“Modern Love” e a forma honesta de falar sobre transtorno bipolar

“Modern Love” e a forma honesta de falar sobre transtorno bipolar

É uma bela manhã em Nova York. Entra no supermercado uma deslumbrante Anne Hathaway, envolta em um belíssimo casaco rosa, por baixo uma blusa de paetês e uma saia amarela plissada. O cabelo é vermelho vibrante, com uma vibe diva da old Hollywood. Ela não só parece fisicamente uma das divas dos anos 40, ela se comporta como uma. Ela entra no supermercado em busca de pêssegos, ao fundo toca jazz e de repente todos a sua volta começam a dançar, exatamente como em um musical.

Em meio ao seu número musical e sua performance, ela bate os olhos em um homem perto da sessão de frutas. Com desenvoltura, confiança e sensualidade ela se aproxima de Jeff (Gary Carre) e, após entrarem em uma conversa repleta de flertes, eles vão tomar café juntos. Fica marcado um encontro para a quinta-feira à noite.

A cena é como um filme de romance clássico, com uma mulher sensual e confiante que encontra o amor. Ela dança e canta e o mundo parece existir apenas para ela e seu pretendente. Lexi, a personagem de Anne Hathaway, refletindo sobre esse momento no futuro, declara: “Eu estava com um ótimo humor. O que é basicamente o problema”.

Modern Love e a vida com o transtorno bipolar

Lexi, a personagem de Anne Hathaway na primeira temporada de "Modern Love"
Lexi, a personagem de Anne Hathaway na primeira temporada de “Modern Love” | Imagem: Amazon Prime Video

Após o início glamouroso, Lexi vai para o trabalho, onde é uma advogada brilhante. A partir daí a espectadora começa a ser apresentada a detalhes sobre a vida da personagem e a receber pistas de que algo mais profundo acontece em sua vida. Sua colega de trabalho lhe dá o aviso de que o RH da empresa está insatisfeito porque Lexi faltou quatro vezes no último mês. Ela responde que tem síndrome do intestino irritável, mas sua postura rígida e o sorriso congelado no rosto deixa claro que ela está escondendo a verdade.

Ainda de bom humor, Lexi vai para casa, coloca seus pêssegos recém-comprados em uma fruteira em cima da mesa e quando a câmera volta para ela, é perceptível que seu rosto começa a mudar. Seu sorriso fixo começa a diminuir e seu corpo vai perdendo, gradualmente, a pose de confiança. Lexi se deita na cama e o tempo passa. O dia termina e outro começa, os pêssegos estragam na fruteira e ela permanece na cama.

A quinta-feira chega e, Jeff e uma Lexi ainda deprimida, têm um encontro desastroso. Lexi já não é mais aquela mulher no supermercado; seu cabelo não está mais luminoso, ela veste roupas pretas e tênis. Além disso, ela não consegue sustentar um diálogo e parece estar completamente deslocada do mundo.

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"Modern Love" retrata uma personagem com transtorno bipolar
A primeira temporada de “Modern Love” retrata uma personagem com transtorno bipolar | Imagem: Amazon Prime Video

Depois do encontro, ela volta para o apartamento e passa mais algumas horas na cama. É quando a personagem de Modern Love conta a história da sua vida com transtorno bipolar, em uma cena genial em plano sequência em que mostra Lexi da adolescência até a vida adulta. Um dia, aos 15 anos, Lexi simplesmente não conseguiu levantar da cama e ir à escola.

Os pais, acreditando que ela está fisicamente doente, não se preocupam. Mas um dia deitada se tornam vinte um e após um tempo ela descobre que tem transtorno bipolar. Sem saber como conviver com a doença, ela começa a lidar com suas alterações de humor a sua maneira. Para compensar os períodos depressivos em que ela mal consegue se mover, em seus períodos de mania (período em que a pessoa tem uma carga de energia intensa e fica eufórica) ela compensa fazendo tudo que deixou de fazer antes e assim passa dias acordada estudando e fazendo trabalhos da escola. Essa “rotina” se estende até a faculdade e vida adulta, e de uma estudante brilhante, ela se torna uma universitária notável, até se tornar uma advogada ímpar.

O “esquema” de compensação parece dar certo, mas ela começa a perceber que com o tempo ela se afastou de amigos, família e homens por quem ela se interessou. Enquanto estava depressiva, ela dormia e quando seu cérebro recebia uma intensa mudança, ela se tornava eufórica e se dedicava integralmente às suas obrigações. É um sistema que, para ela, parece eficiente, mas a verdade é que não é saudável e a fez viver em função do transtorno.

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A maneira como Modern love escolhe contar como é a vida de uma pessoa bipolar é muito sincera, apesar das cenas serem apresentadas, cinematograficamente, de forma bela e sensível. A equipe da série fez escolhas estéticas que fazem, nós telespectadoras, sentir o que a personagem sente. De um inicio eufórico, com música e dança e uma protagonista que reluz e parece ser capaz de dominar o mundo, vamos para um apartamento solitário e uma personagem completamente oposta àquela que conhecemos no início. A sensação que essa mudança nos causa, é justamente como a própria Lexi se sente. Ela passa da euforia e confiança extrema, para um período depressivo quase insuportável.

