Crazy Ex-Girlfriend: cantando o transtorno de personalidade borderline

Crazy Ex-Girlfriend: cantando o transtorno de personalidade borderline

Compartilhe

Criada por Rachel Bloom e Aline Brosh McKenna para o canal americano CW, Crazy Ex-Girlfriend nunca foi um sucesso de público. Lançada em 2015, a primeira temporada da série foi aclamada pela crítica, mas os telespectadores torceram o nariz logo que viram o título. Afinal, uma série chamada “ex-namorada louca” tinha tudo para ser uma eterna reprodução de estereótipos machistas. Porém, Crazy Ex-Girlfriend não apenas é uma das séries mais engraçadas da última década como também é um retrato sensível e complexo de como é viver com um transtorno psiquiátrico.

Disponível na Netflix, Crazy Ex-Girlfriend é uma comédia musical que conta a história da advogada nova-iorquina Rebecca Bunch (Rachel Bloom). Deprimida e vivendo à base de remédios, Rebecca decide virar a vida de ponta-cabeça após se encontrar com um ex-namorado de adolescência, Josh Chan (Vincent Rodriguez III). Ao saber que Josh vai deixar Nova York e voltar para sua cidadezinha natal na Califórnia, Rebecca decide largar o emprego e se mudar também. Para a mesma cidade que Josh. Mas isso, é claro, não passa de coincidência.

Será mesmo?

Rachel Bloom em Crazy Ex-Girlfriend
Rebecca se muda para West Covina atrás do ex-namorado | Imagem: divulgação

Ao longo das quatro temporadas de Crazy Ex-Girlfriend, Rebecca passa de um estado de negação total para a compreensão de que não é normal atravessar um país atrás de um namoradinho que ela não via há mais de dez anos. E, então, Rebecca entende que precisa de ajuda. Com muito humor e números musicais incríveis, a série conta a história de uma mulher aprendendo a viver com um transtorno psiquiátrico sem medo de encarar tópicos espinhosos, como o suicídio.

Leia também >> Blanca Evangelista: o coração pulsante de “Pose”

Como a gente já disse aqui, existem mil e um motivos para assistir a Crazy Ex-Girlfriend. Entretanto, a forma como a série aborda a saúde mental se destaca e merece atenção. Em vez de banalizar o uso indiscriminado de antidepressivos ou tratar a depressão como simples falta de força de vontade, Crazy Ex-Girlfriend traz uma abordagem tridimensional de uma personagem com um distúrbio psíquico complexo: o transtorno de personalidade borderline.

A Boy Band Made Up of Four Joshes
Vincent Rodriguez III como Josh em “A Boy Band Made Up of Four Joshes” | Imagem: divulgação

Porém, à primeira vista, Crazy Ex-Girlfriend pode enganar os desavisados. Nos primeiros episódios, ainda dá para ter a impressão de que a série não oferece muito de novo. Bloom e McKenna aproveitam bem o formato televisivo para contar uma história longa, com tramas que não têm pressa para se resolver. Por isso, é difícil falar da série sem revelar uma coisinha ou outra. Mas não se preocupe: vamos tomar cuidado para não estragar nada muito grandioso. De qualquer forma, fica o aviso: Spoilers à frente!

Conheça Rebecca

A figura da mulher “louca de amor” aparece com frequência no cinema e na TV. Obcecada pelo amante, pelo crush ou pelo ex, ela pode ser tanto uma piada recorrente quanto um monstro cruel. Os exemplos são muitos e vão desde a amante matadora de coelhinhos interpretada por Glenn Close em Atração Fatal até a fã stalker de Kristen Schaal na série Flight of the Conchords. Porém, são poucas as personagens desse tipo que são desenvolvidas a fundo e tratadas com algum nível de complexidade.

E é justamente aí que está o maior diferencial de Crazy Ex-Girlfriend: o desenvolvimento de Rebecca enquanto uma pessoa complexa é o ponto central da trama. Em vez de se concentrar em como Rebecca atrapalha a vida de Josh, a série mostra como ela mesma sofre com a sua obsessão. Mais do que isso, uma vez que a obsessão está associada a um problema mais amplo – o transtorno de personalidade borderline –, o roteiro deixa claro que ela é apenas uma das muitas facetas da dor de Rebecca.

