[SÉRIE] “Victoria”: o segundo mais longo reinado da Inglaterra também pertence a uma mulher

[SÉRIE] “Victoria”: o segundo mais longo reinado da Inglaterra também pertence a uma mulher

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“Victoria” é uma série britânica de 2016, transmitida pelo canal ITV. Criada por Daisy Goodwin, narra a história da Rainha Vitória (como é chamada em português) – que até 2015 era a detentora do reinado mais longo da Inglaterra, tendo perdido o posto para a atual monarca, a Rainha Elizabeth II. Assim como “The Crown”, “Victoria” aborda as dificuldades enfrentadas por uma mulher reinando em uma das maiores potências mundiais, bem como os problemas sociais da época.

[NÃO CONTÉM SPOILERS]

A primeira temporada narra os primeiros anos da Era Vitoriana, como é conhecido o reinado de 63 anos da Rainha Vitória (Jenna Coleman), de sua coroação ao nascimento de sua primeira filha, a princesa Vitória. No primeiro episódio, o espectador é apresentado a uma jovem de 18 anos, sobrinha do Rei Guilherme IV e única herdeira real, que, por este motivo, passou a vida sob excessivos e rigorosos cuidados de sua mãe, a Duquesa de Kent (Catherine Flemming), e do controlador da casa, John Conroy (Paul Rhys). Destaque-se aqui que os cuidados com Victoria não eram dotados de amor e zelo, mas do autoritarismo de Conroy, que manipulava a mãe de Victoria, sendo, por vezes, agressivo. Este fato também é retratado no filme “A Jovem Rainha Vitória”, de 2009.

victoria-resenha-11Victoria cresce com desejo de liberdade e controle, o que se mistura, em diversos momentos, a uma impulsividade juvenil. Tais características em nada contribuíram para sua aceitação enquanto rainha, sobretudo quando esta personalidade era pertencente a um indivíduo do sexo feminino. Há cenas em que a própria personagem manifesta o desejo de ser um homem, em função da liberdade concedida a eles e do julgamento concedido às mulheres. A imagem que os membros do parlamento e outros candidatos ao trono traçavam de Victoria era a de que ela fosse uma menina insensata, infantil, louca e movida a flertes. Ainda assim, Victoria traçou seu caminho de forma a construir um reinado inovador, o qual foi responsável pela consolidação da Inglaterra enquanto potência em uma época marcada pela industrialização e pelo imperialismo. Não se entra aqui no mérito dos atos da Inglaterra enquanto Estado, nos benefícios ou malefícios de sua influência externa, mas é importante ressaltar a força de uma rainha – uma mulher – por trás deste cenário.

Como mulher, Victoria enfrentava os mesmos medos que as outras. Por vezes acreditava que não conseguiria encontrar um homem especificamente que a compreendesse e aceitasse, cogitando seguir o caminho da Rainha Elizabeth I, que nunca se casou – o que Victoria via com respeito e admiração. Quando casada, temia que filhos pudessem constituir um empecilho em sua vida, não obstante o medo do parto, algo não tão seguro diante da medicina da época. Tais medos, por óbvio, não se podem comparar aos de mulheres em situações desprovidas dos privilégios da realeza, mas são medos que ainda hoje assolam diversas mulheres.

“Victoria” também mostra aspectos da vida social nas camadas mais pobres do país. Retratam-se os problemas com as doenças ocasionadas pela falta de saneamento, as quais se espalharam pelas localidades mais pobres do país, e os problemas de mulheres neste cenário. Através dos empregados do palácio, a série aborda a dura realidade de mulheres abandonadas grávidas por seus maridos, o risco de seguir as paixões, deixando de lado emprego e salário, e os sacrifícios feitos por muitas mães para sustentar suas famílias. Mais do que apenas demostrar estes problemas, “Victoria” traz diálogos de impacto e reflexão.

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Apesar de todas as reflexões realizadas em sua narrativa, “Victoria” apresenta-se como uma série leve, em que o romance ganha bastante destaque através, inicialmente, do envolvimento de Victoria com o lorde Melbourne (Rufus Sewell) e, posteriormente, do seu casamento com o príncipe Albert (Tom Hughes). O romance, porém, não enfraquece Victoria como rainha ou como mulher. Ao longo de sua trajetória, Victoria deixa claro que não aceitará perder o poder para seu marido ou para qualquer um, seja por se tornar uma esposa ou por se tornar uma mãe. Ao contrário, mantém sua postura de rainha e tenta encontrar meios de conciliar os diferentes âmbitos de sua vida.

“Victoria” é uma ótima opção para quem aprecia séries históricas que não se utilizem de drama, violência ou sensualidade excessiva. É uma série leve, com personagens femininas fortes, as quais ganham destaque na maior parte das cenas.

A série foi renovada para uma segunda temporada e um especial de natal e retornará em 2017.


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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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