[LIVRO] “The Kiss of Deception”: A força feminina na ficção

[LIVRO] “The Kiss of Deception”: A força feminina na ficção

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“The Kiss of Deception”, livro escrito pela autora Mary E. Pearson e publicado este ano no Brasil pela editora Darkside, prometia uma história diferente, um romance equiparável aos de Jane Austen com foco na força feminina. O exemplar era lindo, e o enredo prometido era atraente, o que me levou a comprar o livro. Não posso dizer que atingiu todas as expectativas, pois elas eram altas. O livro foca mais no romance do que na promessa de destaque da força feminina. Todavia, não deixa completamente a desejar, pois apresenta personagens femininas fortes e obstinadas e, mais do que isso, descreve a força nas relações entre diferentes mulheres. O romance de Mary E. Pearson, assim, apresenta pontos relevantes, ainda que não seja um divisor de águas na literatura.

Lia – nascida Arabella Celestine Idris Jezelia – é a primeira filha – mulheres agraciadas com o dom da previsão – real do Reino de Morrighan. Embora seus irmãos tenham tido o direito de escolher suas parceiras, esta opção foi retirada de Lia, a qual se tornou objeto do – rei – seu pai – ao ser prometida em casamento ao jovem príncipe de Dalbreck, reino vizinho com o qual estavam em conflito. Lia não conhece seu noivo e se ressente por ele sequer querer conhecê-la antes da grande data. Desse modo, não consegue se encantar com a perspectiva do seu futuro por mais que todos tentem lhe convencer de que ela viverá um conto de fadas. Para não comprometer seus planos, participa de todos os ritos pré-nupciais, deixa que lhe marquem com um kavah (uma pintura corporal temporária) e que profiram as palavras sagradas. Desse modo, ninguém desconfiará de sua pretensão: fugir com sua amiga e criada, Pauline, para a cidade próxima de Terravin, onde poderá viver livremente. Ela não sabe, porém, que há coisas que não desaparecem com a distância. Assim como o lindíssimo kavah está preso a ela, também o estão seu nome, seu título e seu destino.

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Já em Terravin, Lia e Pauline são amparadas por outras mulheres e passam a trabalhar em uma taverna. No estabelecimento, conhecem dois rapazes: Rafe, um fazendeiro, e Kaden, um comerciante. Lia não desconfia, mas um deles é o príncipe covarde a quem fora prometida e o outro é o assassino de Venda – um reino distante – encarregado de matá-la. O dom que deveria ter não é suficiente para evitar que ela se apaixone, nem que caia em uma perigosa armadilha que selará uma jornada prevista nos livros sagrados.

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O livro é narrado em sua maior parte por Lia, mas também temos capítulos do assassino, do príncipe, de Kaden, de Rafe e um de Pauline. Inicialmente parece que a intenção da autora era realmente a de ocultar qual dos dois rapazes desempenhava cada papel, de modo que o leitor descobre apenas no decorrer da história. Gostei bastante deste jogo com os personagens, pois ninguém é nada do que se espera, e assim, é possível simpatizar com cada um e surpreender-se com o papel de cada.

A história é repleta de mistérios, envolvendo a mitologia criada pela autora. Muito mais ainda há de ser respondido e desenvolvido neste ponto, pois era apenas o primeiro livro de uma trilogia. Ainda, há bastante aventura, embora mais para a parte final do livro, pois muito tempo é passado na tranquilidade de Terravin e no desenvolvimento dos romances. Para quem gosta de romance, ressalto que a história não poupa neste quesito.

Referentemente à proposta de força feminina, é engraçado, pois o fato de vivermos em uma sociedade em que tão pouco se presa, ainda, de forma efetiva, a força feminina, que o mínimo feito já é algo surpreendente e relevante. Não critico a história, pois já é um começo, mas esperava que a força feminina tivesse papel maior que o plano de fundo da aventura da protagonista. Lia era para ser a protagonista forte a inspirar as leitoras. Contudo, sua personalidade forte, embora tenha sido descrita anteriormente, só se mostra de fato a partir da metade do livro, quando ela se encontra em uma situação de perigo. Na primeira metade, ainda que ela tenha ousado fugir de um casamento forçado e tenha o discurso de não ser um estereótipo de princesa e de não querer ser da realeza, Lia é absorvida pelo romance, como boa parte das protagonistas. Sua força só é exigida– no âmbito da história – e trazida à superfície quando sua situação alcança um nível crítico e ela se vê exposta aos perigos mais chocantes do machismo. Sobre isso, a autora apenas passa perto de descrever o que uma mulher pode sofrer nas mãos de um homem. Mas destaco que a intenção do livro não era ser algo pesado – o que não impede, claro, que se elabore uma descrição mais impactante.

mary e pearson
Mary E. Pearson

O ponto em que o livro ganha mais destaque, é na união feminina. Se carece quanto à força de sua protagonista, o livro não peca ao desenvolver a amizade entre as mulheres. Mary E. Pearson constrói personagens que se unem diante das dificuldades, que se protegem e se auxiliam e não coloca isso como específico de apenas um grupo de mulheres. A autora enfoca as relações femininas em todas as esferas, seja na realeza, na plebe ou em uma tribo distante. E para elas, não importa o fato de uma mulher ser estrangeira ou de um nível social mais baixo. Importa apenas que é uma mulher como elas. Não obstante, Mary E. Pearson não perde seu tempo narrativo descrevendo mulheres que sejam apenas enfeites na história ou inimigas entregues à futilidade. Cada mulher descrita em “The Kiss of Deception” possui sua relevância dentro da história e age de forma a criar um elo com as demais.

O final não é conclusivo, o que é compreensível considerando que é o primeiro livro da trilogia intitulada “The Remnant Chronicles”, composta também pelos livros “The Heart of Betrayal” – lançado na metade de 2015 fora do Brasil – e “The Beauty of Darkness” – previsto para este ano no exterior. Muito sobre a mitologia criada por Mary E. Pearson deve ser explicado nos próximos volumes, bem como o que se dará a partir das revelações finais do livro.

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Enfim, eu gostei bastante da leitura. É agradável e instigante na medida. O excesso de romance em detrimento de ação talvez tenha retardado-a um pouco, mas quando me apaixonei pelos personagens e a situação se modificou na história – e Lia tornou-se mais ativa -, tudo fluiu muito bem. De fato, esperava mais da proposta de foco na força feminina, mas consegui enxergar uma semente desta proposta. Creio, assim, que valha a pena dar uma chance ao livro.


The Kiss of Deception

Mary E. Pearson

384 páginas

Editora Darkside

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Autora

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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