Cena do número musical “Sexy Getting Ready Song"
Cena do número musical “Sexy Getting Ready Song” | Imagem: divulgação

O transtorno de personalidade borderline tem como principais sintomas a impulsividade, a instabilidade emocional e a insegurança, frequentemente manifestada como um forte medo do abandono. Estima-se que 10% dos pacientes diagnosticados com o transtorno cometem suicídio.

Embora só seja diagnosticada na terceira temporada, Rebecca apresenta sintomas de transtorno borderline desde o começo da série: logo no primeiro episódio, vemos Rebecca deprimida e tomando remédios para lidar com o dia a dia. Convencida de que Josh mudará sua vida, ela joga fora os comprimidos assim que chega em sua nova casa na cidade de West Covina.

Leia também>>Hacks: o diálogo entre gerações que não conversam tão bem assim

Na música “You Stupid Bitch” (Sua Vadia Burra), somos apresentadas a um retrato bem detalhado da baixa autoestima de Rebecca. Já em “A Boy Band Made Up of Four Joshes” (Uma Boy Band Composta por Quatro Joshes), a protagonista imagina que seu amado será capaz de curar sua ansiedade e depressão.

Rebecca e Valencia em Crazy Ex-Girlfriend
Rebecca e a “rival” Valencia | Imagem: divulgação

Porém, conforme os episódios avançam (e, principalmente, conforme Rebecca começa a se tratar), a série nos mostra outros lados da personalidade da protagonista. Cada temporada de Crazy Ex-Girlfriend tem uma abertura diferente, e a música da quarta temporada, “Meet Rebecca” (Conheça Rebecca), faz questão de enfatizar que Rebecca, assim como todas nós, é complexa demais para ser resumida a uma característica só, ou a um transtorno de personalidade.

Contudo, a série não usa o distúrbio de Rebecca como uma desculpa para isentá-la de responsabilidade. O comportamento da personagem afeta não apenas Josh, mas todas as outras pessoas ao seu redor. Isso fica claro principalmente na relação de Rebecca com Valencia (Gabrielle Ruiz), a namorada de Josh.

Inicialmente apresentada como uma típica vilã de comédia romântica, fútil e antipática, Valencia se torna pouco a pouco uma personagem tridimensional, com sonhos e medos próprios. Em “I’m the Villain in My Own Story” (Eu Sou a Vilã da Minha Própria História), Rebecca se dá conta de que talvez não seja Valencia que está estragando a sua vida, mas justamente o contrário.

Crazy Ex-Girlfriend e o longo processo de aceitação

Momentos como o de “I’m the Villain in My Own Story” se repetem ao longo de toda a série: Rebecca percebe que está fazendo mal aos outros ou a si mesma, tenta se emendar e logo volta aos hábitos antigos. É o retrato de um processo longo e nada linear pelo qual quem sofre de um transtorno de personalidade precisa passar para aprender a viver com a doença. E, para iniciar esse processo, é preciso um diagnóstico e tratamentos corretos.

Mas nem sempre os psiquiatras acertam na hora de diagnosticar o transtorno borderline. Muitas vezes, a doença é confundida com outras mais comuns, como a depressão e a bipolaridade, e os pacientes passam anos sem os cuidados necessários. Com Rebecca, não é diferente. Em “A Diagnosis” (Um Diagnóstico), ela se mostra feliz por saber que, após quase 30 anos, finalmente descobrirá o que tem.

Cena de A Diagnosis - Crazy Ex-Girlfriend
Cena do número musical “A Diagnosis” | Imagem: divulgação

Porém, ao contrário do que Rebecca pensa, um diagnóstico não representa uma solução fácil. Antes de saber que tem transtorno de personalidade borderline, Rebecca já hesita em sua terapia com a Dra. Akopian (Michael Hyatt) e passa longos períodos sem aparecer nas sessões. Após o diagnóstico, as coisas melhoram, mas Rebecca reluta em aceitar o transtorno e os medicamentos, e tem momentos de recaída.

O transtorno de personalidade borderline não tem cura. Portanto, jamais chega um momento em que Rebecca se vê livre da doença. Contudo, com o tempo, o tratamento e o apoio das pessoas que a amam, ela aprender a aceitar e conviver com o transtorno. Isso faz uma baita diferença na sua vida amorosa, é claro, mas o mais importante é que a ajuda a descobrir coisas sobre si mesma. E é aí que mora a verdadeira felicidade, não em um ex-namorado.

