[OPINIÃO] A Esposa: Precisamos aprender o que é uma relação abusiva

[OPINIÃO] A Esposa: Precisamos aprender o que é uma relação abusiva

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Dizem que há um segredo especial nos casais que conseguem manter um longo casamento. No caso de “A Esposa“, o segredo é, à primeira vista, a perseverança de Joan (Glenn Close). Ela e o marido, Joe (Jonathan Pryce), parecem um casal amável e feliz, até que logo descobrimos a verdadeira dinâmica de seu relacionamento: ela cuida dele como se fosse um filho, lembrando das tarefas mais básicas como escovar o cabelo e tomar os remédios.

Joan, apesar de ser o pilar da família que criou com Joe, é ignorada pelos próprios filhos. Quando Joe, que é escritor, ganha um prêmio Nobel de Literatura, ela praticamente desaparece na festa. O filho do casal, que também deseja fazer da escrita sua carreira, tem interesse apenas nos conselhos do pai, e claramente ignora o que a mãe diz.

O enredo de A Esposa se desenrola na viagem que Joan, Joe e o filho fazem para Estocolmo, para a cerimônia do Nobel. Joan começa a ficar mais apreensiva a cada evento que eles tem que atender na cidade – e são muitos. Alguns flashbacks aparecem, mostrando o casal nos anos 50, no começo de seu relacionamento, e então podemos ver o que os uniu de verdade. Joe se mostra um manipulador nato.

A Esposa

Ele faz todo tipo de ameaças e arruma argumentos do fundo do baú pra conseguir que Joan se sinta culpada e faça o que ele quer. No tempo presente, é muito interessante – e perverso – ver aquele velhinho simpático e extrovertido se mostrar um mega abusador quando Joan começa a perder a paciência e tentar finalmente se libertar. Sem contar que os dois atores dão um show na interpretação. O filme não é lá muito sutil, mas os dois conseguem deixar seus personagens bem interessantes apesar dos clichês.

Assisti ao filme com a minha avó, que é bastante progressista pra idade dela, e o que me intrigou foi que, apesar do filme justamente ser bastante explícito e deixar mais do que claro que aquela é uma relação abusiva, minha avó interpretou ao final como se aquela fosse uma grande história de amor. Foi aí que percebi o quanto nossa interpretação depende realmente do que somos ensinadas. Ela com certeza ainda deve ter na cabeça aquela narrativa de que, se a mulher continua numa relação abusiva, é porque está gostando. Como Joan fazia tudo pelo marido, apesar dele se mostrar um crápula várias vezes, inclusive tendo várias amantes – algo que ela perdoou, minha vó entendeu que Joan provavelmente gostava de viver assim.

Há uma cena chave no filme, em que outra mulher, uma escritora frustrada, conversa com Joan e a desestimula a perseguir uma carreira. Ela conta o quanto as mulheres são desvalorizadas e marginalizadas, não importa seu talento. Isso cria uma grande impressão em Joan. E é um dos elementos que faz com que ela fique mais vulnerável às manipulações de Joe. Ela pensa que ele é uma das poucas opções que ela tem de conseguir uma vida estável. Fiquei até pensando se essa cena passou batida para minha avó.

A Esposa

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Quando o filme terminou, minha avó foi na cozinha pegar água cantando “É o amor”. Eu fui atrás para conversar e problematizar, claro. Como assim ela achou aquilo uma grande história de amor? Ainda mais num filme explícito como esse. E aí ela soltou a frase-chave: “mas foi tudo ideia dela”. Não quero contar aqui o segredo do filme para não dar spoilers (embora esse “segredo” até apareça em algumas sinopses). Mas está tudo contido na velha lição machista de que as mulheres são culpadas por tudo, até mesmo pelas violências que sofrem.

Em vez de entender a escolha que Joan tomou como uma solução para a pressão que Joe e a sociedade colocavam sobre ela, minha vó viu como uma escolha que Joan fez por amor. Como se ela tivesse muitas outras opções, e como se não houvessem grandes consequências a sofrer caso ela se rebelasse. Como se, por ela não ter resistido ativamente, gritado e se posicionado contra tudo aquilo na época em que as escolhas foram feitas, ela estivesse realmente de acordo com tudo.

Os olhares oblíquos e distraídos de Glenn Close, então, foram lidos mais como arrependimento de uma Joan já idosa do que como esgotamento por uma vida inteira tendo que servir a todos em detrimento de si mesma. Isso também faz parte de uma outra mensagem sempre reforçada pelas histórias de ficção que vemos: a de que amar significa necesariamente se sacrificar pelo outro.

Eu gostaria muito que minha avó tivesse tido a oportunidade de aprender outras visões sobre as dinâmicas de gênero. Ainda é uma vitória que ela tenha uma mente mais aberta que o comum para sua geração. Mas é triste constatar como ela, Joan, e as mulheres de sua época sofreram tanto por às vezes sequer terem as ferramentas para detectar a própria opressão.

Afinal, com a violência contra mulheres normalizada por todos, era improvável ser ensinada que aquilo não era normal e correto. Dizem que os ignorantes são mais felizes, mas será mesmo? Joan, ao que parece, pode ter a chance de ser feliz quando finalmente se dá conta do que Joe faz com ela. Afinal, o reconhecimento de uma relação abusiva é o primeiro passo para sair dela.

O marcante discurso da atriz Glenn Close no Globo de Ouro deste ano:

“Dedico à minha mãe, que ficou na sombra do meu pai por todo esse tempo e me disse com 80 anos de idade ‘Eu sinto que não conquistei nada’ […] Digam a si mesmas que vocês conseguem e eu tenho todo o direito de conseguir. […] As mulheres têm de encontrar sua realização pessoal. Temos de seguir nossos sonhos, temos de dizer ‘eu posso fazer isso e eu devo poder fazer isso'”.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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