Sarah Forbes Bonetta: a princesa africana da era vitoriana

Sarah Forbes Bonetta: a princesa africana da era vitoriana

Sarah Forbes Bonetta (1843–1880) foi uma princesa africana de origem iorubá, escravizada na infância e posteriormente acolhida pela rainha Vitória.

Em novembro de 1850, uma criança de aproximadamente sete anos foi apresentada à rainha Vitória no Castelo de Windsor. A monarca registrou o encontro em seu diário, descrevendo como o capitão Forbes havia salvado a vida da menina ao pedi-la como presente e destacando sua inteligência e seu domínio do inglês.

A criança havia chegado à Inglaterra a bordo do HMS Bonetta, navio de guerra da Marinha Real Britânica, depois de ter sido oferecida ao capitão Frederick Forbes pelo rei Ghezo, do Daomé, como presente diplomático para a rainha. Segundo o próprio Forbes, a menina seria um presente de um rei africano para a soberana britânica.

A menina havia nascido Omoba Aina, de origem iorubá, na região que hoje corresponde ao sudoeste da Nigéria. Morreria como Sarah Forbes Bonetta Davies, protegida da rainha Vitória, mãe e vítima da tuberculose, aos 37 anos, na ilha da Madeira, em agosto de 1880.

O que aconteceu entre esses dois momentos é uma das histórias mais extraordinárias e desconcertantes da era vitoriana.

Cena da série Victoria com duas personagens, representando a rainha Vitória e Sarah Forbes Bonetta, caminhando de mãos dadas na neve.
Representação da rainha Vitória e de Sarah Forbes Bonetta na série Victoria, que retrata a relação entre a monarca britânica e a jovem africana.

Quem foi Sarah Forbes Bonetta?

Aina tinha cerca de cinco anos quando o exército de Ghezo atacou Oke-Odan, sua aldeia, em 1848. Seus pais foram mortos, e ela foi capturada e escravizada, permanecendo na corte do rei do Daomé por aproximadamente dois anos.

Em 1850, Forbes chegou ao Daomé como emissário britânico, em uma missão diplomática cujo objetivo declarado era convencer Ghezo a abandonar o comércio de pessoas escravizadas. A iniciativa fazia parte dos esforços britânicos de repressão ao tráfico, embora os resultados dessas negociações fossem limitados.

Forbes encontrou uma criança que, segundo seus relatos, corria o risco de ser sacrificada em uma cerimônia ritual. Diante disso, persuadiu Ghezo a entregá-la como presente à rainha britânica e partiu para a Inglaterra com Aina a bordo de seu navio.

Retrato histórico de Sarah Forbes Bonetta usando vestido vitoriano longo, com um chapéu na mão, ao lado de uma mesa com uma pequena escultura.
Sarah Forbes Bonetta, princesa africana de origem iorubá que viveu na Inglaterra vitoriana, em retrato fotográfico de Camille Silvy, no século XIX.

Durante a viagem, a menina demonstrou facilidade para aprender inglês, impressionando aqueles que a acompanhavam. Forbes deu a ela o nome pelo qual ficaria conhecida: Sarah Forbes Bonetta, uma combinação do nome escolhido para a criança, do sobrenome do capitão e do nome do navio.

A relação de Sarah Forbes Bonetta com a rainha Vitória

A rainha Vitória ficou impressionada com a inteligência de Sarah para assumir o financiamento de sua educação e tornar-se sua protetora. A relação também seria descrita posteriormente como próxima, embora sua natureza estivesse inevitavelmente condicionada pelas diferenças de poder e posição social entre as duas.

No contexto da era vitoriana, essa decisão representava tanto um gesto de interesse pessoal quanto uma declaração política sobre a capacidade dos africanos de serem considerados “civilizados” sob tutela britânica, questão atravessada pelas ideias racistas e imperialistas da época.

Pintura da rainha Vitória sentada, usando coroa, vestido branco e vermelho e manto real, com uma coroa sobre a mesa ao lado.
Retrato da rainha Vitória, monarca britânica que assumiu a proteção e o financiamento da educação de Sarah Forbes Bonetta durante a era vitoriana | Crédito: Franz Xaver Winterhalter (1859)

Sarah tornou-se, nos anos seguintes, uma espécie de experimento social em andamento. Suas realizações intelectuais e artísticas eram acompanhadas com uma atenção incomum, precisamente porque cada avanço era interpretado por observadores como evidência a favor ou contra as teorias raciais então em circulação.

Era uma pressão estranha para uma criança carregar. E pouco se sabe sobre o que ela própria pensava a respeito disso.

Os registros preservados, no entanto, descrevem uma menina de inteligência notável. Sarah demonstrava grande habilidade em literatura, música e artes, impressionando seus tutores e as pessoas que a conheciam.

Sua presença também desafiava a condescendência que a sociedade vitoriana costumava reservar tanto às crianças quanto às pessoas negras. A relação com a rainha se manteve ao longo de sua vida, por meio de visitas, correspondências e demonstrações de interesse por sua família.

Vitória a chamava de Sally. Sarah a tratava como madrinha.

Em 1851, aos oito anos, Sarah desenvolveu uma tosse crônica. Acreditando que o clima inglês prejudicava sua saúde, a rainha providenciou sua transferência para uma escola missionária em Serra Leoa.

A mudança, porém, não resolveu o problema. Sarah continuou apresentando sintomas e retornou à Inglaterra cerca de quatro anos depois, aos 12 anos, para dar continuidade à sua educação.

