Normal People: a adaptação do fenômeno literário da década

Normal People: a adaptação do fenômeno literário da década

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Em maio de 2019 foi anunciado pela emissora BBC e pela Faber & Faber que as gravações da adaptação de “Normal Peoplepara a televisão iriam se iniciar. Depois do grande sucesso do livro “Pessoas Normais” no mundo inteiro, concebido como “O fenômeno literário da década” pelo The Guardian, os fãs da obra de Sally Rooney ficaram ansiosos sobre como Marianne (Daisy Edgar Jones) e Connell (Paul Mescal) iriam se transformar em tela. Eu inclusive.

Desde a leitura do livro, e também a resenha publicada aqui em fevereiro de 2020, Marianne e Connell se tornaram muito presentes na minha vida, pelo fato dos personagens serem muito reais e palpáveis. Seus sentimentos, problemas e relacionamentos parecem retirados de qualquer grupo de pessoas. Portanto, é quase que impossível não se identificar em certos momentos, ou pelo menos sentir empatia por suas vivências. E talvez por essa característica especial seja tão difícil colocar em palavras o que a leitora ou espectadora da adaptação sintam ao ver/ler a história de amor e amizade entre Marianne e Connell.

A adaptação feita pela BBC merece ser vista, mesmo que você não tenha tido qualquer contato com o livro homônimo. O roteiro construído, a fotografia, a trilha sonora e especialmente os atores que foram escalados possuem uma habilidade emocionante em transmitir àqueles que entram em contato com a obra o retrato completo de uma história de amor real, que possui os seus problemas e desencontros, na qual as pessoas envolvidas são contraditórias, convivem com sentimentos conflitantes e, até mesmo, às vezes, autodestrutivos. Mas caso você tenha lido ao livro, esta se torna ainda mais especial.

Marianne (Daisy Edgar Jones) e Connell (Paul Mescal) em Normal People
Marianne (Daisy Edgar Jones) e Connell (Paul Mescal) em “Normal People”. Foto: BBC/Hulu (reprodução)

[ALERTA DE SPOILER: caso você ainda não tenha assistido ou lido poderá ter acesso à resenha do livro de uma forma geral aqui, ou caso você não se importe, a partir daqui haverá comparações diretas entre o livro e a série]

Os dois primeiros episódios de “Normal People” procuram mostrar de forma mais detalhada a rotina e o universo de Marianne e Connell quando ainda estão na escola. Marianne como essa garota que transmite aos seus colegas de classe ser uma pessoa complexa, quase que briguenta. Ela tem uma família bem rica, além de ser excluída da vida social da escola e muitíssimo inteligente. Connell, por sua vez, é o retrato mais “comum”. Ele possui um grupo de amigos mais extenso, chegando a ser quase que popular na escola. Estrela do time de futebol, existem algumas garotas interessadas nele, e tudo vai bem. A mãe de Connell trabalha na residência da família de Marianne como doméstica e, ao final de seus turnos, seu filho vai pegá-la para irem pra casa.

Até então, todo o visual dos personagens, suas características e trejeitos principais são praticamente idênticos ao que é demonstrado pela Sally Ronney no livro, até que se inicia a aproximação desses personagens. O que no livro é um processo mais detalhado, que varia entre o desconforto e a tensão sexual, em que lentamente esses personagens se encontram e têm quase que um certo magnetismo entre eles, na série isso não fica tão claro e pode ser considerado até um pouco atropelado.

Portanto, pareceu que os roteiristas e produtores queriam deixar logo claro a relação deles no passado para que pudessem avançar a próxima parte da evolução da história, perdendo um pouco a magia que a leitora tem acesso no livro. Mas isso não se torna um demérito da série, pois aquela espectadora que não leu o livro ainda vai ter uma demonstração clara de como os personagens se aproximaram e se apaixonaram, mas é um aspecto que poderia ter sido melhor expresso.

Logo após suas aproximações iniciais, temos uma demonstração clara do poder que o consentimento tem, e de como primeiras relações sexuais e de grande intimidade podem ser mágicas e especiais e não definidas a partir de apenas dor e de insegurança. Desde os primeiros episódios, “Normal People” apresenta o sexo como algo não apenas natural, mas muitíssimo íntimo e extraordinário. Ao invés das representações objetificadas e que chegam a ser desconfortáveis de assistir, aqui há a retratação, por meio do uso das câmeras, da trilha sonora, e absolutamente da química e do conforto entre os atores, de um sexo que geralmente não é mostrado pela grande mídia, pois além de consensual é possível sentir a paixão e os sentimentos de descoberta que os personagens estão sentindo.

Cena de "Normal People".
Cena de “Normal People”. Foto: BBC/Hulu (reprodução)

Algumas resenhas e opiniões que alguns sites e jornais emitiram sobre a série disseram que esta é bastante “atrevida” e que talvez as cenas de sexo tenham sido demais e tomaram muito tempo da série, mas aqui venho a discordar. Além de não ser uma relação sexual que degrada os corpos ou que gera desconforto na espectadora, as cenas de sexo fazem completo sentido com o que os personagens estão sentindo e vivenciando, que é algo bastante retratado também no livro também.

Tais cenas são muito importantes para revelar a relação de intimidade e segurança entre os personagens, como também é imprescindível para delinear como Marianne vivencia os reflexos da violência na vida dela que, ora foi impetrada de seu pai contra sua mãe e, logo após isso, foi voltada contra ela, ora em forma física pelo seu irmão, assim como psicologicamente pela sua mãe, e que tem influências diretas no que ela se sujeita e se subordina em outros relacionamentos. Dessa maneira, Marianne pensa que merece qualquer situação degradante, por sua ideia de amor estar deturpada por esse ambiente em que conviveu a maior parte da sua vida. 

