Sabrina Fidalgo fala sobre cinema, racismo e feminismo

Sabrina Fidalgo fala sobre cinema, racismo e feminismo

O cinema brasileiro, território tradicionalmente dominado por homens, brancos, cis de elite, começa a dar os seus primeiros passos rumo a diversidade e ao reconhecimento daqueles que não fazem parte do padrão estabelecido.

Em junho, o Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense, NECINE (Núcleo dos Estudantes de Cinema da UFF) e Departamento de Cinema e Vídeo da UFF junto com o Cineclube Quase Catálogo (capitaneado por Nina Tedesco, docente do curso de fotografia da UFF e Érica Sarmet) homenageou Adélia Sampaio, primeira cineasta negra a dirigir um filme de longa-metragem no Brasil. Dessa vez a homenageada é uma jovem negra carioca, cuja bem sucedida filmografia é permeada por premiados curtas.

O evento Retrospectiva: o Cinema de Sabrina Fidalgo vai exibir cinco dos seis filmes de curta-metragem escritos e dirigidos pela realizadora Sabrina Fidalgo, incluindo a estreia em Niterói de “Rainha”, seu último curta recém premiado como melhor filme pelo Júri Popular do Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro – Curta Cinema e detentor de outros quatro prêmios (melhor atriz, melhor ator coadjuvante, melhor figurino e melhor som) no Festival Ver e Fazer Filmes, de Cataguases, Minas Gerias.

Seus filmes trazem uma narrativa ousada, criativa e empoderada com grande ênfase em questões político-étnico-sociais. O Delirium Nerd conversou com a cineasta sobre a primeira retrospectiva de sua carreira, seus projetos e temas como cinema, racismo e feminismo.

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Foto: arquivo pessoal

Delirium – Sabrina, você é uma das poucas realizadoras negras em produção contínua. Como você vê a questão da invisibilidade da mulher e principalmente da invisibilidade da mulher negra no cinema brasileiro?

Sabrina – Eu acho que existe uma tentativa muito grande de apagamento de pessoas que não estão dentro de um perfil específico dentro do status-quo brasileiro. No mundo inteiro o cinema é uma arte que se move em círculos muito fechados, mas no Brasil isso ganha proporções ainda maiores. Aqui os círculos se restringem a grupos que pertencem a mesma classe social, racial e política.

Existe um pensamento demagogo muito grande também, porque é preciso concordar com “o grupo”, falar sobre as mesmas coisas, ter o mesmo tipo de opiniões, pensamentos e posições políticas. Sem contar que quando esse “círculo” se abre a “corpos estranhos” como mulheres e negras, geralmente isso se dá pelo viés do paternalismo, enxergando nessas figuras “aqueles ou aquelas que tiveram menos chances na vida e que merecem um espaço por eles oferecidos”. É a narrativa pós-colonial de sempre, na qual eu nunca me encaixei, até mesmo porque odeio essa generalização do papel do oprimido.

Não me sinto oprimida, não sou e jamais serei e sempre me coloquei no lugar de empoderamento intelectual, artístico e social do qual as pessoas aqui não estão muito acostumadas a ver numa mulher negra. Então, por isso, sempre foi muito mais complicado para mim buscar um espaço em meio a essa barreira, que cultua figuras que justifiquem o sucesso através de discursos que cultuam o sofrimento, a pobreza e o isolamento. E como não pertenço a nenhuma espécie de círculo ou grupo do tipo acabo sendo uma outsider do sistema, o que, por um lado é bom, porque tenho liberdade total, mas, por outro, é complicado porque você tem que estar o tempo todo atenta para não ser apagada por esses mesmos círculos que ainda detém, de alguma forma, o poder.

E é esse mesmo grupo que também invisibiliza a representação da diversidade no cinema com suas curadorias, programações e escolhas em editais que contemplam sistematicamente narrativas excludentes, por exemplo. Acho que precisamos dar nome aos bois de modo que a situação possa mudar. Não é saudável para a cultura de país nenhum manter paradigmas próximos a um ideal nazi-fascista.

Delirium – Você é uma jovem cineasta e na sua idade é difícil ter um reconhecimento com sua obra em retrospectiva. Como você se sente com essa homenagem?

