A Candidata Perfeita: uma mulher quebrando barreiras na Arábia Saudita

A Candidata Perfeita: uma mulher quebrando barreiras na Arábia Saudita

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Em 2012, a diretora Haifaa Al-Mansour se tornou a primeira mulher a dirigir um filme na Arábia Saudita, com seu longa de estreia O Sonho de Wadjda. Desde então, o país passou por reformas que liberaram algumas das rígidas regras impostas sobre as mulheres. Por exemplo, atualmente elas já podem dirigir carros, e essa é a imagem que abre o quarto filme da diretora, A Candidata Perfeita, que estreou nos cinemas dia 26 de agosto.

O enredo de A Candidata Perfeita

A jovem médica Maryam Alsafan (Mila Al Zahrani) aparece dirigindo sozinha seu carro em direção à clínica em que trabalha, numa cidade do interior. Porém, a rua em frente à clínica não é pavimentada, o que gera problemas para locomoção dos pacientes em meio a muita lama.

Cena do filme A Candidata Perfeita
Maryam atende pacientes na clínica em que trabalha | Imagem: reprodução

Quando Maryam tenta viajar para Dubai para participar de um congresso, seu embarque no avião é negado, pois sua permissão para viajar está expirada. Curiosamente, tal fato também foi abolido no país recentemente, mas estava em vigor na época da filmagem do longa. Em seguida, como seu pai está em turnê com uma banda (ele é tocador de oud, instrumento típico), Maryam tenta recorrer a um primo que trabalha na administração local. Para falar com ele, entretanto, é preciso se candidatar a vaga de secretária municipal, pois o rapaz só está atendendo os candidatos naquele dia.

Maryam acaba perdendo o congresso, mas decide levar adiante a candidatura política, pois seu primo menciona brevemente que pode ser uma forma de resolver o problema da rua da clínica, algo que muito interessa à doutora.

Com o apoio de sua irmã Selma (Dae Al Hilali), que é fotógrafa de casamentos, Maryam faz vários planejamentos para lançar a campanha. A irmã mais nova, Sara (Nora Al Awadh), fica um pouco relutante com a ideia no início, pois teme que a família sofra represálias pela ousadia de Maryam.

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Além disso, eles já são relativamente mal vistos pela sociedade local por serem uma família de músicos. Até recentemente a música era proibida em locais públicos na Arábia Saudita e não existiam cinemas. Isso se reflete no filme por meio da turnê do pai, onde em algumas cenas os músicos discutem se deveriam cancelar alguns shows devido a ameaças de grupos mais tradicionalistas. O receio da irmã mais nova, portanto, é bastante compreensível.

A Candidata Perfeita, de Haifaa Al-Mansour
Maryam (centro) com suas irmãs Sara e Selma | Imagem: reprodução

A candidatura acidental se torna compromisso

O filme acompanha a jornada de Maryam na elaboração de sua campanha, fazendo entrevistas para a TV e lançando vídeos na internet, que viralizam apenas por se tratar de uma mulher se candidatando a um cargo público (mesmo ela estando totalmente coberta, sem sequer mostrar os olhos por trás de um véu preto). Além disso, ela realiza um comício para um grupo de homens por meio de uma tela, pois não é permitido que fale ao vivo com homens que não sejam da sua família.

Em A Candidata Perfeita há algumas simbologias bastante óbvias, como a transição do niqab para o hijab ao longo do filme. O primeiro, um pano que cobre o rosto e o pescoço, deixando apenas os olhos visíveis, é usado por Maryam no início do filme. Mas ao passar do tempo, simbolizando o desenvolvimento de sua coragem para enfrentar a sociedade local, ela começa a usar apenas o véu ao redor da cabeça, hijab, que permite que seu rosto fique à mostra.

Haifaa Al-Mansour
A diretora Haifaa Al-Mansour | Foto: reprodução

A diretora mencionou em diversas entrevistas sobre seus filmes como acredita que o rosto é um forte símbolo da identidade pessoal e que escondê-lo é um erro doloroso. Haifaa Al-Mansour também afirmou que a sociedade saudita ainda vê o corpo da mulher como um pedaço de bolo, que se não estiver coberto atrairá moscas. Mas ela também vê esperança nas mudanças recentes no país.

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Só o contraste de como foram feitas as filmagens de seu primeiro longa na Arábia Saudita, onde ela tinha que dar as direções por walkie talkie de dentro de uma van, para não se misturar com sua equipe masculina, e o mais recente, em que ela pôde abdicar desse recurso, já demonstra essa guinada para frente, embora ainda singela.

Filme simples com mensagem direta

A Candidata Perfeita é um filme bastante simples. A diretora procurou filmar num estilo naturalista que lembrasse um documentário, segundo suas próprias palavras. Isso também se reflete na escolha de atores não-profissionais para o elenco, com exceção da protagonista, que é uma atriz ascendente na TV saudita.

Haifaa Al-Mansour se tornou a primeira mulher a dirigir um filme na Arábia Saudita
Maryam se dirige a mulheres para lançar sua candidatura | Imagem: reprodução

Haifaa Al-Mansour possui uma abordagem não-confrontacional. Prefere um retrato nuançado da sociedade, fazendo questão de incluir também homens que são mais liberais e tolerantes, como o seu pai e um rapaz chamado Omar (Tareq Al Khaldi), que vira um possível interesse romântico da protagonista em certo ponto. Assim, a diretora pretende que o filme expresse uma visão social e coletiva dos problemas, em vez de focar em vilões individuais.

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Com uma duração bem curta e enredo simples e direto, A Candidata Perfeita funciona como uma breve imersão numa cultura tão fechada até muito recentemente para os olhos ocidentais por meio do cinema. A diretora também celebra o fato de que seus filmes finalmente serão exibidos no país de origem e garante que os sauditas gostarão de se ver em tela, como não poderia deixar de ser.

É uma felicidade que mulheres como Haifaa Al-Mansour, assim como suas protagonistas, consigam quebrar tantas barreiras. Ela também dirigiu os longas Mary Shelley e Felicidade Por Um Fio (este último pode ser conferido na Netflix).

Assistimos ao filme a convite da Imovision.


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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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