[SÉRIES] Godless: Terra sem Deus e sem sororidade

[SÉRIES] Godless: Terra sem Deus e sem sororidade

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Uma série de faroeste ambientada em uma cidade habitada apenas por mulheres. Foi com esse chamariz que a plataforma de streaming Netflix anunciou uma de suas últimas produções originais, a minissérie produção Godless.

Dirigida e roteirizada por Scott Frank e dividida em sete capítulos, cada um com mais de uma hora de duração, a história de Godless começou a causar burburinho especialmente entre as futuras espectadoras. Afinal, não é todo dia que temos no horizonte a possibilidade de uma série de ação com personagens femininas que vão além da mocinha que serve de interesse romântico para o cowboy ou que desmaia de susto para causar conflito.

Muitas admiradoras do gênero, que tem nomes do porte de John Ford, Howard Hawks e Sergio Leone entre os seus realizadores, tiveram alguns dias de esperança quando, depois de quase um século com muitas tramas onde as mulheres eram na sua maioria coadjuvantes, Godless se apresentava com um trailer que mostrava um tiroteio de tirar o fôlego e onde a maioria das armas eram empunhadas por mulheres. Eis que chega o dia 22 de novembro e nossos olhos vão ao encontro do primeiro episódio. É aí que começa o engodo.

Para quem foi prometida como uma série sobre uma cidade do velho oeste americano habitada só por mulheres, Godless mostrou pouco interesse pelas atitudes e vozes femininas. Os primeiros três episódios são focados no bando comandado por Frank Griffin (Jeff Daniels) que está em busca de Roy Goode (Jack O’Connell), antes protegido do chefe.

As poucas cenas ambientadas em La Belle, a bendita cidade das mulheres, cujos homens que a habitavam morreram na explosão de uma mina, se resumem aos lamentos de suas viúvas e a lenta construção de uma igreja. Se o roteirista pensou que colocar meia dúzia de mulheres pregando tábuas iria satisfazer o público, sinto informar que ele estava enganado.

Godless

Como faroeste, Godless tem os seus encantos, como as constantes referências às molduras de cena típicas de John Ford e a violência sem rodeios à lá spaghetti western. Mas bom western também há em outros exemplares, como Deadwood (2004- 2006) e Hatfields & McCoys (2012). O problema é tentar conquistar um público que gosta do gênero (sim, mulheres gostam de faroeste!) vendendo a ideia de que vai haver revolução ou, no mínimo, preocupação com a representação feminina.

Não se pode negar que nem tudo é tempo perdido, já que as personagens Mary Agnes (Merrit Weaver, ótima no papel) e Alice Fletcher (Michelle Dockery) possuem diálogos com boas doses de feminismo. Doses pequenas, mas boas. Houve boatos, inclusive, de que os produtores queriam divulgar a série como um produto para “pais e filhas assistirem juntos”.

Nada contra dividir momentos com nossos genitores, mas há por trás de toda essa aparente ternura uma boa dose de machismo. Mulheres precisam do aval ou da companhia masculina para assistir a determinados programas? Só quem já foi a única mulher numa sala de cinema em uma sessão do remake de Bravura Indômita (2010), dos irmãos Coen sabe que a resposta é não, obrigada.

Mais irritante do que ver os homens serem donos da maioria dos diálogos e das cenas é perceber que os estereótipos ainda se fazem presentes. Mary Agnes, por não se enquadrar no que Hollywood e as revistas de moda dizem ser um padrão de beleza, é quem usa figurinos masculinos. Afinal, não se pode esconder belas curvas, dizem os rapazes menos pensativos. A sororidade, palavra que não está em todos os dicionários e que ainda soa estranha em alguns ouvidos, também não dá às caras em Godless, que mantém a ideia de competitividade entre mulheres como algo natural.

Estaríamos mentindo se disséssemos que não gostamos de Godless. O tiroteio final é das cenas mais bonitas que vimos este ano, digno de ser exibido na tela grande, e há belas atuações, em especial Dockery, que nos faz esquecer sua Lady Mary Crawley de Dowtown Abbey.

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Mas não podemos nos calar diante da expectativa que foi criada e não suprida por uma das plataformas de streaming mais populares. Esperar um protagonismo feminino num cenário que sempre foi contado e estrelado por homens e receber apenas um bom western é decepcionante. É como se a espera do trem na cena de abertura de Era Uma Vez no Oeste acabasse sem conflito. Só que, ao contrário de Godless, o mestre Leone promete e cumpre. À bala, que talvez seja o jeito que teremos que fincar nosso pé para conseguir um digno espaço na TV e no cinema.

https://www.youtube.com/watch?v=mMUiRYoc76A


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Autora

Bianca Zasso é jornalista e Especialista em Cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano. Integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS). Atua como pesquisadora e crítica de cinema desde 2009. Integrou durante cinco anos o projeto de extensão Cineclube Unifra. Colabora para os sites Claudemir Pereira, DVD Magazine, Delirium Nerd, Papo de Cinema, Action News e Formiga Elétrica. É apresentadora da série Bia na Toca, realizado pela produtora Toca Audiovisual. Integra o Elviras- Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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