Lady Killer: bela, recatada, do lar e assassina em série!

Lady Killer: bela, recatada, do lar e assassina em série!

Ela é a primeira que acorda e a última que dorme. Todos os dias ela faz um caprichado café da manhã para as crianças e o marido. Ela está sempre impecável, com seus vestidos rodados – última moda dos anos 50 – e os sapatos de salto alto combinando, além do delineado perfeito dos olhos e os cabelos milimetricamente arrumados, afinal, ela não quer ser taxada de mulher desleixada. Ela cuida da casa, busca as crianças na escola e ainda chega a tempo de preparar um jantar delicioso para o marido. Contudo, ela ainda consegue arrumar um tempinho para se dedicar ao seu hobby favorito: ela é uma matadora de aluguel exímia e se chama Josie Schuller. A ilustradora e autora Joëlle Jones e o autor Jamie S. Rich reuniram o ideal da mulher americana dos anos 50 para satirizar cada aspecto desta personificação nas páginas sangrentas de “Lady Killer“, quadrinho publicado no Brasil pela Darkside Books.

Josie Schuller: destruindo o anjo do lar em “Lady Killer”

Lady Killer
Josie Schuller em “Lady Killer”. Imagem: Joëlle Jones / reprodução

“Ela representava o lado obscuro do ideal feminino da era vitoriana: a ideia de que nada era mais doce e mais puro do que uma boa mulher em casa.”

Lady Killers: Assassinas em Série, Tori Telfer

Quarenta anos antes de Jack, o Estripador, a Inglaterra enfrentou uma terrível série de assassinatos. A responsável era uma dona de casa chamada Mary Ann Cotton. E assim como Mary, Josie Schuller também é a personificação da dona de casa padrão, aquela que dedica todo o seu tempo nos cuidados do lar, além de ser uma serial killer nas horas vagas. 

No quadrinho “Lady Killer“, Josie Schuller vive nos anos 50 e mora com o marido, suas duas filhas e a sogra, e ninguém sabe sobre sua aptidão sangrenta, embora sua sogra desconfie que há algo de errado com a nora. A partir do momento que Josie deixa de cumprir uma das funções mais importantes do cronograma da esposa ideal, como quando ela atrasa o jantar da família, sua sogra suspeita de suas motivações. Tal erro é inaceitável para a sogra, que veio de uma geração de mulheres que, assim como Josie, também foi ensinada a dedicar toda a sua vida e energia para a família. 

Lady Killer
Edição do quadrinho “Lady Killer”, publicado pela Darkside Books. Foto: Delirium Nerd

Na trama de “Lady Killer“, Josie trabalha para uma empresa de matadores de aluguel, aceitando os casos mais difíceis da empresa, que consistem em assassinatos de pessoas poderosas, geralmente homens ricos e cercados de segurança. O chefe de Josie lhe designa casos que profissionais homens provavelmente não conseguiriam realizar, afinal quem poderia desconfiar que por trás de uma femme fatale há uma serial killer impiedosa? No entanto, apesar de Josie ser uma das melhores profissionais dessa empresa, isso não é o suficiente para o seu chefe, que diz que ela está dedicando tempo demais a família e que isso pode comprometer futuramente a qualidade do seu trabalho, mesmo ela provando o contrário. Além disso, Josie ainda precisa enfrentar os assédios constantes do seu supervisor.

Este argumento do chefe de Josie é uma das diversas cobranças que as mulheres que são casadas e tem filhos – até mesmo as mães solo – costumam ouvir quando exercem jornadas duplas de trabalho. Em “Lady Killer” (e também na vida real) a maternidade é compreendida como uma espécie de penitência para as mulheres que trabalham em outro local além do lar. Os maridos e pais não precisam lidar com essas questões, afinal numa sociedade patriarcal e capitalista dos anos 50, no auge do “Sonho Americano”, não era esperado que os homens atrasassem ou perdessem dias de trabalho para se dedicarem aos cuidados da família, pois as mulheres eram os verdadeiros “anjos” designados pela prosperidade familiar.

