WandaVision – 1×07: Breaking the Fourth Wall

WandaVision – 1×07: Breaking the Fourth Wall

Em um de seus últimos passeios televisivos pelo universo das sitcoms, WandaVision quebra abertamente a quarta parede, e entrega revelações encarando diretamente sua audiência. E mesmo ao confirmar teorias já bastante discutidas internet afora, a série segue surpreendendo o público, mobilizando as redes sociais com memes e especulações, e elevando as expectativas para seu grande final.

Uma dúvida, entretanto, ainda não foi respondida: mais do que uma trama de mistérios, teorias, referências e easter eggs, a série fará justiça à história pregressa de sua protagonista, afinal?

Demolindo as paredes da realidade em WandaVision

Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) no sétimo episódio de WandaVision.
Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) em WandaVision. (Disney Plus/divulgação)

AVISO: o texto abaixo contém spoilers

Em “Breaking the Fourth Wall”, somos trazidas à estética mockumentary popularizada por sitcoms dos anos 2000, como Modern Family, Arrested Development e The Office, caracterizadas por um enquadramento mais improvisado (a fim de simular a câmera de um documentário) e por momentos de conversa das personagens para com a audiência. Acompanhamos a ressaca – física e moral – de Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) após o episódio anterior, quando expandiu as barreiras do Hex para salvar Visão (Paul Bettany), e absorveu agentes da S.W.O.R.D. no processo.

A perda de controle da personagem, que já vinha aparecendo simbolicamente na desconfiança do marido e no aparecimento de Pietro nos episódios anteriores, assume contornos literais quando objetos da casa perdem a forma e oscilam entre décadas diferentes. Diante de tudo isso, uma esgotada Wanda decide tirar um dia para si. Convenientemente, Agnes (Kathryn Hahn) logo aparece à porta e se oferece mais uma vez para cuidar dos gêmeos Billy (Julian Hilliard) e Tommy (Jett Klyne) a fim de que a feiticeira passe a manhã sozinha em casa e tente relaxar.

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Do lado de fora, Monica Rambeau (Teyonah Parris) e Jimmy Woo (Randall Park) têm acesso ao último arquivo hackeado por Darcy Lewis (Kat Dennings) a partir dos computadores de Tyler Hayward (Josh Stamberg): o projeto Catarata, desenvolvido pelo diretor interino da S.W.O.R.D., com o objetivo de reativar o corpo de Visão e utilizá-lo como arma senciente – o que confirma as suspeitas de boa parte da audiência. Monica e Jimmy comentam, ainda, que Hayward só teria conseguido colocar o tal plano em prática após a criação do domo em torno do sintozoide.

Em seguida, utilizando-se de um veículo trazido por uma aliada de dentro da organização, Rambeau não consegue retornar ao Hex em um primeiro momento, mas logo tenta novamente, desta vez por conta própria. Em uma cena comovente, a capitã supera as barreiras erigidas pelo domo televisivo, e adquire poderes especiais, como a capacidade de enxergar o espectro eletromagnético e absorver energia cinética dos golpes recebidos, à semelhança de sua contraparte dos quadrinhos, cujo principal poder é se transmutar em energia. É ela quem, literalmente, quebra a quarta parede do episódio.

Monica Rambeau (Teyonah Parris) em WandaVision
Monica Rambeau (Teyonah Parris) em WandaVision. (Disney Plus/divulgação)

Enquanto isso, Visão acorda em meio às atrações de circo nas quais oficiais da S.W.O.R.D. se transformaram no episódio anterior. O sintozoide ainda encontra em Darcy – vestida como uma “artista de fuga” – uma improvável aliada, assim que esta tem sua mente liberta do controle do Hex. A doutora em astrofísica logo rouba uma van do local e, junto de Visão, parte rumo a Westview para que este reencontre a esposa.

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Logo a seguir, no caminho, Darcy relata os acontecimentos dos filmes anteriores ao Vingador desmemoriado – desde seu início, como a IA Jarvis, em Homem de Ferro, passando por seu nascimento em Vingadores: Era de Ultron, até sua dupla morte em Vingadores: Guerra Infinita. Diante do trânsito inconveniente enfrentado pela van, e após entender a extensão do sofrimento de Wanda, Visão decide voltar para casa por conta própria.

No centro de Westview, Monica tenta conversar com Wanda e contá-la dos planos de Hayward para com Visão, mas é repelida por esta. Quando a capitã consegue convencê-la a permanecer, Agnes logo interfere, afastando a feiticeira e levando-a para sua casa. Não muito tempo depois, Wanda procura pelos filhos no sótão do local, onde encontra estranhas raízes de brilho arroxeado, e um grimório místico desconhecido.