Quando acompanhamos Lexi crescendo, podemos perceber a agonia que é ser uma adolescente, uma jovem adulta e finalmente uma adulta de fato, com transtorno bipolar. Lexi, assim como muitas pessoas ao redor do mundo, não consegue ter uma rotina considerada normal e muito menos saudável. No breve, sensível e esteticamente belo plano sequência, vemos aquela personagem lutando para levantar da cama, se formar e ter uma vida profissional; é mostrado também que ela fez diversas tentativas de tratamento, mas nenhuma a tira dos extremos causados pelo transtorno bipolar.

Lexi, Gilda e Rita Hayworth

Cena de “Modern Love” | Imagem: Amazon Prime Video

Em uma crise de mania, Lexi liga para Jeff e marca uma segunda tentativa de encontro. Ela está luminosa novamente. Ela limpa a casa, compra flores e veste um belíssimo vestido prata. Enquanto termina os últimos preparativos, em sua TV, uma cena de Gilda (1946, Charles Vidor) mostra Rita Hayworth e Lexi se lembra de uma célebre frase da atriz: “Todo homem que eu conheci se apaixonou por Gilda e acordou comigo“. Lexi relaciona a cena com si e sua própria vida.

Para Lexi, em seu corpo vivem duas mulheres e elas são como Gilda e Rita Hayworth. Gilda é a Lexi real, a mulher que enfrenta o transtorno bipolar desde os 15 anos e que, por não fazer tratamento, é instável. Gilda também é a Lexi em estado depressivo e que passa dias encolhida na cama, incapaz de viver e enfrentar o mundo. Ela afasta amigos, não atende ligações e se isola.

Rita Hayworth é a Lexi quando seu cérebro está na “mania bipolar”, ou seja, quando ela levanta da cama e sente que pode conquistar o mundo. Rita é quem veste casacos rosas extravagantes e blusas de paetês às 09h00 da manhã. É Rita que encanta os homens e marca encontros para dois dias adiante, mas é Gilda quem acorda no dia e tem que ir ao encontro.

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Lexi, Gilda e Rita Hayworth
Rita Hayworth em “Gilda” | Gif: reprodução

A “Rita Hayworth” encanta a todos, conquista homens e é uma advogada competente que trabalha incessantemente. Ela transmite confiança e exala sensualidade e poder. Rita assume compromissos, pois consegue cumpri-los, porém é Gilda tem que lidar com eles. Gilda, no entanto, não tem força para levantar da cama, sorrir, trabalhar e fingir que está bem; ela não quer e não consegue interpretar esse papel. Gilda está ocupada demais tentado se manter viva.

A cena de Gilda é um gatilho forte para Lexi. Ela se olha no espelho e começa a chorar, pois sente a sombra da depressão se aproximar novamente. Ela consegue enxergar seus próximos minutos e próximos dias: ela vai ser incapaz de encontrar Jeff, vai deitar em sua cama e permanecer ali por dias e mais uma vez a doença vai impossibilita-la de viver. E é o que acontece: Jeff vai embora, Lexi passa por mais uma crise depressiva presa dentro de casa e é despedida do emprego.

Modern Love deixa claro que viver com transtorno bipolar, assim como qualquer outro transtorno mental, é uma luta com muitas perdas e limitações. Alguém que não faz tratamento não consegue sair daquele torpor e seu emocional afeta o seu físico. A pessoa não consegue manter amizades, amores, família e empregos, pois não tem energia mental e até física para fazer todo o jogo que a socialização exige. Assim como uma doença do corpo impossibilita uma pessoa de se levantar e realizar tarefas, o transtorno mental paralisa o paciente e o impossibilita viver plenamente.

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Quando a série mostra Lexi, linda e deslumbrante em seu vestido prata, caindo novamente no período depressivo, assim como Lexi na cena, a telespectadora pode pensar “vamos lá Lexi, você consegue. É só sorrir e fingir que nada está acontecendo”. E é exatamente o que a série quer mostrar. Que às pessoas podem pensar que, por ser uma doença da mente, é fácil ignorar e apenas seguir realizando tarefas “normais” do dia a dia. Porém, ao vermos Lexi desintegrando e caindo no chão do banheiro aos prantos, a telespectadora pode perceber que o caminho não é esse.

Modern Love também mostra, de forma eficaz e didática, que procurar ajuda é a única saída. Apenas com a ajuda profissional, remédios, terapia, e até mesmo o apoio de amigos, é possível sair da espiral de sofrimento que os transtornos metais causam.