Essa tendência autodestrutiva que Marianne tem, certas horas demonstrada para Connell, mas principalmente presente em outros relacionamentos que ela vai viver ao longo da história, é melhor representada no livro. Esse comportamento é influenciado pela sua relação com sua família, que vem de seu irmão violento, sua mãe ausente e que não demonstra qualquer afeto ou interesse na vida de Marianne. Todos esses fatores se intensificam na época do colégio – quando passa a ser excluída por seus colegas – sendo tão basilar para a sua personalidade, refletindo até a sua vida adulta.

Marianne (Daisy Edgar Jones) em Normal People
Marianne (Daisy Edgar Jones) em “Normal People”. Foto: BBC/Hulu (reprodução)

Apesar da série mostrar algumas cenas em que seu irmão é claramente abusivo e violento com ela, e sua mãe sendo passiva nessas circunstâncias ou até mesmo a punindo por reagir, no livro isso é mais esmiuçado, pois logo no início temos contato com essa relação. Portanto, na obra de Sally Rooney, a passividade e os problemas da mãe de Marianne são retratados de forma mais clara, já na série a mãe aparenta ser até mais “agradável”, além do comportamento destrutivo de Marianne ocorrer de forma repentina, apenas quando confrontada pelo irmão. Mas deixando a adaptação de lado, é relevante que esse assunto tenha sido abordado numa série de uma emissora de grande alcance, com sensibilidade e muito cuidado.

Uma outra temática importante foi o relacionamento entre Marianne e Jamie. No livro, há uma certa dificuldade de perceber as atitudes abusivas do personagem. Apesar de vermos como o personagem é tóxico e violento psicologicamente com Marianne, em alguns momentos da obra essa percepção sobre ele era quase que indiferente. Já na série isso é explícito desde o primeiro momento em que nos deparamos com o personagem, o que é um ponto extremamente positivo. Portanto, o livro mostra que essas vivências são sutis e mascaradas por um pretenso amor que um tem pelo outro, e também deixa mais explícito a relação entre esse relacionamento e os que ela possui com a sua família. Mas a série deixa claro que aquele não era um comportamento saudável, demonstrando um tom bem repreensivo e condenador. Cada um possui sua perspectiva e ambas são maravilhosas. 

Outra situação que senti falta foi a abordagem da relação entre a professora de Connell e este, que na série praticamente não é mostrada, mas é bem influente sobre ele no livro. O personagem possui essa necessidade de se sentir estimado, amado e popular, mas que também leva a outra ambientação super relevante da série, que é justamente esse medo que Connell tem de não ser popular, importante e célebre entre as pessoas da escola – que já foi mencionado na resenha do livro como uma circunstância bem interessante, porém melhor representada na série. Mas para além do roteiro, a série se destaca por duas coisas bem únicas: as atuações e a trilha sonora impecável. 

Connell (Paul Mescal) em "Normal People"
Connell (Paul Mescal) em “Normal People”. Foto: BBC/Hulu (reprodução)

A trilha sonora honra perfeitamente os momentos de cada cena. É impossível não reparar o arranjo e o equilíbrio entre os sentimentos dos personagens e as músicas. O que nos leva ao outro ponto: as atuações. É especial ver como Marianne e Connell se transformaram em atuações tão precisas e sensíveis. As expressões, os toques, as cenas de sexo tomaram rumos ainda mais sensoriais que o livro. O que já era genial se tornou único. Devido essas características temos um aprofundamento ainda maior na psicologia dos personagens, em seus sentimentos, na relação entre eles e seus amigos do que no livro. Foi definitivamente uma grande descoberta de atores.

Um último tema que é necessário mencionar é a relação entre Connell e a sua depressão. No livro temos uma construção bem lenta de como o personagem se sentia ao longo dos tempos até que se evoluísse para a doença. Na série isso é um pouco mais apressado, talvez pela quantidade pequena de episódios e pelo tempo reduzido de 30 minutos, mas não deixou de ser relevante e sensível. Através da atuação de Paul Mescal é quase possível ouvir os pensamentos do personagem com um único olhar. A doença é exibida com muita responsabilidade, por meio da atuação, roteiro, trilha sonora e da fotografia. A cada dificuldade de sair de casa, de permanecer em classe, de conversar com a psicóloga, a espectadora é levada a um universo original e excepcional, o que esperamos que esse tratamento se repita em outras obras.

Normal People
Foto: BBC/Hulu (reprodução)

No geral, a série vale muito a pena ser vista, mesmo que você não tenha lido ao livro, e se você leu ao livro, a série se tornará inesquecível. “Normal People” é um turbilhão de sentimentos. A obra tem uma conexão profunda com os personagens e os atores, tanto que quando chegamos às últimas cenas do último episódio sentimos uma tristeza profunda de termos que nos despedir daquele universo. Sally Rooney, como uma das produtoras executivas da série, consegue mais uma vez emocionar e falar de assuntos muito importantes. Bravo!

“Normal People” estará disponível no Brasil pelo serviço de streaming Starzplay a partir do segundo semestre, ainda sem data confirmada.

A trilha sonora de Normal People está disponível no Spotify:


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Estudante de Direito, nordestina, pode falar sobre Studio Ghibli e feminismo por horas sem parar, amante de cinema e literatura (ainda mais se feito por mulheres), pesquisadora, acumuladora de livros e passa mais tempo criando listas inúteis do que gostaria.
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