Top of the Lake: o retrato do machismo e a violência contra a mulher

Top of the Lake: o retrato do machismo e a violência contra a mulher

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Top of the Lake é uma série da BBC co-produzida por Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia e sua única temporada foi ao ar em 2013. Trata-se de uma série de drama/mistério criada e dirigida pela neozelandesa Jane Campion, mais conhecida pelo seu filme de maior sucesso “O Piano” de 1993, filme que deu a ela à Palma de Ouro no Festival de Cannes.

“O Piano” também foi indicado ao BAFTA, Globo de Ouro e ao Oscar, que deu a Anna Paquin (na época com 11 anos) o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, se tornando a segunda atriz mais jovem a receber a estatueta, ficando atrás apenas da atriz Tatum O’Neal que recebeu o prêmio quando tinha somente 10 anos de idade. A série também foi criada por Gerard Lee, que também dirige a série com Garth Davis.

A história segue a detetive Robin Griffin (Elisabeth Moss), uma policial de Sydney (Austrália) que retorna à sua terra natal Laketop na Nova Zelândia por causa do agravamento da doença de sua mãe e passa a investigar o desaparecimento de uma menina de 12 anos que está grávida.

CONTÉM SPOILERS

Logo após a sua chegada na cidade, Robin é chamada pela polícia local para conversar com Tui (Jacqueline Joe), que está grávida, mas não diz uma só palavra. Robin tenta convencê-la a falar, mas não consegue. A série segue a linha investigativa do caso. Robin é diretamente afetada por ele, já que estamos falando da gravidez de uma criança de 12 anos que não fala nada sobre o que aconteceu, está traumatizada e não sabe lidar com a situação.

Robin sabe que é um caso de estupro e isso mexe com ela, no começo da série não sabemos bem porquê, claro, um caso desses mexe com todos, principalmente com uma mulher, é uma violação e vemos tantos casos entre pessoas próximas ou não que nos chocam, porém no caso de Robin isso é bem pessoal, já que foi estuprada com 16 anos de idade, engravidou e teve a criança, porque sua mãe não permitia o aborto devido a religião e ela acabou escolhendo dar a criança.

ROBIN
Robin Griffin

Não só vemos na série o impacto que uma investigação de estupro feita por uma mulher que sofreu da mesma violência tem, mas também o tratamento que os policiais dão para o fato. Robin é a única mulher cuidando diretamente do caso, os pedidos que ela faz e a avaliação dela é sempre questionada ou simplesmente zombam do julgamento dela.

O chefe da delegacia, Al Parker (David Wenham), é aquele tipo de cara que pela forma como ele olha para Robin você sabe que ele não tá dando muito crédito ao que ela está falando. Ele é claramente machista, já que pra ele Robin é mais levada pela emoção, devido a história dela e não por sua competência profissional.

Tui é filha de Matt Mitcham (Peter Mullan), um cara com muita influência na cidade e traficante de drogas. Todos na cidade sabem de suas atividades nada legais, porém ninguém denuncia já que a comunidade também depende dele financeiramente. A polícia finge que não vê o que acontece, um típico caso de acordo entre ambas as partes onde os dois lados ganham com isso.

Quando Tui foge ela vai parar no acampamento Paradise, local onde moram várias mulheres em trailers lideradas por GJ (Holly Hunter), uma espécie de líder espiritual, terapeuta, algo do tipo. Todas essas mulheres passaram por alguma decepção, trauma, desgaste emocional e ali todas tentam se ajudar como podem. Esse espaço antes pertencia a Matt e ele não gosta de saber que Paradise foi vendido para elas. Robin reencontra seu ex-namorado nesse retorno, Johnno Mitcham (Tom Wright), filho de Matt, mas que renega o pai por não suportar o ambiente que ele vive.

Laketop não é a melhor cidade para uma mulher viver, já que não só machismo, mas a misoginia também está muito enraizada ali, percebemos isso quando Robin descobre através de outro investigador que uma jovem morreu um pouco antes e foi encontrado na vagina dela traços de cocaína, porém foi dado ao caso pouca importância e encerraram concluindo que a garota havia se suicidado.

A polícia sabia que os envolvidos no crime são ligados à Matt e eles não se metem com ele, afinal tem um acordo de camaradagem aí, né? Mas isso também mostra a realidade de como crimes contra mulheres são em suma maioria tratados como casos de pouca importância e acabam jogando a culpa do acontecido sobre ela: “tava de saia curta”, “quem mandou sair sozinha” e por aí vai.

Um ponto interessante na série pra mim é não mostrar a cena de estupro da Robin, nem mulheres mutiladas, já se tornou tão comum vermos em filmes, séries, novelas a exploração disso. Não precisamos ver a cena pra saber como aquele fato impactou a vida da Robin, ao longo da série nós vamos percebendo isso e é suficiente pra sentirmos o tamanho do sofrimento dela.

Outro ponto que gostei bastante foi que Tui não é apresentada como uma menina fragilizada com o que aconteceu à ela, muito pelo contrário, vemos uma jovem garotinha de 12 anos forte como uma leoa, que faz o que pode para se proteger e fugir das garras do violento pai dela, mas em outros momentos ela é somente uma menina de 12 anos de idade que quer estar com os amigos e se divertir.

TUI FORTE

Diante de tantos casos expostos na mídia atualmente, mas não só por causa deles, “Top of the lake” é uma série que toca na ferida; não é de meias palavras e nem rodeios. Com um elenco muito bem composto, imagens de tirar o fôlego das paisagens naturais da Nova Zelândia, roteiro intrigante e direção de excelente qualidade. 

A série está disponível na Netflix com uma temporada e a segunda já está sendo produzida e tem previsão para estrear em 2017.


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Autora

Formada em Rádio e TV, maratonista e viciada em séries, eterna amante de um bom filme, escreve desde quando só conseguia usar desenhos para contar suas histórias, apaixonada por “Titanic” e uma quase bailarina que aprendeu muita coreografia em clipe da MTV. Sonha em morar no Canadá, escrever um livro, ter filhos, ser doula e conseguir colocar suas séries em dia.
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