Leia também>>Cinco séries para maratonar na HBO Max

Também é curioso reparar que, da primeira para a última temporada, a atriz Rachel Bloom engorda. Não parece ter sido proposital e o ganho de peso nunca é abordado pelos outros personagens. Porém, acaba funcionando como uma subversão da associação entre magreza e saúde física ou mental presente em nossa sociedade. Talvez Rebecca tenha engordado devido ao antidepressivo, como um dos intérpretes de “Antidepressants Are So Not a Big Deal” (Antidepressivos Não São Nada de Mais), mas isso não importa. O que importa é que ela esteja bem.

Antidepressants Are So Not a Big Deal
Cena do número musical “Antidepressants Are So Not a Big Deal” | Imagem: divulgação

Quem mais canta a sua canção?

Nem tudo em Crazy Ex-Girlfriend é sobre a saúde mental de Rebecca. Uma das melhores músicas da série, “Put Yourself First” (Coloque-se em Primeiro Lugar) é uma crítica ao falso empoderamento feminino vendido pela indústria da beleza. Já “Research Me Obsessively” (Pesquise-me Obsessivamente) fala de um comportamento bem pouco saudável que todos temos em algum momento, com ou sem transtorno de personalidade: passar horas pesquisando o atual parceiro de um ex nas redes sociais.

Por meio de outros personagens, a série também explora uma ampla gama de questões pessoais e existenciais, sempre embaladas por números musicais. Em “Gettin’ Bi” (um trocadilho entre “Tocando a Vida” e “Ficando Bi”), Darryl (Pete Gardner), o chefe de Rebecca, se assume bissexual, enquanto em “I Am the Moment” (Eu Sou o Momento), Heather (Vella Lovell) precisa aceitar o temido fim da faculdade. Cantada por Josh Branco (David Hull) e Nathan (Scott Michael Foster), “Fit Hot Guys Have Problems Too” (Caras Gostosos Também Tem Problemas) tem um título bem autoexplicativo.

Donna Lynne Champlin em Crazy Ex-Girlfriend
Paula é a primeira amiga de Rebecca em West Covina | Imagem: divulgação

Porém, as duas subtramas mais interessantes são as de Paula (Donna Lynne Champlin) e Greg (Santino Fontana e Skylar Astin). Primeira amiga que Rebecca faz ao se mudar para West Covina, Paula se sente frustrada por não ter um bom relacionamento com os filhos e por não ter conseguido realizar seus sonhos. Por isso, acaba se deixando levar pela obsessão de Rebecca por Josh. Em “After Everything I’ve Done For You (That You Didn’t Ask For)” (Depois de Tudo Que Eu Fiz Por Você (Sem Você Pedir)), percebemos que, apesar de amar a amiga, Paula também pode representar um obstáculo para a protagonista se não lidar com as próprias questões.

Leia também >> Normal People: a adaptação do fenômeno literário da década

Já Greg é um amigo de Josh que trabalha como barman no point da cidade e se apaixona por Rebecca. Cínico e amargo, Greg se sente preso a West Covina e fala sobre isso em uma das músicas mais bonitas da série: “What’ll It Be?” (O Que Vai Ser?). O personagem lida com seus problemas por meio do álcool e, em “Greg’s Drinking Song” (Canção de Beber do Greg), fala sobre como a bebida atrapalha sua vida e a necessidade de largar o vício.

Santino Fontana como Greg
Greg se apaixona por Rebecca, mas precisa lidar com o alcoolismo | Imagem: divulgação

Crazy Ex-Girlfriend é uma série sobre uma mulher que sofre de transtorno de personalidade borderline. Mas também é uma série sobre como todas nós temos fantasmas com que precisamos lidar, sejam eles reconhecidos pela psiquiatria ou não. Em uma das músicas da última temporada, Rebecca, Josh e Nathan cantam em uníssono, em pontos separados da cidade, que “ninguém mais está cantando minha canção”. No fim das contas, isso raramente é verdade. Alguém está sempre cantando a sua canção, ou, pelo menos, uma canção muito parecida.


Compartilhe

Written by:

12 Posts

Tradutora, bacharel em Jornalismo e doutoranda em Linguística, na área de Análise do Discurso. Gosta de cinema, de ficção científica, de cinema de ficção científica e de batata. Queria escrever quando crescesse e, agora que cresceu, continua querendo.
View All Posts
Follow Me :