Hereditário: as perturbadas relações familiares e a representação da maternidade

Hereditário: as perturbadas relações familiares e a representação da maternidade

Hereditário (no original: Hereditary) é um filme de terror lançado em junho deste ano. Dirigido por Ari Aster, o longa conta as perturbações em que uma família se encontra após a morte da avó. Um filme que atraiu atenção, rendendo uma série de recomendações e que já figura entre os melhores filmes do ano. O longa conta com uma narrativa interessante, relações familiares trabalhadas de forma honesta e situações que você não espera (o que funciona muito bem!). 

AVISO: O texto a seguir contém MUITOS spoilers

Hereditário começa de uma forma bastante comum. Somos apresentadas à família de Annie (interpretada por Toni Collette e que faz um trabalho excepcional), composta por seu marido, Steve (Gabriel Byrne); seu filho mais velho, Peter (Alex Wolff); e sua filha mais nova, Charlie (Milly Shapiro). Eles estão se reunindo para ir para o enterro da mãe de Annie, Ellen (o nome da atriz infelizmente é um mistério, mas existe a teoria no Reddit que seria apenas uma mulher local de onde o filme foi gravado).

No início do longa, percebemos alguns detalhes sobre a família: Annie, durante sua fala no enterro de Ellen, diz sobre a relação complicada que tinha com a sua mãe, mas como a amava mesmo assim; Charlie é uma garotinha com gostos peculiares, que gosta de desenhar e que tem um quarto cheio de pequenos bonecos que ela mesma faz; Peter é um rapaz comum, que fuma maconha escondido de seus pais no quarto e aparentemente tem uma relação tranquila com ambos; e Steven, o pai da família que trabalha fora de casa (pois Annie trabalha com miniaturas e mantém um ateliê em casa). Uma família tranquila, que aparentemente não tem nada de errado. Mas as coisas começam a ficar estranhas quando Charlie começa a ver uma luz em seu quarto e segue até o bosque perto de casa, em que vê uma mulher adorando algo.

Hereditário

Charlie é uma garota bastante introspectiva, com alergia à nozes, e alguns detalhes importantes sobre ela vão sendo dados durante o filme. Sua mãe pede para que seu irmão a leve para uma festa que ele gostaria de ir, e é nesse momento que temos o grande acontecimento do filme. Charlie come um pedaço de bolo com nozes, sente sua garganta fechar e pede ao seu irmão para ir embora. Quando estão no carro, um acidente violento acontece e Charlie morre, no que talvez seja uma das cenas mais pesadas do filme. A tensão da cena nos coloca em suspensão e paramos de respirar por uns momentos, junto com Peter, até que ele chegue em casa.

A morte de Charlie marca um momento importante no filme: percebemos que a família não é tão estável assim, mesmo antes do acidente. Annie vai até um grupo de ajuda para aqueles que perderam alguém, e descobrimos que toda sua família tinha eventos de distúrbios mentais: seu pai e seu irmão morreram cedo, e sua mãe tinha problemas sérios, permanecendo afastada de Annie para que ambas pudessem conviver. Descobrimos também que a relação de Annie com seus filhos é bastante conturbada, pois a mesma sofre de sonambulismo e uma vez quase ateou fogo nas crianças, ao que Annie sugere que Peter sempre tente acusá-la de algo com esse acontecimento.

Com o acidente e o acontecimento desestabilizador da relação entre os três, vemos a família começar a ruir, mas Annie, mesmo que sinta raiva pelo que aconteceu e coloque a culpa em seu filho, procura consertar a situação. Conhece uma mulher nesses encontros, Joan (Ann Dowd), que lhe consola e participa com ela de uma mesa, semelhante a um ritual daqueles do jogo do copo, bastante conhecido, mostrando para Annie que ela pode falar com Charlie, mesmo morta. Annie chama Steven e Peter para participarem do experimento, mas algo dá errado e Peter começa a ser perseguido e assombrado, vendo a mesma luz que Charlie viu, ouvindo pessoas o chamarem, vendo coisas nos espelhos. Esses são os últimos respiros do que ainda poderíamos esperar dessa família.

O relacionamento desgastado de Annie e Steven, o sofrimento que Annie sente e desconta em Peter – o acusando de ser culpado – , e a própria dor de Peter, acabam levando essa família ao fundo do poço. Com o casamento desmoronando, Annie já não pode ter a ajuda de Steven, que desconfia que ela tenha realmente perdido a sanidade, fazendo com que seu filho esteja constantemente assustado.

Hereditário

Ao final, Annie descobre que Joan era uma antiga amiga de Ellen e que ambas participavam de um culto para que Paimon, um demônio, pudesse habitar um corpo e ter uma forma física. Porém, quando descobre isso, já é tarde demais, e Annie não pode salvar sua família. O culto é poderoso, Charlie e Peter estavam nos planos da seita, e na cena final percebemos que Paimon, que antes habitava o corpo de Charlie, agora habita o corpo de Peter.

