[LIVROS] A Menina: Uma vida à sombra de Roman Polanski (Resenha)
[LIVROS] A Menina: Uma vida à sombra de Roman Polanski (Resenha)

[LIVROS] A Menina: Uma vida à sombra de Roman Polanski (Resenha)

Ainda hoje aclamado por todo o mundo, o diretor polonês Roman Polanski foi acusado, em 1977, de drogar e estuprar a garota de 13 anos Samantha Geimer. 40 anos após o ocorrido, e com o caso ainda em aberto, Samantha resolveu escrever o livro A Menina – Uma Vida À Sombra de Roman Polanski. Nele, ela relata em detalhes o que aconteceu no dia em que foi estuprada. Além disso, descreve todas as humilhações às quais foi submetida não apenas nas mãos do diretor – recentemente acusado de mais um estupro – mas também pela justiça e pela mídia.

É de maneira crua e objetiva que Geimer faz o relato dos fatos de forma cronológica. Ainda assim, não deixa de explicitar o modo como estava se sentindo ou o que estava permeando sua mente durante cada instante de cada acontecimento descrito no livro.

Como ela foi convencida a tirar suas roupas na frente de Polanski, que havia dito que gostaria de fazer um ensaio fotográfico da menina para a revista Vogue. O quão não queria fazer isso, mas tinha medo de não agradar o homem mais velho e prestigiado que estava à sua frente. O pavor de contar tudo para sua família e sofrer inimagináveis consequências. O pânico de ser julgada por ações do passado. 

É quase impossível não identificar nos parágrafos cenários clássicos de relacionamentos abusivos. Episódios alusivos a como nós mulheres somos incitadas a acreditar que temos alguma parcela de culpa após sofrermos abusos. Polanski, um homem famoso e bem sucedido, tendo suas ações atenuadas pela mídia. Samantha, sendo acusada de querer se aproveitar da fama e dinheiro do diretor. Sua mãe, sendo culpada por ter deixado a filha sair sozinha com um homem mais velho. A valorização excessiva das manchetes e do sensacionalismo. Pouca ou quase nenhuma preocupação com a segurança e saúde física e mental de Samantha.

“Se eu tivesse sido esperta ou se tivesse lutado mais, ou se não tivesse bebido o champanhe ou tomado o Quaalude, ou… E assim por diante… Então poderia ter encontrado um jeito de escapar da casa de Nicholson antes que as coisas saíssem do controle. Então, eu não estaria nesta situação – nem Polanski”.

A Menina Samantha Geimer
Roman Polanski (Reprodução)

Samantha também menciona que chegou a duvidar de que havia sido vítima um estupro, de fato. Conta que baseando-se nos poucos noticiários e revistas que tinha visto durante sua vida, pensava que ao lado do estupro vinha sempre a violência extrema e a mutilação. Como não havia sangrado e como Polanski fora “delicado” em seus atos, não conseguiu relacionar seu caso a nenhum outro exposto na época.

Incrivelmente, até hoje persiste na sociedade o mito de que o estuprador é sempre o homem estranho, no beco, à noite, escondido e pronto pra atacar. Quando na verdade, a maioria dos estupros acontece dentro das casas das vítimas, por parentes próximos a elas. O uso de violência psicológica, persuasão e chantagem são tão factuais quanto atitudes fisicamente violentas externas ao estupro em si. Este que, por si só, já é uma violência de proporções descomunais. 

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Geimer vive desde os 13 anos sob a sombra de Polanski – como dito no título do livro. Hoje ela tem uma família e uma vida muito além da violência que sofreu há mais de 40 anos atrás. Apesar disso, ainda permanece sob os holofotes da mídia. A mesma mídia que intensificou seu sofrimento e perpetua até hoje um caso que ela gostaria de ter esquecido. 

“E foi assim. Tive que falar sobre fazer sexo oral, sexo anal, ficar bêbada, ficar atordoada com o Quaalude. Pediram-me que eu descrevesse como ele teve um orgasmo dentro da minha bunda, o sêmen escorrendo para fora, a mulher batendo na porta, eu tentando ir embora… E então ele me levando de volta para o sofá. E, então, tudo de novo.”

Polanski, por sua vez, continua fazendo filmes, sendo premiado e aclamado, como sempre foi, por uma indústria cinematográfica que insiste em ignorar crimes cometidos contra mulheres e minorias. Um ramo que vai contra tudo que a arte deveria disseminar – respeito, liberdade, diversidade, equidade. 

É essencial trazermos à tona, também, o recentemente divulgado caso de estupro cometido pelo diretor. O terceiro registrado até hoje. Uma mulher identificada como Robin acusou Roman de tê-la estuprado quando ela tinha 16 anos de idade. Segundo a mulher, que hoje possui 59 anos, a denúncia foi feita para que Samantha e o mundo soubessem que Samantha Geimer não foi a única menor de idade que Polanski violentou.

A Menina Samantha Geimer
Robin, 59 (Reprodução)

Hoje em dia, mulheres vítimas de abuso continuam sendo culpabilizadas. A história de Samantha Geimer é uma dentre as milhares que ocorrem todos os dias. Polanski – que vive hoje como fugitivo na Europa – é só mais um das centenas de homens ricos e famosos que têm suas ações minimizadas pela sociedade.

E o mais triste de tudo isso, é que a mídia e a justiça estão muito mais interessadas no lucro, nos tabloides e até na punição (ou isenção dela), mas se esquecem do que realmente importa: a situação e proteção física e psicológica da vítima. 


A Menina Samantha Geimer
A Menina. Uma Vida À Sombra de Roman Polanski

Autora: Samantha Geimer

Editora Leya

320 páginas

Este livro foi cedido pela editora para resenha

Onde comprar: Amazon
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Escrito por:

6 Textos

Admiradora de tudo que envolve arte, cultura (especialmente a japonesa) e filosofia. Mãe de dois gatos, feminista e vegetariana. Em seu tempo livre descobre bandas inexploradas, fotografa e tenta desvendar a personalidade MBTI alheia (é INFP, por sinal). Considera The Office o ápice da humanidade.
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