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No entanto, antes mesmo do surgimento da Segunda Onda Feminista, em 1931, a autora Virginia Woolf disse em “Profissões para mulheres e outros artigos feministas” que a mulher precisa “matar o Anjo do Lar” para encontrar a sua verdadeira liberdade e independência financeira, já que a maternidade e o casamento são instituições que visam podar a energia criativa da mulher. Entretanto, Josie Schuller consegue matar o seu anjo do lar de uma forma um tanto peculiar. A performance enquanto matadora de aluguel foi sua escolha de contrariar tudo o que lhe foi esperado e designado enquanto mulher: passividade, docilidade, altruísmo e recato. De uma maneira grotesca, em “Lady Killer” ela descobre a sua liberdade através dos pisos sujos cheio de sangue, escapando da casa fabricada e plastificada de Barbie.

Os arquétipos femininos das assassinas em série

Lady Killer
Ilustração de Joëlle Jones que está presente nas últimas páginas da edição brasileira de “Lady Killer”. Imagem: reprodução

“Assassinas em série são mestres do disfarce: elas andam entre nós, no mundo, como nossas esposas, mães e avós.” Tori Telfer, autora do livro “Lady Killers: Assassinas em Série“, que também escreveu a introdução deste quadrinho, comentou que há uma diferença na maneira como a sociedade lida com as assassinas em série. Séculos de história nos dizem que os homens são os principais agressores. Mas e quando nos deparamos com a crueldade praticada por uma mulher?

Geralmente, a sociedade lida de três maneiras: a primeira, através da criação de arquétipos femininos associados ao quanto essa mulher é atraente fisicamente, mesmo quando os crimes não tem nada a ver com isso. A segunda, através da criação de apelidos tolos ou infantis quando ela não se encaixa no primeiro caso, como, por exemplo, o caso do apelido escolhido para a serial killer Nannie Doss (Vovó Sorriso). Ou, por último, através da masculinização dessa mulher, ou seja, quando ela não internaliza sua raiva, será comparada a um homem. 

No quadrinho “Lady Killer“, vemos o arquétipo da femme fatale, da mulher atraente e sedutora, na construção da personagem de Josie Schuller. E assim como assegura Tori Telfer, ainda há um mistério no imaginário coletivo sobre as mulheres que matam, pois a sociedade precisa encaixá-las nesses mitos para lidar com a realidade cruel desses casos. O chefe da nossa protagonista utiliza-se desse arquétipo para obtenção do seu lucro, pois sabe que dificilmente as pessoas desconfiarão da existência uma mulher assassina atraente. E no fim da história, a nossa protagonista consegue se libertar ainda mais da amarras que podam sua energia, resultando num desfecho perfeito e que deixa um gostinho de “quero mais”. Pra quem gostou do livro “Lady Killers: Assassinas em Série”, a HQ é um prato cheio (de sangue) e uma leitura imperdível!

A edição da Darkside Books e a vinda de Joëlle Jones ao Brasil

Com roteiro de Jamie S. Rich e Joëlle Jones, a roteirista também é responsável pela arte de “Lady Killer“. E através da mistura da paleta de cores da artista Laura Allred e dos traços no estilo pin-up de Joëlle Jones, temos uma personagem que esbanja elegância e morbidez dentro de um cenário slasher. No final da história, ainda podemos apreciar uma série de ilustrações da artista que ressignificam algumas propagandas e cartazes machistas e sexistas que circularam durante os anos 50. Com uma primeira capa removível que simula uma caixa de sabão em pó, a edição brasileira de capa dura acompanha exclusivamente um par de luvas de látex para te ajudar a limpar todo o sangue expelido no chão e nas roupas, se for adquirido diretamente na loja da editora Darkside Books.

Joëlle Jones foi a primeira mulher a desenhar duas edições inteiras seguidas da HQ Batman (durante a fase Renascimento DC) desde sua primeira aparição em 1939. Em 2016, ela fechou um contato de exclusividade com a DC para desenhar o quadrinho do Homem-Morcego, além de ser atualmente a responsável pela arte e roteiro dos quadrinhos da Mulher-Gato.

A artista foi convidada para a celebração dos 80 anos do Batman na próxima CCXP, e estará presente durante todos os dias do evento, inclusive no Artists’ Alley. A CCXP 2019 ocorre entre os dias 5 e 8 de dezembro, no São Paulo Expo, e os ingressos estão disponíveis para compra no site.


Lady Killer

Jamie S. Rich (Autor) e Joëlle Jones (Autora e Ilustradora)

Tradução: Raquel Moritz

Cores: Laura Allred

Darkside Books

144 páginas

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Fundadora e editora do Delirium Nerd. Apaixonada por gatos, cinema do oriente médio, quadrinhos e animações japonesas.
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