Agnes surge entre as colunas, revela ser a bruxa Agatha Harkness, e projeta em Wanda – e, por tabela, na audiência – uma sequência de acontecimentos dos episódios anteriores a partir de sua perspectiva, e sua interferência em cada um deles, tudo acompanhado de um “novo” tema de abertura, “It was Agatha all along” (“Foi Agatha e mais ninguém”, na versão em português), com direito a risada maligna no final.

Agatha Harkness (Kathryn Hahn) em WandaVision. (Disney Plus/divulgação)
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E para aquelas que assistiram a longas sequências de encerramento por seis episódios, WandaVision finalmente teve sua cena pós-créditos, na qual Monica encontra o porão da casa de Agatha e prepara-se para entrar, até que Pietro (Evan Peters) aparece por trás. O que pode acontecer agora? Que comecem as teorias.

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A escolha do modelo mockumentary para fechar a sequência de homenagens a sitcoms não poderia ser mais acertada. Para uma série cujas pedras angulares são suas metarreferências, a brincadeira com clichês, tropos e convenções narrativas destinadas a contar uma história bem diferente daquelas habitualmente vistas no MCU, WandaVision tinha um grande potencial narrativo em mãos.

Em diversos momentos, as personagens conversam diretamente com a câmera entre as cenas corridas do enredo, e dentro do próprio episódio ainda há a famosa olhadela para a espectadora (bem ao estilo Jim Halpert, de The Office), o que é bem divertido – destaque para a encarada de Visão para a câmera após ouvir toda a sua história de vida contada por Darcy.

Aliás, todos os recursos funcionam muito bem, principalmente quando próximos de cenas um pouco mais tensas, e mantém o clima de estranheza (o famoso “rindo de nervoso”) que já caracteriza a série.

Visão (Paul Bettany) bancando o Jim (The Office) no sétimo episódio de WandaVision.
Visão (Paul Bettany) bancando o Jim em WandaVision. (Disney Plus/divulgação)

Tais convenções, contudo, não atingem todo o seu potencial, especialmente com Wanda. Muito mais que mera ferramenta de humor, o formato mockumentary ainda se caracteriza por aproximar os dramas e expôr as vulnerabilidades das personagens à audiência de uma forma, por vezes, desconcertante – não é à toa que muitas espectadoras terminam séries como The Office com um forte apego emocional a suas protagonistas.

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É verdade que vemos um pouco disso na feiticeira, por trás de uma fachada que ri cansada e repete que está bem, enquanto tenta ansiosamente ocultar suas preocupações de uma câmera que filma seu rosto por mais tempo que o confortável.

Wanda no sétimo epísódio da série
Cena de WandaVision. Imagem: divulgação.

Entretanto, como dito no texto sobre o episódio anterior, ainda esperamos pelo momento em que Wanda mostrará mais de si mesma: considerando que as transmissões para fora do domo foram cortadas em definitivo (informação emitida por Tyler Hayward no início do episódio); e considerando ainda a própria proposta de quebra da quarta parede através do formato popularizado nos anos 2000, havia uma oportunidade muito interessante de que a Vingadora verbalizasse um pouco mais de suas inseguranças à audiência – já que, teoricamente, não havia mais ninguém para escutar.

Por isso, parecia um caminho possível em relação aos dois episódios anteriores: no primeiro, uma reticente Wanda se abrira com o marido; no episódio seguinte, a feiticeira confessara algumas de suas angústias a Pietro. Diante de tudo isso, portanto, conclui-se por uma oportunidade perdida – ainda que pequena – de vermos mais alguns momentos de introspecção da protagonista, e seus sentimentos sobre o que lhe tem acontecido.

Entre seguir por caminhos previsíveis e adotar novas abordagens, o que a reta final de WandaVision nos reserva?

A série, como sempre, mantém a desenvoltura em transitar entre momentos mais “sérios” e “cômicos”, entre Wesview e o lado de fora do Hex, por vezes em um piscar de olhos. O final deste sétimo episódio, durante a revelação de Agnes como Agatha Harkness, é um exemplo muito interessante de como WandaVision consegue brincar com a própria mídia e com as expectativas do público.

Uma das principais especulações da audiência, a apresentação de Agatha não apenas confirma teorias como também levanta outras, tudo isso acompanhado de um número musical bastante divertido e debochado, que empresta o estilo de programas como A Família Addams, e mostra que a personagem de Kathryn Hahn brinca bastante em serviço, no melhor sentido possível.

Cena de WandaVision
Cena de WandaVision. Imagem: divulgação.

Assim, uma vez que chegamos ao “fim” do passeio pelos formatos de sitcoms, espera-se que as próximas entradas de WandaVision não percam a inventividade, o divertimento, e o sutil teor metalinguístico e tragicômico característico de seus capítulos anteriores; tampouco abracem completamente o formato de ação e aventura caraterístico dos filmes do MCU de agora em diante.

