CRÍTICA | Sex Education - 3ª temporada: da educação sexual à emocional
Sex Education – 3ª temporada: uma leve mudança de rumo para Moordale

Sex Education – 3ª temporada: uma leve mudança de rumo para Moordale

Quando a primeira temporada de Sex Education foi lançada, em 2019, a série foi recebida como um sopro de ar fresco no mundo das tramas adolescentes. Em vez de uma abordagem moralista ou excessivamente erotizada, a série criada por Laurie Nunn traz o sexo como uma parte natural da adolescência, mas sem ignorar as confusões que permeiam essa fase da vida. Agora na terceira temporada, Sex Education continua explorando questões importantes sobre sexualidade de maneira sensível e divertida. Porém, em alguns momentos, a trama começa a dar sinais de esgotamento.

A terceira temporada de Sex Education estreou na Netflix no dia 17 de setembro. Passados alguns meses após a peça de Lily (Tanya Reynolds) e o escândalo causado pelo diretor Michael Groff (Alistair Petrie) colocarem Moordale Secondary no centro das atenções midiáticas, a escola recebe uma nova diretora. Hope Haddon (Jemima Kirke) tem a missão de colocar o colégio de volta nos eixos segundo os parâmetros da administração escolar.

Otis e Maeve em Sex Education
Asa Butterfield e Emma Mackey como Otis Milburn e Maeve Wiley (Imagem | Reprodução)

Asa Butterfield, Emma Mackey e Ncuti Gatwa estão de volta como Otis, Maeve e Eric, e ótimos como sempre. Porém, quem realmente brilha na terceira temporada são personagens que, até ontem, não passavam de meros coadjuvantes. Ao longo dos episódios, somos apresentadas a versões mais complexas da “menina malvada” Ruby (Mimi Keene), do agora ex-diretor Groff e do caladão Jakob (Mikael Persbrandt), entre outros.

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Embora acabe gerando um excesso de tramas principais, esse foco em outros personagens é bem-vindo e essencial para garantir a continuidade de Sex Education, uma vez que a Netflix ainda não tem planos para encerrar o seriado. Também no sentido de continuar tocando a história para a frente, a terceira temporada da série faz uma transição da “educação sexual” do título para a “educação emocional”. Agora, é ver como as coisas se desenrolam depois das bombas do último episódio.

Aviso: com exceção da última seção, este texto não tem spoilers.

Moordale sob nova direção

As tramas da terceira temporada de Sex Education giram em torno de dois eixos principais. O primeiro deles é a gravidez da Dra. Jean Milburn (Gillian Anderson). Já no último trimestre, ela ainda não tomou coragem para contar a Jakob que vai ter um filho. Após a revelação, Jakob decide se mudar com a filha para a casa dos Milburn, tanto para o desespero de Ola (Patricia Allison) quanto para o de Otis.

A partir da gravidez de Jean, somos apresentadas à vida interior de diversos personagens que, até então, não tinham tanto espaço assim na série. Ola, por exemplo, se vê incomodada com a mudança e precisa lidar com os sentimentos relativos à morte da mãe. O mesmo vale para Jakob, que, além de não ter superado totalmente a perda da esposa, também guarda ressentimento de Jean devido ao beijo entre a terapeuta e o ex-marido na temporada passada.

Já Maureen (Samantha Spiro) acompanha Jean a sessões de ginástica para gestantes e procura reconstruir tanto a vida amorosa quanto o relacionamento com o filho após a separação. É também por meio da trama da gravidez que temos uma noção de como é a vida de Hope fora do colégio.

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Jean Milburn em em Sex Education
Já no último trimestre, Jean tem dificuldade para contar da gravidez para Jakob (Imagem | Reprodução)

O segundo eixo, e também o mais importante, é a escola Moordale Secondary. Agora sob nova direção, o colégio passa por mudanças profundas que vão desde a sinalização nos corredores até o currículo de educação sexual. A mais simbólica de todas é a demolição do banheiro abandonado no qual funcionava a Clínica do Sexo. Embora pareça amigável e insista em ser chamada apenas pelo primeiro nome, Hope tem ideias bem rígidas a respeito de como um colégio deve ser dirigido, e acaba por semear o medo e discórdia entre os estudantes.

A amizade de Jackson (Kedar Williams-Stirling) e Viv (Chinenye Ezeudu), por exemplo, fica por um fio por causa das decisões de Hope. Insatisfeito com os novos rumos da escola, Jackson confronta a diretora e acaba perdendo o título de representante estudantil. Louca para agradar Hope e, de quebra, enriquecer o currículo, Viv é logo promovida ao cargo. Já a aspirante a romancista erótica Lily e ê alune não-binárie Cal (Dua Saleh) se tornam alguns dos alvos preferenciais da nova diretora.

