[LIVRO] “Uma Chama entre as Cinzas”: A violência social em um fictício império escravocrata

[LIVRO] “Uma Chama entre as Cinzas”: A violência social em um fictício império escravocrata

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Uma Chama Entre As Cinzas” pode parecer apenas mais um romance juvenil entre uma escrava e um membro da elite que, juntos, lutam para acabar com as regras de uma sociedade escravocrata. É, contudo, mais do que aparenta. Sabaa Tahir desenvolve em sua narrativa uma mitologia interessante, que une guerras, escravidão, romance e forças sobrenaturais, além de abordar tem de relevância social, como o estupro.

A história é intercalada em capítulos narrados por Laia, uma escrava, e por Elias, um soldado. Ela é uma Erudita – povo escravizado pelo Império Marcial – que vê seus avós morrerem e seu irmão ser preso pelas mesmas pessoas que um dia lhe retiraram os pais e a irmã mais velha. Embora consiga fugir do ataque, Laia é perseguida pela culpa de não ter lutado para salvar o único parente que lhe restava. Assim, busca ajuda na Resistência, e, em troca da promessa de libertação de seu irmão Laia se faz passar por escrava para descobrir os segredos de uma importante e cruel comandante, colocando sua vida em risco.

No início, fui levada a crer que Laia seria apenas mais uma protagonista que chora o livro inteiro pelas suas covardias, que acredita cegamente em qualquer um que lhe prometa exatamente aquilo que ela queira e que comete inúmeros erros tolos ao longo da história. De fato, ela mencionou em quase todos os capítulos a sua covardia e o arrependimento de não ter ficado e lutado, bem como o quão diferente de sua mãe ela era justamente por não ter coragem suficiente para lutar. Em alguns momentos, admito, isto me irritou. No entanto, Laia passou longe de ser a protagonista fraca que imaginei. Pelo contrário, foi destemida e inteligente em várias ocasiões, crescendo conforme a história se desenvolvia, independentemente das terríveis situações pelas quais passou.

Elias, por sua vez, é um Máscara, ou seja, um Marcial treinado para matar. Contudo, seus anos entre os Tribais – povo que fez acordo com os Marciais e que, por isso, não é tão massacrado quanto os Eruditos – não saem de sua memória, assim como o abandono de sua mãe, a Comandante Veturius, para quem Laia trabalha. Por mais que os anos passem, a Máscara que ganhou depois de anos de treinamento não adere em sua face. Elias entendia que mesmo quem fazia parte do Império era escravo de suas brutalidades. A sua formatura parece a ocasião perfeita para seu plano de fuga, mas o destino às vezes reserva algo muito diferente.

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“- Existem dois tipos de culpa – digo em voz baixa. – Aquele que é um fardo e aquele que lhe dá um propósito. Deixe que a culpa seja o seu combustível. Deixe que ela te lembre de que você quer ser. Trace uma linha em sua mente e nunca mais a ultrapasse. Você tem uma alma. Ela foi ferida, mas está aí. Não deixe que tirem isso de você, Elias.”

O fato de que a força a ser combatida não se restringe ao Império Marcial, mas a uma força mais poderosa que está conduzindo uma guerra, é bastante interessante e bem desenvolvido. O questionamento sobre as crueldades cometidas a um povo diferente, obviamente, é recorrente. Porém, o que mais gostei foi a forma como os relacionamentos foram descritos em meio a isto.

Em uma cena, por exemplo, a autora coloca em dúvida a existência da bondade mesmo no opressor, opondo Elias a uma amiga Marcial. De tão focado, em sua vontade de libertação, Elias não enxergava que também havia bondade em algum de seus companheiros. E isto nos faz questionar: seriam todos cruéis? E mesmo havendo bondade, deveria ela amenizar a culpa deles, se nada faziam contra o regime?

Sabaa Tahir
Sabaa Tahir

Entre os relacionamentos e posicionamentos descritos por Sabaa, os mais destacados são os femininos. A autora retrata os personagens do gênero sob diferentes perspectivas, desde relacionamentos amorosos entre pessoas de um mesmo povo ou de povos diferentes, até a amizade entre duas mulheres, aprofundando na questão da violência contra a mulher. Sabaa não tem medo de colocar em evidência o tema do estupro, bastante recorrente na história e inserido nas diversas esferas da sociedade recriada. Não é, contudo, um tema abordado de maneira extremamente pesada, nem como mero entretenimento. A abordagem realizada foi pertinente ao enredo, pois presente na sociedade, sobretudo quando falamos de regimes escravocratas e opressores em que seres humanos são tratados como objetos. E tal como na realidade, Sabaa Tahir relaciona estupro com ideia de poder, com humilhação, destacando que a medida não é tomada somente contra as escravas, mas também contra as mulheres do Império.  Não somente a prática é discutida, mas também as suas consequências, seja na escrava objetificada que corre o risco de ser estuprada diariamente, na Máscara que é ameaçada de estupro por seus colegas de treinamento, e até na mulher que talvez tenha sido estuprada e que tenha gerado um filho que jamais desejou. É impossível não desenvolver empatia por cada uma dessas personagens.

O livro possui uma continuação intitulada “A Torch Against The Night”, ainda não lançada. Recomendo-o não somente pelo enredo instigante, repleto de ação e mistérios, mas também pela abordagem realizada pela autora, que não romantiza, em sua escrita, a escravidão e a guerra, tampouco utilizando-as como elementos acessórios a um romance juvenil.


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Uma Chama entre as Cinzas

Sabaa Tahir

Verus Editora

Lançamento: 2015

432 páginas

Compre aqui: Amazon

 


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Autora

135 Posts

Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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