Em pouco mais de sete episódios, a série nos mostrou possibilidades muito interessantes, e levemente experimentais, de se contar uma história para além da chamada “fórmula Marvel”, repetida à exaustão nos últimos doze anos.

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Porém, com a revelação de que boa parte dos acontecimentos de Westview têm a manipulação de Agatha Harkness por trás, espera-se, ainda, que WandaVision saiba delinear e endereçar a agência de sua protagonista. Ora, até o sexto episódio, havia a preocupação de que Wanda recebesse o tratamento de vilã louca e desvairada que, diante da perda de entes queridos, dá vazão às suas frustrações, rapta e ressuscita o corpo do falecido amado, e ainda toma uma cidade inteira como refém. Contudo, essa vilanização da Feiticeira Escarlate nós já tínhamos visto nos quadrinhos, em histórias como Vingadores: A Queda (2004), por exemplo, e contribuem para a manutenção do estigma de “mulher histérica” carregado pela personagem.

Agatha Harkness (Kathryn Hahn) em WandaVision
Cena de WandaVision. Imagem: divulgação.

A partir deste episódio, por outro lado, a preocupação agora é outra: a criação de uma narrativa em que a personagem tenha sua capacidade de decisão totalmente retirada de si; o endosso da ideia de que, em um momento de fragilidade, Wanda sucumbiu ao controle de outra pessoa, e que as emoções mostradas pela feiticeira até agora não revelam nada de seus dramas internos ou de sua personalidade, mas redundam em mero joguete das mãos de outrem, mera vítima dos acontecimentos, em que seu protagonismo é apenas nominal.

Este também é outro problema de representação bastante recorrente em relação à Feiticeira Escarlate nas HQs, e aparece em sua passagem pela revista Vigadores da Costa Leste, nos anos 90, no famoso evento Dinastia M (2005), e em Vingadores: A Cruzada das Crianças (2010), e reforça o outro lado do clichê da histeria feminina, aquele que coloca como impossível a mulheres superpoderosas tomarem as próprias decisões sem se deixar sucumbir e entrar em crise por uma influência “mais forte”.

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É notável que algumas das histórias mais populares da Feiticeira Escarlate nos quadrinhos têm um conjunto muito específico de características: tratam muito mais dos efeitos dos poderes de Wanda na vida de outras pessoas; trazem muito pouco da perspectiva da própria feiticeira, salvo no final, quando as verdadeiras protagonistas das histórias a encontram; por fim, a maioria delas ainda a coloca em uma posição de “ferramenta de enredo” (plot device), joguete no controle de uma pessoa ou entidade – seja uma raça alienígena simbionte, Magneto, Doutor Destino, ou mesmo o próprio irmão, Mercúrio. Ironicamente, em seus arcos mais famosos, Wanda Maximoff quase nunca pode se dar ao luxo de realizar suas próprias escolhas ou exercer seu poder de decisão.

À esquerda, Wanda (Elizabeth Olsen) sob o domínio das projeções de Agatha Harkness (Kathryn Hahn) em WandaVision.
À esquerda, Wanda sob o domínio das projeções de Agatha Harkness em WandaVision. À esquerda, uma Wanda possuída por uma entidade alienígena simbionte, em “West Coast Avengers” (1989).

Por anos, a Feiticeira Escarlate foi citada e definida a partir de outras pessoas, em sua maioria homens: irmã de Mercúrio, filha de Magneto, ex-esposa de Visão, ex-namorada de Simon Williams (Magnum), mãe dos gêmeos Wiccano e Célere, receptáculo da entidade Chthon; impossibilitada de de “contar sua verdade”, nas palavras de Monica Rambeau neste episódio. Espera-se, portanto, que WandaVision não siga pelos preguiçosos precedentes estabelecidos pelas histórias passadas, e – como já comentado anteriormente – siga pela contramão dos estigmas que acompanham Wanda desde os quadrinhos. Aguarda-se, acima de tudo, que WandaVision faça justiça à sua protagonista.

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Se seus episódios finais manterão a charmosa idiossincrasia que consagrou a série como uma das mais populares e mais vistas do mundo, e ainda cumprirão a promessa da showrunner Jac Schaeffer em honrar a personagem, apenas as próximas semanas dirão.


Edição e revisão por Isabelle Simões.

Escrito por:

20 Textos

Estudante de direito cuja identidade (não tão) secreta é a de escritora e resenhista. É autora da coletânea de contos de ficção científica "Valsa para Vênus", e já publicou em antologias e revistas literárias, como a Mafagafo, além de compôr o quadro de colaboradores do SOODA Blog. Nas horas vagas, estuda cartas de tarô, traz a pessoa amada de volta e “aposenta” dragões cibernéticos soltos por aí.
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