A assustadora psicologia de Shirley Jackson em “A Assombração da Casa da Colina”

A assustadora psicologia de Shirley Jackson em “A Assombração da Casa da Colina”

O gênero de terror é um dos preferidos pelo grande público já há várias décadas, mas nos últimos tempos alguns aspectos do gênero vem se repetindo e se tornando comuns. Histórias de demônios, fantasmas, poltergeists ou simplesmente psicopatas mascarados parecem ser o atual lugar comum do terro. Então, ao lermos um clássico (esquecido) do gênero, nos surpreende a profundidade apresentada na obra de Shirley Jackson.

Durante duas décadas de carreira, Shirley Jackson escreveu diversos contos, dois livros de memórias e seis romances, dentre eles, A Assombração da Casa da Colina, considerada uma das melhores histórias de terror do século XX. Relançada pela Suma de Letras, a história levou Shirley ao reconhecimento e influenciou grandes nomes do terror e da fantasia, como Neil Gaiman e Stephen King.

Em A Assombração da Casa da Colina, quatro indivíduos (Theodora, Luke, Eleanor e o Dr. Montague) se hospedam na famosa Casa da Colina para experimentar supostos fenômenos sobrenaturais que rondam o espaço do imóvel. Situada dentre as colinas da (também peculiar) cidade de (nome), a Casa da Colina tem um histórico de eventos misteriosos ocorridos em meio a suas paredes e jardins, gerando uma fama negativa – e macabra – à mesma.

A Assombração da Casa da Colina
Edição da Suma de Letras.

De cara, nota-se a existência de duas fortes personagens femininas, a protagonista Eleanor e Theodora. Inseridas, é claro, nas limitações típicas da época na qual foram escritas, ambas apresentam personalidades e histórias tão distintas quanto interessantes. Ao longo de A Assombração da Casa da Colina, vemos a utilização das personagens não como mera alegoria narrativa – como ocorre até com as protagonistas femininas em certas obras – mas como personalidades pensantes claras, capazes e essenciais ao próprio desenrolar da história.

É através dos olhos e dos sentidos de Eleanor que somos apresentadas à trama e ao próprio terror da Casa da Colina. Ao longo das 240 páginas da obra, o olhar que nos leva à história é integralmente o feminino; passamos assim a ser Eleanor, vendo, ouvindo e sentindo o mesmo que ela.

As personagens da Sra. Dudley e da Sra. Montague, bem como da irmã de Eleanor, adicionam mais à visão feminina na trama, principalmente quanto à questão sobrenatural. Após algumas manifestações “fantasmagóricas”, com a chegada da Sra. Montague, que a natureza maligna da casa encontra seu clímax e nos apresenta um desfecho surpreendente e ao mesmo tempo desconcertante.

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A inserção na história é feita de maneira espetacular por Shirley Jackon. As descrições, as personagens, os eventos e o contexto são todos minuciosamente pensados, havendo a construção de um quebra-cabeças pela autora a cada virada de página, e a necessidade de uma sensibilidade real a leitora. Somos levadas a crer que além de sermos Eleanor, estamos na casa ou que, por vezes, somos a casa – um ser com sentidos e desejos.

Esse é o grande trunfo de A Assombração da Casa da Colina: a capacidade de criar uma situação tão profunda, intrincada, amarrada, verossímil e, acima de tudo, tensa, que nós nos vemos completamente inseridas nela. Os sons, os cantos, os ventos, a grama, a mobília e etc, tudo nos é perfeitamente descrito e, portanto, sentido, nos sendo quase impossível notar que na verdade não estamos na Casa da Colina.

Tal efeito, cria – assim como nas personagens do livro – uma sensação de inquietante terror psicológico. A cada página estamos mais inseridas na história e próximas do fim, mas também passamos a nos perguntar cada vez mais se a casa e seus acontecimentos é real (e viva) ou apenas um fruto de lendas urbanas travessas, ou ainda (e isso talvez seja o mais perigoso) o que é real e o que é inventado na narrativa.

Dessa forma, a obra é capaz de criar um ambiente de total desconforto diante da incerteza apresentada por Jackson, a qual nos afeta mesmo fora das páginas da trama, sendo este um exemplo excelente de qualidade tanto na criação do enredo quanto em seu desenvolvimento. Jackson conseguiu, com aparente facilidade, o que muitos tentam, sem sucesso até hoje, isto é, trouxe à leitora uma trama profundamente perturbadora e ainda com grande papel e representação feminina.

Não é à toa que A Assombração da Casa da Colina já teve duas adaptações para o cinema: A Casa Maldita (1963) e A Casa Amaldiçoada (1999). Além disso, a Netflix encomendou mais uma adaptação, no formato de série, prevista para ser lançada ainda em 2018. Portanto, vemos uma verdadeira obsessão do setor cinematográfico com essa clássica história de terror do século XX. Nós, com certeza, não somos diferentes.


A Assombração da Casa da ColinaA Assombração da Casa da Colina

Shirley Jackson

Suma de Letras

200 páginas

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Imagem destacada: Ilustração do artista Nathan Geldug (reprodução)

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