King Kong en Asunción: um road movie na América do Sul

King Kong en Asunción: um road movie na América do Sul

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O saudoso ator Andrade Júnior interpreta um velho matador de aluguel, escondido no interior da Bolívia. Após cometer seu último assassinato, ele vai até o Paraguai para receber o pagamento e lá descobre o paradeiro da filha que teve com um antigo amor. Filha que, entretanto, ele nunca conheceu, pois abandonou a mulher ainda grávida. Essa jornada é a que acompanhamos em King Kong en Asunción, novo longa do diretor pernambucano Camilo Cavalcante.

Um road movie sulamericano

As primeiras imagens de King Kong en Asunción impressionam – o matador executando sua vítima na vasta imensidão do deserto de sal na Bolívia. O plano, filmado com um enquadramento amplo e distante que miniaturiza os personagens, contrasta a beleza da paisagem com a brutalidade da ação performada, nos fazendo crer que estamos quase num filme de faroeste.

Cena de King Kong en Asunción

Em seguida, acompanhamos o velho caminhando na longa estrada de volta à cidade, acampando sozinho no meio do nada e arrastando sua pequena bagagem com rodinhas. Tudo isso gera uma atmosfera muito peculiar e interessante, criando expectativas de descobrirmos ao longo do filme quem é esse personagem tão misterioso.

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O velho mal fala. Já abatido pela vida, o silêncio e a expressão facial que mistura dor e raiva são as poucas demonstrações que o personagem se permite. Andrade Júnior visivelmente se entrega ao papel e seria maravilhoso poder vê-lo fazer mais em cena. Mas a verdade é que King Kong en Asunción parece perder um pouco do foco logo após esse início promissor.

O matador de aluguel interpretado por Andrade Júnior

Execução irregular enfraquece o potencial da narrativa de King Kong en Asunción

Quando o velho sai da estrada e começa a perambular pelas cidades do interior da Bolívia e do Paraguai, as cenas se tornam genéricas e cansativas. Determinados diálogos com conhecidos indicam que alguma história vai se desenrolar adiante. Algo que revelará o passado da vida do protagonista, principalmente no que se refere ao esperado encontro com a filha que nunca conheceu.

Mas enquanto isso não chega, assistimos a uma tentativa do velho de curtir suas últimas noitadas, quase como uma despedida antes da morte. Vemos jogos de azar, farras com prostitutas, muita bebedeira e charutos, além de uma noite num hotel de luxo. Porém, tais cenas são extremamente genéricas, não desenvolvendo nada de particular no personagem, nem movendo a narrativa em qualquer direção de consequência.

O tal King Kong do título também aparece em uma interpretação literal demais, esvaziando possíveis metáforas pretendidas. Poderia ser qualquer personagem ali, pelo modo totalmente desinteressante com que as cenas foram filmadas.

filme de Camilo Cavalcante

A exceção fica por conta de um flashback que mostra um dos primeiros traumas pelos quais o protagonista passou na vida. O evento que marcou o início de sua brutalização e consequente vida clandestina. A forte atmosfera estética que essa cena apresenta, assim como as do início de King Kong en Asunción, é o que o longa tem de melhor, mas que infelizmente não consegue manter por toda sua duração.

Narrativa não dá sequência às tramas que inicia

Sem o deleite estético como pilar de sustentação, a fragilidade da narrativa acaba ficando exposta e incomodando bastante. O reencontro familiar é muito rápido e insatisfatório, deixando várias questões sem resposta. Dessa forma, a história parece não saber para onde ir, abandonando muito bruscamente o arco principal que buscou construir.

Uma voz em off tenta narrar poeticamente as agruras da jornada do velho durante todo o filme, e em boa medida consegue evocar um certo lirismo, assim como também funciona como um recurso expositivo. Porém, não é suficiente para montar um quebra cabeça complexo do personagem. No fim das contas, a narração salta aos olhos (ou ouvidos) como mais um recurso estético insuficiente para enriquecer uma história mal delineada.

Um road movie sulamericano

Os melhores elementos de King Kong en Asunción, que são a ambientação em países vizinhos da América do Sul, a ótima trilha sonora, a narração em guarani, e a dedicada atuação de Andrade Júnior, precisariam de uma história mais bem amarrada e executada para concretizar todo o potencial contido na boa ideia inicial.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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