Distortions: uma jornada sobre superar o passado e seguir em frente

Distortions: uma jornada sobre superar o passado e seguir em frente

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Se ainda não conhece Distortions, agora você terá boas razões para corrigir este erro imediatamente. A primeira delas é que este belíssimo jogo de aventura é brasileiro! Colecionando prêmios por onde passa, foi produzido pelo estúdio Among Giants e lançado em março deste ano exclusivamente para PC, após longos 9 anos em desenvolvimento.

Com uma história envolvente e cativante sobre enfrentar lembranças dolorosas, superar o passado e tocar a vida adiante, em 15 horas de jogo Distortions mostra que vale cada dia de trabalho de seus desenvolvedores e, pode acreditar, é uma obra que merece a sua atenção!

Distortions

Em Distortions você controla uma personagem conhecida apenas como Garota, que acaba de despertar em um mundo completamente estranho. De início não há muitas pistas e sua missão é resgatar as lembranças da protagonista para entender o que está acontecendo e escapar deste lugar surreal. Para alcançar seu objetivo, Garota conta com a ajuda de um jovem mascarado – que dá dicas sobre o que fazer agora que está desperta – de um diário onde há fragmentos sobre o passado e os acontecimentos que a levaram até este mundo, e de um violino, sua única arma. E você precisará aprender a tocar belas melodias que podem protegê-la, ajudá-la a superar obstáculos ou defender-se de inimigos.

Distortions

A princípio você vai lembrar de Guitar Hero, mas com um pouco mais de intimidade perceberá que a mecânica musical de Distortions se aproxima muito mais de The Legend of Zelda: Ocarina of Time. Além de ser muito legal, tocar seu violino permite criar barreiras, pontes para atravessar lugares (antes intransponíveis), passar despercebida pelos inimigos ou iluminar lugares com focos de luz. E é claro, defender-se de sombras que a perseguirão até a morte.

Enquanto explora este mundo distorcido você encontrará partituras que ensinarão suas novas habilidades, mas com o tempo perceberá que há muitas formas de passar por uma mesma situação e é você quem escolhe qual a melhor, o que torna Distortions uma experiência única para cada jogadora.

Distortions

Se Distortions é bom em mostrar que quem está no controle é a jogadora, é igualmente perspicaz em mesclar diferentes mecânicas em seu gameplay. Em um momento você está explorando um incrível mundo aberto às costas da Garota, quando é levado para uma sequência quase claustrofóbica em primeira pessoa, ou uma alucinante corrida em sidescroller ao melhor estilo Limbo.

Distortions garante muita tensão ao unir fugas com a execução de um pulo certeiro, ou uma breve pausa para defender-se tocando uma música antes de seguir adiante, mas também proporciona momentos para dar aquela respirada com alguns puzzles. E muitos fazem até a mais exímia jogadora passar um bom tempo tentando descobrir como prosseguir. Algo a se destacar é que esta escolha dos desenvolvedores teria tudo pra ser uma completa bagunça, mas a transição entre as diversas mecânicas é relativamente tranquila (considerando um mundo completamente distorcido e em colapso, é claro).

Distortions

Os gráficos são lindos, principalmente os que proporcionam uma visão panorâmica dos cenários. Alguns parecem quadros pintados à mão e a Among Giants merece muitos elogios pelo cuidado com cada detalhe. E são muitos! A começar pelo céu, que esconde entre suas nuvens o que parece ser o teto de um quarto de hospital, denunciando parte da narrativa, tudo remete a um ambiente onírico. Detalhes particularmente comuns ou familiares para a protagonista, mas ao mesmo tempo totalmente sem sentido, literalmente lembram aquele tipo de sonho que nos deixam curiosas e talvez um pouco angustiadas.

A floresta e o mar infinitos, com as montanhas ao fundo, são de tirar o fôlego. Lembram muito Shadow of the Colossus, até pela grandiosidade, e passam uma sensação de segurança para um ambiente que insinua a todo instante que irá desmoronar ou desvanecer. E em alguns momentos parece mesmo que tudo vai entrar em colapso, o que é bem confuso no início, mas que torna-se mais fácil ao longo do jogo. E o balanço perfeito entre luz e sombra dialoga muito bem com a ambivalência entre bem e mal, ou segurança e perigo, e costura de forma única a jogabilidade e a narrativa.

