Começo este texto abrindo meu coração logo de cara: não lembro de já ter me sentido tão vulnerável como espectadora quanto na noite em que assisti Hamnet pela primeira vez.
Como grande admiradora de Shakespeare, fui surpreendida por algo profundamente desarmador ao enxergar um lado mais frágil não apenas do bardo, mas também das pessoas que orbitavam sua vida em seus anos áureos.
Esse deslocamento de olhar me permitiu sair da reverência distante de todos os dias e me aproximar, enfim, da dimensão humana de quem passou a vida ao lado do meu autor favorito.
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É importante ressaltar que não existem registros históricos suficientes para comprovar uma narrativa precisa sobre a convivência e os hábitos da família de Anne Hathaway e William Shakespeare.
No entanto, é justamente nessas lacunas que as palavras de Maggie O’Farrell e a direção de Chloé Zhao se apoiam para dar vida a uma das histórias mais fortes que meus olhos já choraram.
Aviso: este texto contém spoilers
A narrativa emociona entre fatos e silêncios históricos
Hamnet (Jacobi Jupe) teve uma trajetória triste, porém bela. Um garoto doce, inteligente e gentil, profundamente apegado à família e cheio de planos para o futuro, que, por um acaso do destino, teve como pai um dos maiores escritores de todos os tempos.
No entanto, deixando de lado a grandiosidade pública de seu genitor, foi com sua mãe, Agnes (Jessie Buckley), popularmente conhecida como Anne, que passou os dias de sua breve infância — e foi ela quem o viu morrer durante a epidemia de peste bubônica que assolou a Inglaterra no século XVI.

Apesar de inegavelmente apaixonados, o casal atravessa uma crise quando o escritor precisa dividir sua vida entre Stratford-upon-Avon — cidade onde vivia sua família — e Londres, onde construiu sua carreira de sucesso.
Agnes, embora apoie a busca do marido por reconhecimento, recusa-se a mudar para a capital britânica, temendo pela saúde de Judith (Olivia Lynes), sua filha mais nova e irmã gêmea de Hamnet.
Como consequência, William (Paul Mescal) decide comprar uma casa maior em Stratford, para que a esposa e os filhos vivam com conforto, próximos do lugar onde ele passaria a maior parte de seus dias.
Durante uma das temporadas do marido em Londres, Agnes precisa lidar com a saúde debilitada de Judith, em meio à crise de peste bubônica na Europa.
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Hamnet, temendo pela vida da irmã, tenta “enganar a morte”, deitando-se ao lado da enferma e respirando o ar que sai de seus pulmões. Na manhã seguinte, Judith desperta razoavelmente bem, mas encontra o irmão já sem vida ao seu lado.
A história que se segue após a morte de Hamnet acompanha as diferentes batalhas internas de Agnes e William para lidar com o luto de perder um filho de maneira tão inesperada e dolorosa.
Enquanto Shakespeare segue sua vida como escritor e dramaturgo em Londres, carregando silenciosamente o peso da perda, Agnes precisa enfrentar a vida cotidiana de mãe e dona de casa, encarando dia após dia a ausência de seu tão amado filho.
O luto materno se torna o personagem principal
É na figura de Agnes que o luto encontra sua expressão mais profunda.
Após a morte do filho, é por meio dela que o filme revela o impacto devastador de uma perda que não pode ser plenamente explicada.
Diferente de seu marido, que se refugia na distância e no trabalho em Londres, Agnes permanece em Stratford, cercada pelos vestígios da vida que existia antes da tragédia.
A casa, o jardim, a rotina e até os caminhos na floresta passam a carregar o peso de uma ausência que dói na alma.

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A obra acompanha esse processo com tanta delicadeza, mostrando como o luto de Agnes se infiltra em sua rotina e transforma sua relação com o mundo, de forma que é impossível não sentir ao menos um pouco de sua dor.
Há momentos em que o sofrimento parece paralisá-la, como se o tempo tivesse se rompido no instante da perda. O que mais me impressionou foi a maneira como o silêncio e o vazio fazem tanto barulho quanto as falas acaloradas de uma personagem perdida na própria angústia.
Em meio a esse processo sofrido, a solidão de Agnes se torna ainda mais dolorosa pela ausência do marido, que escolhe se afastar justamente quando a dor exige proximidade.
Enquanto ela permanece em Stratford enfrentando diariamente os espaços que carregam a memória do filho, ele se refugia em Londres, afundado em seu trabalho.
Diferentemente da esposa, que precisa enfrentar a falta do filho cara a cara todos os dias, ele age como se a distância pudesse silenciar o sofrimento.
Essa escolha cria entre os dois um vazio que ultrapassa a perda e gera um sentimento de abandono na mulher, justamente no momento em que mais precisava de apoio.
O luto, então, acaba se tornando ainda mais pesado quando ela não encontra acolhimento com quem deveria compartilhá-lo.
Shakespeare redimiu sua ausência com sua arte
Enquanto atravessava essa torrente de dor sozinha, Agnes descobre por meio de um panfleto de divulgação que seu marido estreava uma peça com o nome de seu falecido filho.
Aquela foi a gota d’água que faltava para que sua frustração transbordasse, e ela finalmente se dirigisse a Londres para despejar toda a sua raiva no homem que deveria permanecer ao seu lado e compartilhar sua dor.
Porém, o que encontrou ao chegar ao The Globe (teatro construído pela companhia de Shakespeare) fugiu completamente do esperado.

Diferente do autor e dramaturgo de sempre, quem estava por trás da criação de “Hamlet” era um pai enlutado que queria honrar a efêmera vida de seu filho.
Agnes, ao se deparar com um ator que apresentava os traços físicos e de personalidade de Hamnet e ao ver o próprio marido dizendo àquele ator as palavras que gostaria de ter falado para seu filho, deixou-se desarmar pelo momento.
A personagem não precisou de nenhuma fala para que entendêssemos o turbilhão de sentimentos que a dominou ao ser hipnotizada pela peça a que assistia.
Preciso ser honesta: eu esperava assistir a um filme dramático, mas não esperava ser tão profundamente atravessada por ele a ponto de continuar pensando nessa obra por semanas.
Falar sobre essa produção é falar sobre sentimentos, sobre família, sobre luto e sobre as estradas tortuosas da compreensão de nós mesmos e do outro.
Quando penso em tudo o que Agnes e William sentiram, e em seus modos tão diferentes de reagir diante de tamanha tristeza, não enxergo duas personalidades distantes; vejo algo muito mais familiar. Vejo todos nós. Porque, como seres humanos que somos, estamos inevitavelmente suscetíveis à dor, à confusão e às tentativas imperfeitas de continuar vivendo depois que algo em nós se quebra.
E é justamente nesse espaço entre a culpa, o amor e a incapacidade de dizer exatamente o que sentimos, que a história encontra sua força mais devastadora e, ao mesmo tempo, mais humana. É no silêncio que nosso interior ganha voz.