O casamento de Sarah Forbes Bonetta com James Davies

Ainda jovem, Sarah recebeu uma proposta de casamento de James Pinson Labulo Davies, um empresário de origem iorubá, nascido em Serra Leoa, que possuía considerável fortuna e reputação estabelecida na África Ocidental.

Sarah inicialmente recusou.

A rainha, que tinha opiniões firmes sobre a conveniência do casamento, apoiava a união. Sarah foi enviada para Brighton, onde passou a viver sob os cuidados de senhoras mais velhas, em uma situação que lhe causou profundo descontentamento.

Em uma carta, descreveu o lugar como uma espécie de “chiqueiro desolado”. Sua resistência ao casamento também aparece em correspondências nas quais questionava se deveria trocar sua tranquilidade por segurança financeira. Brighton & Hove Museums

Por fim, aceitou a proposta.

O casamento aconteceu em 14 de agosto de 1862, em Brighton, com dez carruagens, dezesseis damas de honra e uma mistura de convidados brancos e africanos que os jornais da época descreveram com um fascínio que dizia tanto sobre suas expectativas quanto sobre a realidade do que estavam presenciando.

Foi um acontecimento social bastante comentado, além de um encontro entre integrantes das elites britânica e africana.

Fotografia histórica de Sarah Forbes Bonetta e James Pinson Labulo Davies, lado a lado, usando trajes formais do século XIX.
Sarah Forbes Bonetta e James Pinson Labulo Davies, fotografados em 1862, ano em que se casaram em Brighton, na Inglaterra. | Crédito: Fotografia atribuída a Camille Silvy

Após o casamento, o casal mudou-se para Serra Leoa e, posteriormente, para Lagos, onde Davies mantinha seus negócios. Sarah também se dedicou ao ensino, uma atividade que revela outro aspecto de sua trajetória, para além da posição social que ocupava.

Em 1863, nasceu sua primeira filha, que recebeu o nome Vitória em homenagem à rainha. A própria monarca tornou-se madrinha da criança e continuou a acompanhar sua vida, oferecendo apoio financeiro e educacional.

Sarah e a filha visitaram a rainha em 1867, em um dos encontros registrados entre elas.

Os últimos anos e a morte de Sarah Forbes Bonetta

A tosse crônica que acompanhava Sarah desde a infância agravou-se com o passar dos anos. A doença, posteriormente identificada como tuberculose, comprometeu progressivamente sua saúde.

Em 1880, Sarah viajou para a ilha da Madeira, na esperança de que o clima mais ameno ajudasse a aliviar os sintomas.

Morreu em 15 de agosto daquele ano, aos 37 anos.

Seu marido ergueu um monumento de granito em sua memória, em uma de suas propriedades próximas a Lagos.

A rainha Vitória também registrou a notícia da morte. Em seu diário, descreveu a tristeza de sua afilhada Victoria Davies, então com 17 anos, ao saber da perda da mãe. A monarca continuaria a apoiar a educação da jovem e a manter contato com ela.

O legado de Sarah Forbes Bonetta na Inglaterra vitoriana

A vida de Sarah Forbes Bonetta foi, dependendo de como a interpretamos, muitas coisas ao mesmo tempo.

Foi o resgate de uma criança que corria risco de morte, mas também seu afastamento do único mundo que conhecia e sua inserção em uma sociedade que a via, antes de tudo, como uma curiosidade.

Foi uma demonstração de interesse e afeto por parte de Vitória, mas também um projeto de “civilização” que utilizava Sarah como prova viva de uma tese sobre raça que ela nunca havia escolhido representar.

Foi uma vida de privilégios reais, em um contexto no qual a maioria dos africanos na Inglaterra não tinha acesso a nada semelhante. Mas também foi uma existência sob observação constante, em um país que não era o seu, com um nome que não era o seu, como protegida de uma instituição – o Império Britânico – que não demonstrava a mesma generosidade com a maior parte dos povos sob seu domínio.

Retrato histórico de Sarah Forbes Bonetta sentada, usando vestido vitoriano claro, com o braço apoiado sobre um móvel e olhando para a câmera.
Sarah Forbes Bonetta, princesa africana de origem iorubá e protegida da rainha Vitória.

O retrato fotográfico de Sarah Forbes Bonetta, feito por Camille Silvy em 1862, no ano de seu casamento, integra hoje o acervo da National Portrait Gallery de Londres.

Mostra uma mulher jovem e serena, bem vestida, com uma expressão que pode suscitar diferentes interpretações. Alguns podem enxergar compostura; outros, distância ou tristeza.

É possível que todas essas leituras estejam certas.

Também é possível que nenhuma delas consiga capturar o que realmente passava pela cabeça de Aina naquele momento. Afinal, embora tenham sobrevivido cartas e registros sobre sua vida, não conhecemos um relato autobiográfico abrangente no qual ela tenha contado sua história com as próprias palavras.

O que pensava quando não estava escrevendo para a rainha? O que sentia sobre a vida que tinha, em comparação com aquela que poderia ter vivido? O que significava ser Sally em Windsor e ter nascido Aina?

Essas perguntas ficaram sem resposta. E provavelmente continuarão assim.

Fontes:

English Heritage — biografia de Sarah Forbes Bonetta

National Portrait Gallery — retrato e história de Aina

Royal Collection Trust — registros históricos de Sarah

Escrito por:

21 Textos

Historiadora formada pela Universidade Federal do Estado do Amazonas (UFAM), tradutora e escritora com um interesse de pesquisa particular em Primeira Guerra Mundial. Autora do livro "A Velha Mentira: poemas da Grande Guerra de Wilfred Owen" publicado pela Caravana Grupo Editorial em 2026.
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