Distortions

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A trilha e os efeitos sonoros, como não poderia deixar de ser em um jogo que usa música como temática, são estonteantes. A cadência, o ritmo e até o gênero musical refletem as emoções da protagonista e conseguem colocar na mesma sintonia quem está jogando. Com toques delicados em um momento de recordação, Distortions torna-se quase que apenas contemplativo, e sequências de perigo ou fuga são denunciados com ruídos e ritmos mais frenéticos, que deixam qualquer jogadora apreensiva e pronta para o pior. A partir de certo ponto é possível tocar mais livremente e, acredite, vai dar muita vontade de aprender a tocar violino quando terminar o jogo!

Distortions

Bom, se ainda faltam motivos para dar uma chance a Distortions, conheça a protagonista: linda visualmente, a Garota traz vários detalhes pensados para complementar a narrativa, como a capa de chuva, por exemplo, ou a forma graciosa como ela interage com o mundo. Parece que tudo denuncia o cuidado da equipe em retratar uma personagem realista, frágil e perseverante na medida certa, e com uma representação coerente com o contexto e a situação, que é bastante delicada.

Fica relativamente fácil se reconhecer em uma personagem tão carismática, mas é a sua garra para desbravar este mundo de sonhos distorcidos em busca de respostas e de uma saída que torna tudo ainda mais inspirador. Parece que a qualquer momento ela vai sucumbir, te fazendo morrer e recomeçar, mas a Garota surpreende e arruma força, sabe-se lá de onde, para continuar a vasculhar memórias.

Distortions

E a protagonista de Distortions também traz algumas lições que você pode levar para a vida, e não são apenas sobre romances. A Garota mostra que é preciso deixar ir tudo aquilo que não te serve mais, que te faz mal e machuca de alguma forma, para seguir em frente. Às vezes as coisas simplesmente não dão certo, por vários motivos, inclusive porque os outros podem ter suas próprias razões para não continuar a jornada ao seu lado… mas que você precisa continuar a sua jornada, por VOCÊ.

Um detalhe muito legal e que particularmente resume a moral da história de Distortions é não saber exatamente porquê o mundo distorcido existe, mas ter a certeza de que é preciso sair dali. Basicamente, não importa o que aconteceu com você, mas o que você faz com aquilo que aconteceu com você! Então, aceite que o fim de um ciclo pode ser libertador e não se agarre às lembranças distorcidas de acontecimentos ruins; enfrente-as, transforme-as em coisas positivas (se possível), e siga em frente sempre!

Distortions

Bom, não poderíamos encerrar sem apontar alguns problemas. Depois de passar tanto tempo em desenvolvimento certas coisas chegam a ser bastante irritantes, como muitos bugs que impedem o progresso do game. São paredes invisíveis a sua frente, aquele pulo que nunca dá certo (e não por falta de competência), e algumas falhas abruptas que te fazem questionar o que está acontecendo com o universo. Mas o conjunto da obra é muito superior a qualquer problema que a jogadora venha a ter – sem falar que a equipe da Among Giants é sempre muito solícita e disposta a melhorar o jogo.

E a prova disso é que Distortions foi eleito Melhor Jogo Brasileiro e Melhor Jogo Popular pelo BIG Festival 2017, Best of #BGS10 pelo GameSpot, Melhor Jogo Brasileiro e Melhor Jogo Independente pelo Brazil Game Award, Melhor Tecnologia pelo SBGames e Melhor Jogo pelo Spcine, além de ter sido indicado em outras premiações. Então dê uma chance a essa ótima história e à indústria de games nacionais, e conheça a obra de arte que é Distortions!


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No momento gamer casual. Em tempo (quase) integral Comunicadora, Relações Públicas e Pesquisadora. Pisciana e sonhadora, meio louca dos signos, meio louca dos gatos. Fã de tecnologia, games, e-sports e outras nerdices.
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