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Eric e Adam em Sex Education
Eric precisa lidar com o medo de Adam de se assumir (Imagem | Reprodução)

Em meio a esse cenário de transformações, Otis e Maeve tentam se adaptar à vida um sem o outro. Enquanto Otis tenta avançar no relacionamento casual com Ruby, Maeve lida com as consequências de ter entregado a irmã para o Conselho Tutelar e se aproxima de Isaac (George Robinson). Eric, por sua vez, tenta conciliar o que sente por Adam (Connor Swindells) com a dificuldade do namorado para se assumir.

No meio do caminho entre a escola e a casa dos Milburn fica a história de Michael. Sem amigos e distante do filho, o ex-diretor mora de favor na casa do irmão mais bem-sucedido e encontra dificuldades para se recuperar da demissão e da separação de Maureen.

Muita gente em Sex Education para pouco tempo

Interpretado por Jason Isaacs, Peter Groff, o irmão de Michael, é provavelmente o personagem mais desagradável que já passou por Sex Education. Isso facilita bastante para o público sentir empatia por Michael. E se, nas temporadas anteriores, o diretor de Moordale Secondary não tinha nenhuma personalidade além de ser machista e homofóbico, Michael retorna agora como um homem infeliz em busca de um novo sentido na vida. Tinha tudo para dar errado, mas o ex-diretor é um dos melhores personagens da terceira temporada.

É uma trajetória bem parecida com a do personagem de seu filho, Adam: graças a um roteiro sensível e uma ótima atuação, o clichê do bully enrustido passou de um estereótipo batido e prejudicial para uma figura interessante e cheia de camadas. Assim como o pai, Adam passa boa parte da terceira temporada tentando se desvencilhar de uma educação repressora e descobrir quem ele realmente é. O final do arco narrativo do personagem é de longe um dos mais bonitos até agora.

Peter e Michael na terceira temporada
Após se separar de Maureen, Michael vai morar com o irmão, Peter (Imagem | Reprodução)

Lily também tem um arco tocante ao longo da temporada. Sem dar muitos spoilers, pela primeira vez, a personagem tem a verdadeira dimensão do quanto os outros a acham esquisita – uma descoberta que não é nada fácil para ela. Outra personagem que ganhou bastante espaço para crescer nesta temporada é Aimee (Aimee Lou Wood). Apesar do momento emocionante que protagonizou na segunda temporada, a menina ainda precisa lidar com o trauma causado pelo abuso que sofreu.

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Porém, nem todos os personagens recebem a atenção e o desenvolvimento merecido na terceira temporada. Maeve e Otis, por exemplo, parecem estagnados em um eterno “chove-não-molha”. Já Eric escapa por pouco de ficar preso no mesmo lugar: o jovem passa por uma experiência transformadora após uma viagem para visitar a família na Nigéria, mas, infelizmente, seu arco narrativo dura apenas alguns episódios.

Hope Haddon, a nova diretora de Moordale Secondary
Hope Haddon, a nova diretora de Moordale Secondary (Imagem | Reprodução)

Assim como Eric, Ruby também tem um desenvolvimento interessante que poderia ter durado mais. A partir do relacionamento com Otis, somos apresentadas a um outro lado da Regina George de Moordale que tornou a personagem uma das mais adoradas da série. O problema é que esse outro lado de Ruby têm apenas alguns minutinhos de tela.

Para uma série como Sex Education, aumentar a gama de personagens é essencial: afinal, quanto mais gente, maiores as chances de apresentar formas diversas de lidar com a sexualidade. Porém, com, no mínimo, 16 personagens centrais e apenas oito episódios, a terceira temporada tem muitas histórias para contar em um curtíssimo espaço de tempo. Isso faz com que algumas tramas sejam apressadas para dar espaço para outras.

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Eric, Adam e Ruby em Sex Education
Ruby é uma das personagens mais cativantes da temporada (Imagem | Reprodução)

Contudo, ao mesmo tempo, os roteiristas dão a impressão de não saber mais o que fazer com alguns personagens. O caso mais emblemático é o de Maeve. Contudo, Jackson e Ola, entre outros, também têm seus desenvolvimentos esquecidos no churrasco de vez em quando.

