Laura Marling e Angel Olsen: mulheres que se compõem

Laura Marling e Angel Olsen: mulheres que se compõem

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Em qualquer gênero musical, um tema presente é o olhar masculino sobre mulheres, o que se expressa desde composições românticas idealizadas até retratos puramente sexualizados ou controladores sobre o corpo e a vida de mulheres. Somos objetos dessas canções, muitas vezes reduzidas a aspectos de personalidade que se voltem a um relacionamento romântico ou sexual com os homens que nos escrevem em suas composições. Nesse contexto, obras de mulheres instrumentistas que produzem música sobre si mesmas, como mulheres completas, representam um raro respiro na indústria. Laura Marling e Angel Olsen parecem ter assumido esse compromisso de se descobrirem e de se desvelarem como mulheres em seus últimos álbuns.

Ambas vêm de uma tradição de música folk desde muito jovens – Laura lançou o excelente Alas, I Cannot Swim (2008) aos dezoito anos, enquanto Angel já produzia música aos vinte e três. Acumulando um período considerável de carreira, ambas produziram trabalhos lindíssimos calcados no folk-rock, com destaque para Once I Was an Eagle (2013) e  Burn Your Fire for No Witness (2014), respectivamente.

Devido a um início de carreira quando muito jovens, o crescimento musical das duas artistas foi bastante documentado pela mídia especializada, que associava o gênero de suas canções, o caráter melancólico e delicado da maior parte das composições e mesmo a estética do folk a personagens também marcadas por uma feminilidade suave, reservada e de coração partido.

Laura Marling é caracterizada como uma figura semelhante às heroínas de livros das irmãs Brontë. Em entrevista à Pitchfork, Angel Olsen narra episódio em que radialistas lhe perguntaram “Sua música é como a de uma garota no fundo de um poço escuro, como você se sente sobre isso?”.  Seus álbuns mais recentes parecem querer responder a esses retratos, assumindo para si próprios a construção de suas autoras como mulheres complexas que contam suas próprias histórias.

Em My Woman (2016), Angel aborda a questão da identidade a todo momento, o que se reflete na variedade das composições. Intern e Sister em particular se desdobram sobre a percepção da cantora sobre si mesma, questionando os papéis que ela assume e onde pretende chegar como pessoa, e são faixas com sonoridades bastante diferentes entre si, indo de um quase dream pop até o retorno a um som mais influenciado pelo folk, unidas por uma sensação de rock antigo.

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Esses questionamentos permeiam suas relações com o outro, como em Heart Shaped Face, que se aproxima a uma resposta ao olhar masculino (Era em mim que você estava pensando?/Todas as vezes em que você pensava em mim), e especialmente na maravilhosa faixa Woman, que se desdobra lentamente à ouvinte, contendo os versos Eu te desafio a entender/O que faz de mim uma mulher de forma ao mesmo tempo reflexiva e desafiadora, tanto para si quanto para o outro, assim como para sua audiência.

Semper Femina (2017) representa também uma busca pela própria identidade para Laura Marling, como a cantora pontuou em ótima entrevista ao The Guardian. O álbum em muitos momentos faz essa busca através da canções sobre as relações do eu lírico com outras mulheres, como em Don’t Pass Me By e em Nouel, revertendo o padrão do olhar masculino e expondo mulheres complexas em letras que transmitem a sensação de terem sido pensadas cuidadosamente (Ah Nouel, você deve me conhecer bem/E eu nem te mostrei a cicatriz/Inconstante, imutável/Semper femina).

Destacam-se seus momentos de introspecção, como nas faixas Always This Way e Wild Once (Eu posso ser a filha de alguém/Posso ser algo estranho/Mas eu fui selvagem uma vez), assim como canções sobre a relação com o outro – Wild Fire e Nothing, Not Nearly brilham nesse aspecto, além de representarem um amadurecimento da sonoridade da cantora dentro do folk neste seu sexto álbum.

Essa busca por uma identidade feminina complexa é seguida em ambas as obras por uma afirmação do próprio ser. My Woman, como denota seu título, parece se colocar como uma declaração de autossuficiência, enquanto Semper Femina redefine o sentido do que é ser mulher a partir das experiências da cantora. A riqueza de sentidos encontrados pelas compositoras resultaram em obras complexas em letra e sonoridade, sendo belíssimas representações de mulheres musicistas.

Faixas para conhecer  Laura Marling e Angel Olsen:

Angel Olsen – “Intern”, “Shut Up Kiss Me”, “Sister” e “Woman”

Laura Marling – “Wild Fire”, “Nothing Not Nearly” e “Next Time”

 


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Autora

Estudante de Direito que gosta de criar tempo pra escrever e ouvir música. Adora ler, admirar cachorros e plantinhas, bordar e conhecer lugares novos. Ainda vai aprender a tocar muitos instrumentos.
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