[6° OLHAR DE CINEMA] Vangelo e Newton: Filme italiano e indiano inauguram a mostra competitiva de longa-metragem do Festival (crítica)

[6° OLHAR DE CINEMA] Vangelo e Newton: Filme italiano e indiano inauguram a mostra competitiva de longa-metragem do Festival (crítica)

A mostra competitiva de longa-metragem do 6° Olhar de Cinema em Curitiba começa bem morna. O primeiro filme da noite foi o italiano Vangelo, dirigido pelo veterano Pippo Delbono. Apoiado em sua peça teatral de mesmo nome, que surge inspirada num último pedido de sua mãe no leito de morte, Delbono pretende fazer uma releitura crítica do Evangelho Cristão a partir de seu encontro com um grupo de refugiados.

Vangelo

O documentário, narrado pelo próprio diretor em primeira pessoa, pretende dramatizar uma encenação bíblica onde os atores seriam esses homens migrantes, subvertendo a narrativa religiosa ao deslocar culturalmente aqueles que estão ilegalmente na Itália, uma vez que os pedidos de permanência no país de muitos deles foram negados.

Vangelo
Cena de Vangelo (Reprodução)

A opção estético-politica que aparentemente soa interessante e engajada é completamente esvaziada pelo egocentrismo do diretor que não abdica do protagonismo na tela. Com uma câmera na mão que exotiza os corpos e as experiências dos refugiados, a proposta do filme fica ao longo dos seus 85 minutos na iminência de nos fazer ter acesso à narrativa daquelas pessoas sem contudo alcançar êxito.

O roteiro é tão maniqueísta e histriônico que soa incômodo. Em uma cena totalmente deslocada vemos o diretor despir um dos refugiados de forma extremamente objetificada que nada contribui ou se mostra relevante a não ser para o prazer claramente fetichista de Delbono. O olhar dos personagens denota total alheamento à proposta do filme que fala muito mais de como esse regente italiano vê aquele grupo de refugiados do que de fato colocá-los no centro da narrativa.

Naquilo que a brasileira Eliane Caffé teve total êxito com “Era o Hotel Cambridge” (2016), Delbono, infelizmente, perdeu uma grande oportunidade de trazer algo realmente relevante em termos documentais sobre a situação atual dos refugiados na Europa, preferindo insistir numa proposta formalmente jocosa, disfuncional e preconceituosa.

Newton

Newton
Cena de Newton (Reprodução)

Em contrapartida, Newton, do indiano Amit V Masurkar, exibido na sequência, é uma sátira política que entretém, diverte e nos faz refletir. O filme é protagonizado pelo funcionário público Newton (Rajkummar Rao), que é desenhado como exemplo de profissional padrão que se gaba pela pontualidade e dedicação nos afazeres rotineiros.

Uma cena de abertura rocambolesca acompanha Newton à insólita tarefa de conhecer sua noiva, fruto de um casamento arranjado pelos pais numa cultura ainda bastante misógina que retira qualquer autonomia das mulheres. Questionador e de ideologia libertária, Newton rende alguns diálogos clichês mas relevantes com seus pais sobre a condição da noiva que além de não poder ter estudado é menor de idade.

Ultrapassado esse primeiro momento que faz uma crítica aos costumes indianos, Newton é convocado para a difícil tarefa de levar a urna eletrônica das eleições presidenciais para uma região fronteiriça do interior do país dominada por um exército guerrilheiro maoista. Lá esbarra com um general fanfarrão que não está muito disposto a correr riscos para que meia dúzia de pessoas de povoados isolados exerçam seu direito cívico. A atmosfera narrativa do filme referencia ao consagrado “Pantaleão e as visitadoras” (2000), dirigido pelo peruano Francisco J. Lombardi, que através do lúdico cria situações de surrealismo cômico para criticar a política e a organização de seu país.

A trilha sonora é grandiloquente e destoa da narrativa jocosa do filme soando em leve descompasso. Apesar de funcionar como uma espécie de Analista de Bagé indiano, Newton vai criando situações cada vez mais inusitadas para conseguir cumprir sua tarefa relacionada às eleições presidenciais descambando num desfecho delirante mas que, de certa forma, é condizente com o modo de pensamento de povos que foram colonizados. Nem sempre é fácil achar o tom certo de uma comédia que se pretende política, mas sem grandes arroubos, pode-se dizer que Newton cumpre de forma regular ao que se propõe.

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Autora:

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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