debut idealizado por Joëlle Jones para a heroína nascida no Brasil, mas criada nos Estados Unidos. Logo no início de fevereiro, a DC Comics anunciou que a personagem ganhará uma série mensal regular, onde será apresentada como Moça-Maravilha, sendo a quarta heroína a usar o título de Wonder-Girl. A trama irá mostrar Yara deixando Idaho para investigar suas origens no Brasil e receberá um teaser em Infinite Frontier #0, com lançamento marcado para 2 de março.

Sabe-se que a nova Mulher-Maravilha está repleta de datas futuras e promessas, mas agora é momento de analisar o que foi publicado até o momento e quais foram as repercussões a respeito da heroína brasileira.

A história de Joëlle em Future State: Wonder-Woman traz um narrador observador que introduz a origem semidivina de Yara ao citar Zeus e Tupã, entregando que haverá hibridismo entre os panteões grego e tupi-guarani, enquanto ocorre uma batalha entre a protagonista e uma hidra indomável. A luta ganha tom cômico e chega a lembrar Hércules da Disney, quando Yara chama por Jerry, seu pégaso de estimação, e ele aparece no último momento para auxiliá-la.

Ouça o episódio >> Mulher-Maravilha 1984: DCpcionante ou maravilhoso?
Pégaso de Yara Flor é decisivo para vitória em batalha.
Pégaso de Yara é decisivo para vitória em batalha. (Imagem: reprodução)

Yara Flor derrota a criatura e deseja levar um pedaço de seu chifre como moeda de troca a ser utilizada no submundo de Hades. Porém, a moça é quase impedida pela Caipora, guardiã da floresta, que surge para zelar pelo local. Quase, pois Yara utiliza uma boleadeira para imobilizar Caipora, que aceita levá-la ao mundo inferior em troca de sua liberdade e não-mutilação da criatura derrotada.

Até aqui já fica claro que a mistura entre as culturas tupi-guarani e grega guiarão a narrativa, o que divide opiniões entre leitores. Outro ponto que merece atenção é a escolha pela boleadeira, uma arma típica dos pampas riograndense, uruguaio e argentino, enquanto Yara tem raízes nortistas.

Continuando a história, vemos Caipora e Yara Flor vencendo uma fila para chegar a Caronte, o barqueiro de Hades que carrega as almas dos recém-mortos pelos rios Estige e Aqueronte. Nesse processo, a heroína se esquece de que precisa pagar o barqueiro e trama uma maneira de roubar a moeda de uma das pessoas da fila, contrariando as indicações da Caipora de que se mantenha longe de tumultos, o que claramente dá errado. Dessa forma, a narrativa se encerra em uma confusão do inferno, literalmente.

A Yara Flor no quadrinho de Joëlle Jones.
Contra todas recomendações de Caipora, Yara movimenta o submundo. (Imagem: reprodução)

Yara Flor: erros e acertos

Pégaso para uma heroína com origens no norte brasileiro, arma típica dos sulistas e mescla das culturas grega e tupi-guarani trouxeram para parte do público um olhar desanimado, já que o nome de Joëlle Jones é bastante querido por aqueles que acompanham seu trabalho – e esperavam algo à altura para Yara Flor.

A ativista e comunicadora indígena Alice Pataxó trouxe várias questões em sua conta no Twitter sobre as falhas de representatividade da personagem:

https://twitter.com/alice_pataxo/status/1346604160616198145?s=21

Para aprofundar nesse assunto, convidamos duas artistas do norte brasileiro. Beatriz de Miranda é designer, pesquisadora sobre estudos feministas e de gênero nos quadrinhos de super-heróis e quadrinista; e Ty Silva é artista visual, quadrinista e mestre em Comunicação e Semiótica, tendo a representatividade feminina em histórias em quadrinhos como tema de sua tese.

Beatriz de Miranda, à esquerda, e Ty Silva trazem reflexões sobre Yara Flor.
Beatriz de Miranda, à esquerda, e Ty Silva trazem reflexões sobre Yara Flor. (Foto: reprodução)
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Primeiras impressões de Yara Flor

Ty Silva:A concepção de Joëlle Jones trouxe uma protagonista de personalidade forte e impulsiva que te deixa interessado em ler as novas edições e conhecer mais sobre o passado de Yara. O desenho da artista é muito bonito e as cenas de ação desenvolvidas evocam uma guerreira destemida, sem apelar para sexualização da heroína. Entretanto, apesar do talento de Joëlle, não convidar nenhum artista indígena brasileiro para a equipe ocasionou diversas problemáticas narrativas e de construção da personagem.”