Da educação sexual à educação emocional

Quando a questão do sexo aparece em obras sobre ou para adolescentes, a abordagem costuma ser ou extremamente moralista, ou voltada para fantasias sexuais adultas.

De um lado, temos exemplos como a saga Crepúsculo e as inúmeras temporadas de Malhação em que perder a virgindade é sempre um drama e o sexo invariavelmente resulta ou em gravidez, ou em uma DST. De outro, O Mundo Sombrio de Sabrina, Riverdale e Elite são apenas algumas das produções mais recentes em que adolescentes são apresentados como máquinas de fazer sexo, cheias de cenas de personagens femininas seminuas ou em uniformes escolares erotizados.

São raros os filmes e seriados que tratam a compreensão do sexo e da sexualidade como uma parte natural da adolescência, apenas uma etapa no processo de crescimento. Esse é um dos principais diferenciais de Sex Education. Embora procure oferecer um pouco de educação sexual para o seu público (como já diz o título), a série nunca cai no didatismo. Assexualidade, masturbação, fetiches, vaginismo, abuso sexual… Sex Education discute os mais variados temas sem deixar a trama perder a fluidez.

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Ola e Lily em Sex Education
Patricia Allison e Tanya Reynolds como Ola e Lily (Imagem | Reprodução)

Porém, com os estudantes de Moordale prestes a terminar o ensino médio e o repertório das aulas de educação sexual chegando ao fim, Sex Education precisa mudar de leve o enfoque. É por isso que a terceira temporada é mais dedicada à educação emocional dos personagens. Os temas abertamente sexuais dão lugar a problemas como o que fazer quando um parceiro não quer assumir a relação ou como lidar com uma traição.

É claro que o sexo ainda perpassa todas essas questões, assim como o emocional frequentemente interfere na nossa vida sexual. E também é claro que a série não deixa de abordar questões ligadas ao corpo e ao desejo. Entretanto, os problemas dos alunos de Moordale são agora bem mais complexos do que os que costumavam aparecer na clínica de Otis e Maeve.

Um bom exemplo para demarcar a diferença entra a terceira temporada e as anteriores é Cal, primeire personagem não-binárie da série. Assim como a sexualidade de Florence (Mirren Mack), que é assexual, a identidade de gênero de Cal ainda é pouco compreendida pelo grande público. Porém, ao passo que Florence teve uma cena inteira dedicada a entender a própria assexualidade, Cal não tem nenhuma dúvida a respeito de como se identifica. A questão para ê personagem é muito mais como lidar com um mundo que insiste em vê-le como menina.

Cal em Sex Education, primeire personagem não-binárie da série.
Dua Saleh como Cal (Imagem | Reprodução)

O futuro de Sex Education

Aviso: spoilers da terceira temporada de Sex Education

Tanto o aumento no número de personagens centrais quanto a mudança de abordagem também são essenciais para garantir a continuidade de Sex Education. A Netflix já renovou a série para a quarta temporada, mas o futuro de Moordale e até mesmo de alguns dos personagens é incerto.

No último episódio, os alunos sabotam uma apresentação de Hope para tirá-la da diretoria da escola. O plano dá certo, mas também dá errado: Hope não será mais a diretora de Moordale, mas o colégio será fechado e os alunos precisarão terminar o ensino médio em outro lugar. A única que não precisa se preocupar é Maeve, que tem uma bolsa de estudos nos Estados Unidos à sua espera.

Embora ainda não tenha dado certeza de nada, Emma Mackey já deu sinais de que pode não voltar para uma quarta temporada de Sex Education. Se isso realmente acontecer, pelo menos o romance de Maeve e Otis terá que ser deixado para trás. Assim, nada mais natural do que os roteiristas procurarem novas possibilidades.

Aimee
Aimee Lou Wood como Aimee (Imagem | Reprodução)
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Mas Sex Education também não pode durar para sempre. Como todos os seriados que tratam da infância ou da adolescência, ele já nasceu com data de validade. É importante reconhecer que os personagens cresceram e que estão em uma fase em que entender o próprio coração se torna mais urgente do que decidir quando perder a virgindade. Com essa mudança de direcionamento, a série ainda pode render algumas boas temporadas, mas logo terá que chegar ao fim.

A terceira temporada de Sex Education é cheia de momentos maravilhosos. Porém, no geral, parece um pouco perdida nas próprias transformações, assim como os adolescentes que retrata. Mas mudar de rumo realmente nunca é fácil. Resta esperar que, na quarta temporada, a série volte a se encontrar.

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Tradutora, jornalista, escritora e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
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