Desperates Housewives: Mulheres desesperadas não saem de casa e a subversão de estereótipos femininos

Desperates Housewives: Mulheres desesperadas não saem de casa e a subversão de estereótipos femininos

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O nome da série Desperates Housewives (2004-2012) incomoda um pouco, porque induz a pensar em uma série sobre donas de casa e, talvez, naqueles estereótipos tão comuns de produções cinematográficas clássicas. Mesmo se traduzirmos por Mulheres Desesperadas, como acontece na Espanha, por exemplo, o “desesperadas” ainda fica ressoando como outro estereótipo, o da mulher histérica, um diagnóstico tão comum na medicina antiga para as mulheres que não aceitavam a sua condição de submissas e queriam algo mais, pessoalmente e/ou sexualmente, por assim dizer. Pra piorar, vem o nome da cidade onde essas mulheres desesperadas moram: Wisteria Lane. Histeria Lane? Mesmo em inglês, os nomes se parecem. Talvez, poderíamos dizer: mulheres desesperadas que vivem em histeria? Um pouco de impressões ruins para quem pensa em ver a série.

Na verdade, o título da série tem a intenção de subverter os estereótipos femininos, por justamente contrapor donas de casa com desespero. Donas de casa não costumam ser mulheres desesperadas. Além disso, a condição de dona de casa é uma reivindicação do pós-feminismo (que possui muitas variantes na sua definição, mas poderíamos simplificar como uma postura que tenta desconstruir e/ou desestabilizar o gênero enquanto categoria fixa e imutável), ou seja, uma opção que não poderia ser deixada de lado no discurso feminista.

O lance é que essas mulheres desesperadas da série são também profissionais de sucesso, mas elas não saem do âmbito doméstico, e suas vidas e conflitos ainda estão focados nas relações que elas têm com os homens. Vamos lá!

Pode-se dizer que é um relato feminino e mistura elementos de drama, comédia, suspense e novela. O que provou o sucesso do público? O realismo mostrado, a capacidade de responder algumas contradições das mulheres atuais, seu tratamento irônico e humorístico.

Além disso, é no mencionado pós-feminismo que surgem narrações relacionadas com a nova realidade de algumas mulheres. É nesse momento, que aparece, por exemplo, um tipo de literatura conhecida como chicklit (literatura para garotas, da tradução do inglês), um subgênero de novela romântica, protagonizada geralmente por mulheres entre 20 e 30 anos, urbanas, brancas, heterossexuais, elegantes, trabalhadoras, abertas sexualmente, independentes, mas que sofrem com a ausência de ter alguém, como forma de máxima realização.

Esses são os argumentos referentes em Desperates Housewives. Esse tipo de série, assim como outras, e “Sex and the City” (1998-2004) é um bom exemplo, mostra a amizade entre mulheres e também o amor pelas compras, a fascinação pela moda, suas relações com homens e as dificuldades profissionais.

Desperates Housewives
Sex and the City (Reprodução)

Essas mulheres desesperadas trabalham e são sexualmente livres, têm acesso à propriedade, ou seja, são donas das suas casas e, em geral, do seu dinheiro, mas sofrem as tensões entre o sucesso da vida pública e as renúncias da vida privada. É exatamente essa tensão entre público e privado o que interessa aqui.

Ocupar o espaço público é justamente uma das bandeiras do pós-feminismo e as quatro protagonistas de Desperates Housewives, Bree Van de Kamp (Marcia Cross), Gabrielle Solis (Eva Longoria), Lynette Scavo (Felicity Huffman) e Susan Mayer (Teri Hatcher) representam justamente essas mulheres que já alcançaram um maior domínio do espaço público, especialmente o laboral, antes relegado apenas ao homem. Em Desperate Housewives, Lynette e Susan representam as mulheres que têm êxito profissional; enquanto Bree encarna a dona de casa perfeita e Gabrielle, a caça fortunas que gosta de luxo e riqueza.

