Lírios D’Àgua: meninas entre o amor e a amizade

Lírios D’Àgua: meninas entre o amor e a amizade

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Lírios D’Água” (Naissance des pieuvres, no original, 2007) é o longa-metragem de estreia da premiada cineasta e roteirista francesa Céline Sciamma, mais conhecida pelos aclamados “Tomboy” (2007) e “Garotas” (2014). Neste filme, Sciamma desenha 3 protagonistas que, cada uma a sua maneira, vivem um dos momentos de transição mais espinhosos na vida de uma mulher: a adolescência. Momento de descobertas quanto a sexualidade, mas, principalmente, aquela etapa em que a própria identidade é construída e esta é sempre relacional, uma vez que não se é mais criança, mas também não se alcançou a maturidade da vida adulta.

[NÃO CONTÉM SPOILERS]

Curiosa e acertada é a escolha do pano de fundo em que as personagens transitam. Tudo gira em torno de um clube que tem a equipe de nado sincronizado em sua base. Importante ressaltar que este é um esporte comumente associado a uma beleza rítmica de natureza feminina. Não à toa, não há ainda equivalente para homens desse tipo de competição. E justamente buscando quebrar essa visão naturalizada acerca de uma suposta natureza feminina é que Céline Sciamma traz a baila tal modalidade esportiva.

Lírios D'Àgua

Na trama, somos apresentados a três jovens de 15 anos: Marie (Pauline Acquart), preocupada com uma magreza excessiva e que percebe um interesse sexual pela exuberante Floriane, capitã do time de nado sincronizado. Floriane (Adèle Haenel, revelada neste filme pela diretora), que performatiza a figura da “femme fatale”, mulher irresistível e desejada por todos os homens, ao mesmo tempo que é invejada pelas mulheres. E a desajeitada Anne (Louise Blachère), melhor amiga de Marie, que sofre por estar acima do peso e ser apaixonada pelo rapaz mais popular da região.

Lírios D'Àgua

Essa teia que envolve as meninas permite que a diretora aborde questões que permeiam toda a sua obra como gênero, sexualidade e padrões de beleza de forma contundente e profunda, num drama que tem a água como fonte das relações, demonstrando a fluidez tanto de gênero, quanto das perspectivas sociais de cada personagem. Alternando o uso de filtros avermelhados e azulados, somos introduzidos a crises e calmarias, mas sem jamais cair no melodrama ou no histrionismo que muitas vezes cercam essa fase da vida, fazendo ressoar a sororidade através do amor e da amizade.


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Autora

120 Posts

Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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