Roma: a invisibilidade social das mulheres indígenas e domésticas no México

Roma: a invisibilidade social das mulheres indígenas e domésticas no México

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Dirigido pelo cineasta mexicano Afonso Cuarón, “Roma” retrata a história de uma empregada doméstica que trabalha para uma família de classe média mexicana, nos anos 70. Por meio da personagem protagonista Cleo (Yalitza Aparicio), a narrativa dá voz e visibilidade a um grupo que ocupa um lugar social estruturalmente subalternizado na nossa sociedade patriarcal e capitalista: a figura da empregada doméstica que historicamente experiencia diferentes formas de opressão, enquanto pertencente a um determinado gênero e classe.

O filme, veiculado na Netflix, foi baseado na história de Libo, antiga empregada da família do diretor com quem ele conviveu na infância. Liboria Rodríguez era uma mulher de origem indígena que começou a trabalhar para os pais de Cuarón quando ele tinha só nove meses.

Roma

O resgate da história de mulheres invisibilizadas

Assim como a personagem fictícia Cleo, inspirada na história de vida de Libo, não apenas no México, mas na América Latina, tornou-se hábito que as famílias detentoras de melhores condições financeiras terceirizassem a criação e cuidados dos filhos, contratando babás e empregadas domésticas para tomar conta das crianças, enquanto os pais exerciam atividades externas, relacionadas ao trabalho.

Dessa forma, era comum que os filhos dos empregadores passassem a maior parte do tempo com essas mulheres, que muitas vezes abdicavam do convívio de seus familiares e do cuidado dos seus próprios filhos, a fim de prestar serviço integralmente na casa dos patrões, movidas por uma necessidade de sobrevivência e sustento próprio e da família. Como também em razão de uma legislação deficitária para proteger os direitos e garantias da relação laboral das empregadas domésticas.

Na foto: Yalitza Aparicio, Alfonso Cuarón e Liboria Rodríguez. (Reprodução)

Segundo informações do diretor de Roma, “à medida que ele cresceu, se deu conta de que Libo também era uma pessoa que tinha necessidades, conflitos e uma vida própria, e não era alguém que só lavava sua roupa ou preparava sua comida”. Assim, como resultado de um trabalho minucioso de recriação do México dos anos 70, no início do governo de Luis Echeverría, bem como de reconstrução da sua infância, Cuarón conseguiu resgatar a memória de Libo, humanizando-a e deixando como mensagem, a partir da representação simbólica da personagem Cleo (inspirada em Libo), histórias e vozes que se entrecruzam de mulheres relegadas a um lugar de apagamento na nossa sociedade.

Quantas Cleos, Marias, Franciscas, Ritas, entre outras mulheres de carne e osso dedicaram suas vidas ao cuidado dos filhos dos patrões, exercendo atividades laborais mal remuneradas e precarizadas? E apesar de tudo isso, viveram nos espaços entre as histórias.

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Por que assistir à Roma?

Com uma trama que se passa no México, é comum que as espectadoras questionem o motivo de o filme chamar-se Roma. Mas o título do filme remete-se ao bairro onde o diretor morou na infância, um bairro nobre mexicano. Localizado em uma zona em que a classe alta mexicana se estabeleceu na primeira década do século 20 e conhecido por sua peculiar estrutura arquitetônica, inspirada em mansões europeias.

Além da função social do filme de contar a história de uma empregada doméstica, a narrativa dialoga com episódios importantes da história mexicana, como o Massacre de Corpus Christi, que consistiu no assassinato de estudantes por parte do governo, em 10 de junho de 1971, e que ainda é hoje um dos eventos mais tristes da história do país.

O filme já ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e foi eleito o melhor longa de 2018 por críticos em Los Angeles, Nova York, Chicago e São Francisco. Com três indicações ao Globo de Ouro, Roma levou duas premiações como melhor diretor e melhor filme estrangeiro. Agora, o longa do cineasta Afonso Cuarón é um dos favoritos para a disputa do Oscar 2019 de melhor filme estrangeiro.

Fato inédito para um filme transmitido via Netflix. Após o anúncio das premiações, na cerimônia do Globo de Ouro, Cuarón foi indagado pela imprensa acerca da distribuição do filme para a plataforma streaming e ele respondeu replicando:

“Quantos cinemas você acha que exibiriam um filme mexicano, em preto e branco, falando em espanhol e dialeto, que é um drama sem nenhuma estrela no elenco?”

Roma

Sendo assim, vale a pena conferir “Roma“, porque para além dos motivos de ordem técnica do filme, da fotografia, da reconstrução de um México ambientado na década de 70, do cenário e do figurino, o enredo retrata a desigualdade social da época por contar a história de uma empregada doméstica, como também o abandono das personagens femininas, trazendo à tona o somatório das opressões de classe e de gênero.

https://www.youtube.com/watch?v=ICR6YvcyyJc

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Jornalista, pós-graduada em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais, estudante de Direito, militante femimista, autora do livro A Árvore dos Frutos Proibidos, desenhista, cinéfila e eterna aprendiz na busca do aprender a ser.
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