Sabrina – Para mim foi uma grande surpresa e alegria. Não sou uma veterana, ainda estou num lugar de desenvolvimento de linguagem como artista. Por esse motivo ainda não realizei o meu primeiro longa, porque acho que cinema é uma linguagem que se aprimora por vias do amadurecimento. E sabendo das dificuldades que temos como artistas em projetar nossas obras, para mim, esse reconhecimento é algo muito importante. Recebo com muita alegria esse momento.

Delirium – Você tem uma opinião bem interessante e contundente em relação ao termo “cinema negro” que se diferencia da maioria dos realizadores negros. Fale um pouco sobre isso.

Sabrina – A gente vive em um país altamente racista, cuja cultura e pensamento são baseados no eurocentrismo. É uma sociedade esquizofrênica no sentido de que ela (a sociedade) se enxerga como “branca” quando na verdade não o é, nunca o foi e nem nunca o será. Então me soa muito equivocada essa racialização de um tipo de cinema realizado por pessoas negras em um pais onde 57% da população se autodenomina negra. Para mim o termo é uma forma racista de “engavetar” realizadores que não se encaixam no padrão eurocêntrico estabelecido. Muitas pessoas me dizem: “puxa, mas é importante que nesse momento a gente fale sobre um ‘cinema negro’ para que possamos seguir”. Mas eu acho um equívoco ter que se rebaixar a uma nomenclatura claramente discriminatória, que te separa do todo, somente para ter alguma visibilidade dentro do racismo estrutural. Acho que temos que falar sobre essa leva de realizadores negros que vem surgindo, cada um com suas subjetividades, mas não de um “cinema negro” que nem sequer é uma corrente estética criada por artistas. O que acontece é que existem pessoas como acadêmicos e produtores culturais interessadas nesse termo de modo a se promover ou continuar a manutenção do status-quo.

Delirium – E como você enxerga essa nova leva de mulheres negras realizadoras?

Sabrina – É o caminho natural em um país como o nosso, não tem porque a gente olhar isso com “surpresa” ou algo de outro planeta. Não podemos seguir com uma cinematografia realizada apenas por homens e homens brancos, o público popular quer se ver, quer ver narrativas próximas as suas, mulheres querem se ver, mulheres negras querem se ver, mulheres-trans querem se ver.

E, sobretudo, essas pessoas querem ver narrativas de pessoas como elas. E esse público detém poder de consumo, essas pessoas assinam Netflix e podem dar bilheteria. Isso tem muito a ver com as políticas sociais dos últimos 15 anos que abriram as portas do ensino superior para as camadas mais carentes da população e, sobretudo, para a população negra. Essas pessoas tiveram a chance de estudar, de ler, de se informar, e junto a isso, a internet também só veio a agregar assim como o avanço das tecnologias que levaram o fazer cinema para outras paragens para além dos quartos de brinquedos das crianças do Leblon.

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Delirium – Seu novo trabalho, “Rainha”, acabou de ganhar o prêmio de melhor filme do Júri Popular do Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro, que é o festival de curtas mais importante do país. O filme aborda questões muito atuais como a imposição de padrões de beleza às mulheres e também sobre o feminismo negro. Fale um pouco sobre o filme.

Sabrina – Eu estava em Belo Horizonte participando do Lumiar – Festival Intercontinental de Cinema Universitário onde fui exibir meu penúltimo curta, “Personal Vivator”, e participar de uma mesa sobre mulheres no cinema. Foi uma emoção enorme! O prêmio do publico é o melhor dos prêmios, ainda mais em um festival na minha cidade, ainda mais no Curta Cinema. “Rainha” é um filme sobre sonhos e superação, sobretudo.

Quando eu escrevo um roteiro eu não fico pensando em questões políticas, sociais ou raciais, sabe? Essas questões surgem depois do filme pronto, porque são parte das minhas ideias, vivências, observações… E eu sou um corpo político per se, por ser mulher, negra, brasileira e artista. Mas enfim, “Rainha” é um filme sobre tudo isso e conta com a maravilhosa colaboração de pessoas talentosas e queridas como a atriz Ana Flavia Cavalcanti e a diretora de fotografia Julia Zakia, sem as quais tudo teria sido diferente.

Delirium – Você falou que ainda não realizou o seu primeiro longa. Já tem algum em vista? Quais os seus próximos projetos?

Sabrina – Eu estou na fase de desenvolvimento do primeiro longa de ficção e em finalização do “Cidade do Funk”, um projeto de longa-documentário, cuja pesquisa começou em 2009 e agora esta em fase de captação final. Tenho projetos para a televisão também e mais uns dois curtas.

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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