Relações familiares, o estereótipo da mulher louca e a representação da maternidade em Hereditário

Hereditário é marcado principalmente pela relação familiar. A relação entre Annie e sua mãe, que é desgastada pelo distúrbio que Ellen tinha; a relação que Annie tinha com Charlie, antes que ela morresse, tentando fazer com que sua filha se sentisse amada; a relação que Annie tinha com Peter, mesmo depois do acidente, com suas discussões e a culpa que cerca ambos. Annie é apenas uma mãe que sente a dor de perder uma filha e sua própria mãe. Em momentos muito próximos, ela sente a dor de culpar seu filho, mesmo não querendo e descontando nele toda essa frustração.

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É importante também observar o local de Annie durante a narrativa do filme. Annie, como mãe, recebe toda a pressão e tensão. Tem que cuidar do discurso do enterro de sua mãe, não consegue se abrir com a família e mente que vai até ao cinema para ir no grupo de apoio. Ela é tratada como frágil pelo marido quando ele mente sobre o corpo de sua mãe ter sumido do cemitério. Annie aguenta toda a pressão de sua filha introspectiva, sofre calada sobre o incidente de sonambulismo que quase matou seus filhos, mas sente a culpa que Peter deposita nela, além de trabalhar em casa e suportar todos os problemas.

Quando Annie se sente triste com seu filho pelo acidente, seu marido não compreende e assume o lado do filho. Quando tenta reconstruir a família, é taxada de louca. Quando percebe que liberou algo ruim em sua família, novamente é desacreditada. Annie é a mulher louca do filme, aquela que precisa suportar tudo e manter sua família em pé, enquanto seu marido parece estar ausente na maior parte do tempo, mesmo com o acidente de sua filha e com todas as dificuldades de sua esposa em assimilar a situação e seguir em frente. Até mesmo quando seu próprio filho se machuca na escola, é à Annie que eles recorrem primeiro. O papel de Annie acaba sendo o papel ao qual são responsabilizadas as mulheres: ela é a mãe e o porto seguro da casa.

A questão da maternidade de Annie é algo delicado também. Em um momento de crise, Annie se encontra nervosa e vai até o quarto de Pete. Logo após, afirma que não queria tê-lo, que tentou praticar aborto de diversas formas e nunca conseguiu, que sua mãe a fez ter o primogênito. Annie não queria ser mãe, mas foi obrigada. E mesmo assim ela procura manter uma relação boa e protetora com seus filhos, tentando lidar com a maternidade da melhor forma que consegue. Diferente de sua relação com Peter, Annie mantém uma relação mais carinhosa com Charlie, em que supomos que a gravidez com Charlie tenha sido mais tranquila e que aceitá-la foi mais fácil.

Hereditário

Hereditário tem elementos de terror que, unidos, nos dão um filme assustador: assombrações que falam ao pé do ouvido, cultos demoníacos, pessoas que conhecemos mas que, na verdade, não sabemos nada da vida privada delas. Trazendo uma história que pode nos lembrar “O Bebê de Rosemary”, de 1968, Hereditário é um filme forte, pesado, que assume rumos que já conhecemos, mas por meios que talvez não estivéssemos esperando. É uma história bem amarrada, que tem detalhes do início que são recuperados ao final do filme – como quando Charlie menciona para sua mãe que ela não se sente exatamente como uma garotinha, e descobrimos que Paimon, um demônio que precisa de um corpo masculino, utiliza Charlie como receptáculo.

Entretanto, assim como “A Bruxa“, de 2015, Hereditário passa pelo problema de que algumas pessoas gostam do filme inteiro, mas tem resistência com o final. A parte sobrenatural, o demoníaco, a questão dos efeitos, acabam fazendo alguns espectadores alegarem que perderam ali a seriedade do filme. Assim como todos os filmes de terror, é necessário que você assista a Hereditário de cabeça e peito abertos. Elementos fantásticos, não de hoje, são utilizados em filmes de terror para contar determinadas situações, de forma metafórica ou não. O culto ao Paimon, no final do filme, bem como os momentos em que vemos pessoas nuas sorrindo, como se estivéssemos vendo com o canto do olho dos personagens, são elementos que ajudam a colocar o insólito no filme, a inserir o sobrenatural e a certa dose do suspense do que é real e o que não é.

Hereditário acabou se tornando um dos melhores filmes do ano, graças ao conjunto da obra, às grandes atuações (principalmente de Toni Collette e Milly Shapiro) e principalmente ao clima de terror absoluto que ele nos coloca, conforme avança na narrativa.

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Formada em História, escreve e pesquisa sobre terror. Tem um afeto especial por filmes dos anos 1980, vampiros do século XIX e ler tomando um café quentinho.
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