Desperates Housewives
Lynette (Felicity Huffman), Bree (Marcia Cross), Gabrielle (Eva Longoria) e Susan (Teri Hatcher). Foto: Snap Stills/REX/Shutterstock (Reprodução)
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A personagem de Lynette, inclusive, supera laboralmente o do marido. Ela têm êxito profissional e ainda cuida de uma numerosa família. Ele ajuda em casa, tem um trabalho médio e fracassa ao tentar ser dono de restaurante. No final das contas, o protagonismo no âmbito profissional é dela e nem tanto dele. Essa subversão de valores sociais não é comum nas representações de mulheres e conta como um fator positivo na série.

Logo, vem Bree, a dona de casa perfeita descobre que um dos seus talentos domésticos, cozinhar, pode ser transformado em um lucrativo negócio e ela transforma-se em uma empresária de sucesso. Outro gancho favorável para a série. O marido e o filho passam a depender do sucesso dela. No entanto, o relato profissional das mulheres desesperadas é doméstico.

As cenas em que vemos as personagens trabalhando são raras. Lynette aparece sempre arrumadinha, com seus terninhos e sua pastinha indo trabalhar. Mas seu entorno laboral não é mostrado com tanta frequência. Em compensação, os cenários onde o marido dela, Tom Scavo (Doug Savant) trabalha, como o restaurante, aparecem na terceira temporada. Já na oitava temporada, Tom contrata Lynette para decorar o escritório dele, de acordo com o que ele chama de “estilo chefe-Donald Trump”, apesar dela achar que a decoração não combina com ele.

Desperates Housewives
Bree e Lynette

Enfim, as mulheres desesperadas falam mais sobre o trabalho do que a espectadora consegue ver representado. É justamente por centrar o relato no âmbito doméstico que os homens são figuras necessárias em Desperate Housewives. Eles são, muitas vezes, responsáveis pelo equilíbrio ou desequilíbrio feminino, por suas insatisfações e expectativas.

Assim, enquanto Susan está solteira e seu desânimo é evidente, no caso de Gabrielle, o companheiro Carlos exige que a mulher se entregue à maternidade. Dessa forma, ainda que as protagonistas das histórias sejam mulheres, o comportamento feminino desenvolve-se a partir dessas expectativas sexuais, românticas, familiares, maternas e econômicas em relação aos homens. Eles também são o principal foco de conflito. Ou seja, apesar de que as mulheres sejam protagonistas da série, o mundo delas é exageradamente limitado ao âmbito doméstico e dependente das figuras masculinas.

Em muitas produções audiovisuais, mulheres disputam homens, e as outras mulheres são vistas como concorrentes. Em Desperate Housewives, a série mostra a amizade entre mulheres, tema que geralmente as produções deixam de lado. Nesse ponto, a série impulsiona a audiência feminina em reconhecer o valor das mulheres poderem contar umas com as outras, dentro e/ou fora de casa.


Fontes:
  1. Fernández Morales, Marta (2009). Illness, Gener and Gender in Contemporary Television Fiction: Representations of female Cancer in Sex and the City and Desperate Housewives. Women´s Studies, 38, 670-691.
  2. Hill, Lisa (2010). Gender and Genre: Situating Desperate Housewives. Journal of Popular Film and Television, 38 (4), 162-169.
  3. Macedo, Ana Gabriela (2006). Pós-feminismo. Estudos Feministas, 14 (3), 813-817.
  4. McRobbie, Angela (2004). Postfeminism and Popular Culture. Feminist Media Studies, 4 (3), 255-264.
  5. Merayo, Mar Chicharro (2013). Representaciones de la mujer en la ficción postfeminista: Ally McBeal, Sex and the City y Desperate Housewives. Papers. Revista de Sociologia, 98 (1), 11-31.

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Apaixonada por tudo relacionado ao cinema e ao audiovisual. Gosta principalmente de ver mulheres fortes e felizes nas telonas e nas telinhas. Por isso, depois de trabalhar muitos anos em televisão, decidiu estudar mais sobre o assunto e fez um doutorado no tema pra ajudar na reflexão do papel da mulher no cinema, e poder dividir opiniões e pensamentos com mais apaixonadas/os como ela.
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