A importância de buscar ajuda

Transtorno bipolar na série Modern Love
Lexi em “Modern Love” | Imagem: Amazon Prime Video

Quando Lexi vai pegar seus pertences no escritório, sua amiga Sylvia (Quincy Tyler Bernstine) pergunta se elas podem tomar um café e Lexi aceita. Na cafeteria, ela conta para Sylvia que ela tem transtorno bipolar e diz que Sylvie é a primeira pessoa para quem ela conta. Sylvie pergunta como ela se sente por finalmente conseguir falar sobre isso e Lexi diz que “é como se um elefante tirasse a pata do seu peito”.

Na bela e sensível cena da conversa entre Lexie e Sylvia, Modern Love exemplifica como conversar e compartilhar sua luta é importante. Lexi, em toda a sua vida, nunca contou a ninguém sobre a a sua luta com o transtorno bipolar. Ela lutou toda uma vida contra um monstro invisível, sozinha, e por vergonha, não deixou que ninguém tivesse acesso a essa parte da sua vida, e assim, ela nunca permitiu que se envolver significativamente com alguém.

Viver com transtorno bipolar, principalmente sem tratamento, é como estar em uma montanha russa, mas a subida, ao contrário do que a pessoa pode pensar, não é exatamente um bom sinal. O estado de mania pode parecer positivo pela energia repentina e a disposição para viver e realizar tarefas, mas é como se o cérebro pregando uma pegadinha de muito mal gosto. A instabilidade e a sensação de nunca saber como vai acordar no dia seguinte trás insegurança e uma vida de reviravoltas desagradáveis. A depressão é como uma sombra sempre a espreita, ela pega a pessoa desprevenida e a impede de realizar até mesmo as tarefas mais simples, como pentear o cabelo, por exemplo.

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Após finalmente conseguir se abrir com alguém, Lexi percebe que é hora de procurar ajuda profissional. O final é uma Lexi, dois anos após esses acontecimentos, levando uma vida normal, na medida do possível para uma mulher neuroatípica. Ela diz que está tomando remédios e que finalmente está pronta para ter encontros novamente (a narração do episódio é uma carta de apresentação para um site de namoro). Lexi está sobre controle sobre a sua vida, suas emoções e ações. Ela sabe que não existe cura para o transtorno bipolar, como a mesma diz: “Sei que não existe cura para o desequilíbrio químico do meu cérebro, assim como não tem cura para o amor”. Porém, com o tratamento, é possível ter uma vida saudável, trabalhar, conhecer pessoas e encontrar felicidade.

saúde mental em Modern Love

Um ponto importante na jornada de Lexi que Modern Love mostra é que mesmo o tratamento leva tempo. O paciente não vai, necessariamente, encontrar um tratamento eficaz para ele imediatamente. Lexi tenta vários tratamentos ao longo dos anos, por um tempo ela desiste, e, no fim do episodio, quando ela percebe que não não pode mais viver daquela maneira, ela decide procurar ajuda novamente. E após essas tentativas, Lexi encontra um tratamento que é eficaz para ela.

Modern Love não tenta enganar a sua espectadora e dizer que o transtorno bipolar tem cura, porque essa é a infeliz realidade. A série também não tem a pretensão de querer ensinar que para sair do sofrimento é só querer, que é “só levantar da cama”. Através de Lexi, a série mostra que é uma luta difícil e dolorosa e que é um passo por dia, mas que buscando apoio de pessoas próximas e ajuda profissional, é sim possível ter uma vida que não é controlada por um desequilíbrio químico do cérebro.

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É preciso ressaltar também a entrega de Anne Hathaway à personagem. Desde a primeira cena à última, a atriz entrega a nós uma personagem real e que com certeza várias pessoas se identificaram. À euforia das primeiras cenas e a agonia dos piores períodos de Lexi, Hathaway atua de forma sensível e sem exageros. Para que uma trabalho como esse seja feito é muito importante que toda a equipe esteja comprometida a contar uma história sincera e verdadeira e que vai tocar a telespectadora, assim como ajudar outras a se sentirem menos sós e, finalmente, compreendidas. E, felizmente, Modern Love faz isso brilhantemente.

Além de um avanço, é importante que séries e grandes produções como Modern Love falarem sobre transtornos mentais. Todavia, é necessário que tal representação seja sincera e sem romantização. A ficção deve mostrar para o público as limitações de uma pessoa que luta contra um transtorno mental, principalmente que é possível viver com ele se você procurar tratamento.

Existe uma vida além da dor e do sofrimento psíquico. São histórias como essa de Modern Love que mostram para as pessoas que enfrentam o mesmo que elas não estão sozinhas na dor, que não são fracas ou que não há algo de “errado” com elas. É importante, portanto, tirar o peso da culpa e a sensação de fracasso de seus ombros. É um abraço e um respiro de alívio, principalmente um incentivo à coragem, pedir ajuda e procurar um profissional.

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Estudante de Letras. Obcecada por livros a ponto de não saber mais como viver no mundo real. Apaixonada por literatura inglesa e filmes de época. Praticamente um Hobbit, seja pelo tamanho, por passar muito tempo lendo ou por nunca dispensar uma xícara de chá.
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