Las Chicas del Cable: O feminismo na era das telefonistas

Las Chicas del Cable: O feminismo na era das telefonistas

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Las Chicas del Cable (Cable Girls) é a primeira série espanhola original do Netflixe sua premissa gira em torno de telefonistas de Madri do final da década de 20 que lutam por sua liberdade e felicidade. Com humor, romance e drama, levanta importantes questões de gênero através das protagonistas Lídia (Blanca Suárez), Ângeles (Maggie Civantos), Carlota (Ana Fernández) e Marga (Nadia de Santiago). Em uma Espanha prestes a encarar a ditadura de Franco, em que homens fazem leis para homens, a união entre essas mulheres é uma importante ferramenta de sobrevivência.

Las Chicas Del Cable inicia-se com Alba, uma jovem de 25 anos que sonha em conhecer a Argentina. E é para lá que ela está fugindo junto com a amiga Gimena quando uma tragédia acontece. Alba tentava ajudar a amiga a se livrar de um homem controlador, mas isto acabou custando a vida dele e de Gimena. Acusada de homicídio e com um passado de envolvimento com a polícia, a moça se vê obrigada a cumprir com as exigências do inspetor Bertrán, que lhe pede uma quantia exacerbada. Para quitar com a dívida, Alba se faz passar por Lidia Aguilar, com o intuito de conseguir um emprego de telefonista e roubar a empresa. Contudo, seu planos são atrapalhados por alguns imprevistos.

Ela não esperava encontrar Francisco, o grande amor de sua juventude, de quem foi separada por um infortúnio, ou um novo amor, ou, principalmente, grandes amigas. Uma vez que ela descobre o poder da amizade entre as mulheres, nada poderá permanecer como antes. Ajudá-las a sobreviver em mundo de opressão significa mais do que vencer de forma solitária.

Las Chicas del Cable

Quando Alba se perdeu de Francisco, a sociedade não lhe foi condescendente como foi com ele. Enquanto ele conseguiu meios para se tornar mais um homem de poder, ela foi presa e obrigada a procurar alternativas não convencionais para sobreviver nas ruas de Madri. Ensinada a nunca confiar nas pessoas, foi difícil para a personagem se abrir com suas colegas de profissão. Todavia, todas se encontravam na precária situação de ser mulher.

Las Chicas del Cable

Ângeles vive em conflito com o marido, que não apoia sua decisão de permanecer no emprego, mesmo que esteja se destacando na posição. Ao longo da temporada, este se desenvolve como o plot mais pesado da série. Ângeles não tem a vivacidade de Carlota ou mesmo a frieza de Lídia e sua personagem não demonstra imediatamente a força que possui.

Aos poucos, porém, a mulher que ignora as traições do marido, destrincha as motivações por trás da manutenção do casamento. Traição e violência doméstica seriam fatores suficientes para que ela o deixasse, e ela se envergonha de não o fazer. Contudo, ela está presa a ele na medida em que a única dissolução possível ao casamento é através da morte. E a situação se agrava por ela possuir uma filha pequena. Ameaçada pelo marido, Ângeles não vê outra alternativa a não ser permanecer na casa, ainda que não abra mão do emprego.

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Motivos como este levaram Carlota a ser contra o casamento, mesmo possuindo um namorado que a apoia. Carlota é a protagonista responsável pela introdução da série aos movimentos feministas da década de 20. Filha de um homem rico e importante – que se insere na trama política por trás do enredo – Carlota não aceita as imposições da família.

Não quer ser controlada por mais um homem além de seu pai e se nega a deixar o emprego que conquistou, ainda que isto signifique ter que sair de casa. Aos poucos começa a participar de reuniões feministas e a se redescobrir em um mundo dominado por homens. O núcleo de Carlota aborda ainda questões de homoafetividade feminina e de poliamor e sugere que abordará a transexualidade, assuntos considerados tabus no período.

Las Chicas del Cable

Diante de tantas discussões, Marga pode parecer apagada. Não sofreu pela pobreza como Alba/Lidia, não enfrenta a violência de um casamento como Ângeles e não se insere na ativismo feminista como Carlota. De fato, sua história é a que concede leveza à série. Isto, porém, não retira a importância da personagem e de seu desenvolvimento. Proveniente de uma cidade interiorana, Marga não aceita que a única perspectiva de sua vida seja se casar.

Mesmo que tímida e sempre temerosa com a agitada vida da capital espanhola, ela decide buscar algo diferente ao se tornar telefonista. Aos poucos a personagem se desenvolve e revela que, por trás de uma jovem tímida que se encanta pelo homem que a salvou de um assalto, existe uma mulher que não está disposta a aceitar qualquer coisa. Sua vida se torna Madri, um local em que ela pode ser independente, viver um romance sem perder a sua essência e crescer cada vez mais.

Em torno dessas quatro histórias, orbitam outras, todas conectadas pela relação com a empresa de telefonia. A empresa é um grande marco, porque representa os primeiros passos de mulheres em busca de sua liberdade. Quando mulheres ainda não podem ocupar altos cargos ou mesmo profissões liberais – a primeira advogada espanhola é citada com espanto durante a série -, ser telefonista torna-se um sonho.

Para aquelas mulheres significava alcançar o máximo de liberdade que lhes era concedida. E ao chegar lá, podiam até sonhar em uma sociedade em que houvesse mais espaço para elas. Então, lutar para que seus empregos sejam mantidos é uma meta de vida, apesar de todas as dificuldades impostas socialmente, economicamente e, sim, tecnologicamente. Afinal, começam a surgir possibilidades de telefonia sem a necessidade de telefonistas. E o que isto poderia significar na causa feminista?

Las Chicas del Cable

Las Chicas Del Cable, do mesmo modo que suas personagens, não revela instantaneamente a carga de seu conteúdo. Aqueles que leem sua sinopse podem ser levados a imaginar que será apenas uma série sobre romances durante a década de 20, com um belo figurino e uma trilha sonora moderna – o que realmente há. Podem ser levados a imaginar que os questionamentos sociais serão rasos, apenas enfeites para um romance. Contudo, a série supera bastante as impressões que se podem ter antes de iniciá-la.

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Os romances existem, mas não passam sem uma discussão sobre poder. Eles, sim, são os enfeites para o questionamento maior: a posição das mulheres naquela sociedade e na sociedade contemporânea. Assim, é uma série excelente, que apresenta personagens dotados de camadas e que une política, direito, críticas sociais, romance, comédia e drama através de um enredo rico e cativante. Conforme o produtor Ramón Campos, a segunda temporada mostrará as protagonistas ainda mais poderosas. Resta, então, aguardar para ver o que o produtor entende por ser poderosa e empoderada (ele descreve, na verdade, como Femme Fatale, um estereótipo a ser problematizado) e se a série se manterá no mesmo ritmo.

Para finalizar, Las Chicas Del Cable passa no Teste Bechdel ao trazer protagonistas mulheres que não se limitam a discutir suas vidas romântica, mas a questionar a política e a sociedade de seu tempo.


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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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