Blanca Evangelista: o coração pulsante de “Pose”

Blanca Evangelista: o coração pulsante de “Pose”

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Estas lágrimas são de alegria. Estou aliviada. Eu nunca tive certeza de nada. Era sempre um dia de cada vez até agora. Eu não quero morrer. Eu quero viver”, é o que Blanca Evangelista – interpretada pela multitalentosa MJ Rodriguez – diz quando descobre que é portadora de HIV. O encontro com essa declaração pode contar mais sobre a personagem central de Pose do que o diagnóstico que a levou a reagir assim. Um diagnóstico recebido no auge da crise epidêmica e no seio da comunidade mais estigmatizada com o surgimento da doença.

O palco de Blanca Evangelista em Pose

Entre a ficção e claras inspirações no documentário Paris is Burning (1991), Pose coloca holofotes sobre histórias de pessoas queer. E pessoas queer predominantemente negras e latinas que construíam e viviam a cultura drag-ballroom de Nova York entre o fim dos anos 80 e o início dos 90. A mesma cena por onde circulou Mama Ru – que já teria dito que drag queens nunca seriam mainstream. Infelizmente (ou felizmente), RuPaul caiu em contradição. Enquanto responsável por RuPaul’s Drag Race, despertou e ainda desperta, em pessoas de todas idades, gêneros e orientações sexuais, o interesse por Paris is Burning. E, consequentemente, por Pose.

Apesar da cadência e escrita nem sempre consistentes, a série se destaca pelo magnetismo visual e por oferecer um palco para personagens complexos como Blanca Evangelista. Após receber um diagnóstico que, especialmente àquela época, era lido como sentença de morte, Blanca reage tomando uma agência radical da própria vida: cria a House of Evangelista e torna-se a mãe que nunca teve.

Damon, Blanca Evangelista e Angel em "Pose"
Damon, Blanca Evangelista e Angel em “Pose” | Gif: FX
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Oferecendo teto, comida, suporte emocional, acolhimento ou intervenções mais duras, ela por vezes reproduz certo árduo papel imposto à maternidade de se colocar em segundo lugar pelo bem das crianças. Contudo, Blanca não permite que Damon (Ryan Jamaal Swain) se perca em frustração quando não consegue uma vaga como dançarino na turnê de Madonna. Igualmente, não deixa que Angel (Indya Moore) se culpe após uma experiência ruim durante uma sessão de fotos. Então, ela os incentiva a manter a cabeça erguida e a continuar se movimentando. Como uma força vital que busca adiar a morte doando-se a outras vidas, Evangelista apoia e protege ferozmente seus filhos de casa, assim como seus amigos Pray Tell (Billy Porter), Lulu (Hailie Sahar), Elektra (Dominique Jackson) e Candy (Angelica Ross).

A categoria é: relacionamentos e empatia

Blanca pode não ser destaque em voguing nos desfiles, mas ela tem a habilidade especial, segundo Elektra, de “liderar com o coração”. Ela é capaz de ver grandeza nas pessoas que ama e as incentiva a serem melhores. É notável que a série não reduz a personagem à romantização da mulher transgênero afro-dominicana guerreira e forte. Embora apresente as faces de mãe corajosa, criativa, resiliente e capaz de um altruísmo extremo, a falta de demonstração de suas vulnerabilidades se apresenta em inseguranças. É o caso de uma briga com Pray Tell sobre a dificuldade de namorar sendo uma mulher trans heterossexual e portadora de HIV. 

Blanca e Pray Tell em Pose
Blanca Evangelista e Pray Tell em “Pose” | Imagem: reprodução

Evangelista também chega a perceber que os padrões muito altos que ela tem para seus amigos e familiares, além de suas ações para ajudá-los a alcançar os objetivos que ela mesma estabelece para eles, talvez os tenham afastado. Dessa maneira, ela entende que tem que ser – e parecer – forte.  E, ao mesmo tempo, começa a compreender o problema em nunca demonstrar fraquezas para a família que escolheu.

A humanidade de Blanca Evangelista nos erros e lutas

Fica evidente também que o senso de justiça social de Blanca Evangelista se relaciona com o lugar de quem sofreu na pele várias injustiças de raça, gênero e classe. Por exemplo, em uma cena, ela se impõe contra um bar gay branco que a discrimina e leva a House of Evangelista para uma manifestação pela conscientização a respeito da AIDS numa igreja – referência a um protesto real ocorrido em 1989

Portanto, há questões que se mostram mais importantes para a personagem do que vencer desfiles no ballroom. E que apontam, de maneira sutil, o modo como, ainda que os ballrooms representassem um porto seguro, um espaço fundamental de encontro e expressão artística e cultural, eles eram um entre muitos pedaços de um universo de mudanças e lutas pelas quais as pessoas que integravam aquela comunidade passavam.

A chosen family de Blanca Evangelista em Pose
A chosen family de Blanca Evangelista | Gif: FX
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Embora a série pareça registrar Blanca como uma espécie de “santa” na percepção de sua chosen family, Pose não deixa de lado sua humanidade e seus erros. O modo como é apresentado o tratamento dado à Angel é um exemplo – ao expor as falhas de Blanca nas diferenças ao tratamento oferecido a Damon e Lil Papi (Esteban Alberto Martinez-Evangelista), a série oferece uma subversão interessante de costumes parentais conservadores típicos para meninas e meninos.

Cuidar de si e celebrar a vida 

No meio disso tudo, mesmo carregando muita carga sobre os ombros, ao longo da série Blanca mantém seus objetivos pessoais. Ela também cuida de sua saúde, abre seu próprio negócio e se esquiva de um relacionamento amoroso potencialmente problemático. 

A cada vez que a personagem tenta dar um passo na vida algo parece desmoronar. Todavia, sua capacidade de lidar com as adversidades e não se acomodar é extraordinária. Ela chega a ser presa numa cela masculina e perde seu negócio e sonho de ter um salão de beleza por causa de uma senhoria transfóbica. Blanca então se reinventa como assistente de enfermagem, cuidando de pacientes com AIDS no mesmo hospital onde encontra um amor sensível e parceiro.

Blanca Evangelista em Pose
Cena de “Pose” | Imagem: Eric Liebowitz/FX
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No final, a casa de Blanca Evangelista pode não estar no topo do mundo do ballroom, mas ela é o palco de suas próprias realizações. O que enfim é celebrado com a premiação da personagem por suas contribuições à cultura do ballroom. Assim também, a série acena à resiliência e coragem centrais ao seu trajeto – e resiliência e coragem das muitas vidas que fizeram (e fazem) real o mundo registrado em Pose.

Junto à terceira e última temporada do drama tecnicolor criado por Ryan Murphy a partir do texto de Steven Canal, o arco de Blanca se completa quase 30 anos antes da indicação de MJ Rodriguez ao Emmy 2021 de Melhor Atriz em Série Dramática. Finalmente uma mulher trans indicada na categoria. Antes muito tarde do que nunca?


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Observadora e pitaqueira com lugar de fala em interesses aparentemente desencontrados e uma vontade, que dá e não passa, de achar os fios que os conectam. Internacionalista, feminista interseccional, graduada em ciências sociais que prefere ser identificada como educadora social e cozinheira amadora. Ela/dela.
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