Beatriz de Miranda: “Pelo pouco que foi apresentado sobre Yara Flor, a super-heroína pouco foge das mesmas representações confinantes da mulher deste gênero de quadrinho, ela é uma mistura das bad girls, com ações desastrosas e ingênuas de uma adolescente, no copo de uma mulher que segue os velhos padrões de beleza da cultura de massa, reafirmadores de valores masculinos, além de seguir o novo/velho discurso de ‘mulheres fortes da atualidade’: é filha de um homem poderoso, o que justifica ela ser também poderosa.”

Processo de pintura da ilustração de Yara Flor por Ty Silva. (Vídeo: reprodução)

Indígena à estadunidense

Beatriz de Miranda: “Yara não foge à regra, apresentada como uma neo-Iracema, não como a heroína submissa igual a de José de Alencar, mas criada aos moldes do estereótipo estadunidense do que é um herói, de sua relação com seus deuses, seu modo de agir, pensar e falar, assim como Iracema, a indígena de face e modos das donzelas europeias.”

Ty Silva: “A utilização de um universo que trazia elementos de mitologia grega, já utilizados na Mulher-Maravilha original, pareceu uma escolha segura dos produtores e que reforçou que a narrativa foi uma construção feita por norte-americanos, brancos e que são distantes da cultura que pareciam querer retratar.”

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Adaptação das cosmologias indígenas

Ty Silva: “Outro grande problema, que tem sido amplamente debatido, é sobre a designação do popularmente chamado “folclore brasileiro”, que nada mais são do que cosmologias indígenas que foram apropriadas por um país que sempre renegou sua origem. Para os povos indígenas e nortistas, os espíritos da floresta fazem parte da sua cosmovisão e a eles se deve profundo respeito. Deste modo, a Caipora construída por Jones acabou por desrespeitar esses povos ao transformá-la em uma criança fofa que não consegue medir forças com a protagonista.”

Beatriz de Miranda: “Paro aqui meus pontos de representação feminina, como uma não-indígena, e trago os de Alice Pataxó sobre o assunto: ela é uma representação estereotipada, sexualizada e que não reflete a ideia de heroína indígena. A autora mistura a antiga religiosidade grega com a indígena e retrata de forma desrespeitosa a relação de uma guerreira com um Espírito da Floresta (Caipora).”

A relação de Yara com Caipora acumula críticas (Imagem: reprodução)

Conclusão

Ty Silva: “Os erros dessa primeira edição superam os acertos, que poderiam ter sido evitados se houvesse bom senso da produtora em vez de reiterar uma prática colonizadora de produzir uma interpretação estereotipada da mulher indígena e da cultura dos povos originários.”

Beatriz de Miranda: É preciso entender a construção histórica deste gênero do quadrinho, bem como o crescente número de personagens representantes de minorias que não pode ser inferido como prerrogativa de êxito das lutas sociais, quando apenas reproduzem pré-conceitos.

Yara Flor em sua aparição na edição #1 da DC Future State: Justice League (Imagem: reprodução)

A estreia da nova heroína traz muitos pontos a serem repensados pela DC Comics. A roteirista e desenhista do título chegou a ler alguns tweets dos fãs brasileiros e se mostrou aberta a tentar compreender, o que não funcionou bem. Contudo, sabe-se que mudanças em uma HQ não dependem apenas dos artistas, mas de outros setores que podem não ser tão flexíveis e preocupados com a representatividade que vá além do marketing. Agora resta aguardar os próximos números da Mulher-Maravilha brasileira para descobrir qual caminho a DC irá seguir.


Revisão realizada por Gabriela Prado.

Escrito por:

Rafaella Rodinistzky é graduada em Comunicação Social (Jornalismo) pela PUC Minas e atualmente cursa Edição na Faculdade de Letras da UFMG. Participou do "Zine XXX", contribuiu com a "Revista Farpa" e foi assistente de produção da "Faísca - Mercado Gráfico". Você tem um momento para ouvir a palavra dos fanzines?
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