[FESTIVAL DO RIO] A Festa: vaidades em perspectiva (crítica)

[FESTIVAL DO RIO] A Festa: vaidades em perspectiva (crítica)

A Festa (The Party) escrito e dirigido por Sally Potter (do aclamado Orlando – A Mulher Imortal, 1992) aborda as fissuras de uma elite intelectual de esquerda liberal, nas suas vicissitudes, para falar sobre o atual momento político britânico.

Com um elenco de tirar o fôlego composto por nomes como Kristin Scott Thomas, Patricia Clarkson, Buno Ganz, Cherry Jones e Timothy Spall, a diretora cria através de diálogos extremamente sarcásticos e irônicos uma mise-en-scène contida em seus arroubos para, de forma delirante, tirar sarro dos próprios personagens. Impossível não nos identificarmos de alguma forma com alguns deles ou pelo menos com algum elemento que eles emulam.

A opção pela fotografia em preto e branco já nos dá a pista inicial: a festa de comemoração pelo novo cargo político da anfitriã Janet (Kristin Scott Thomas) não será nem um pouco colorida, embora seja bastante animada. A trama se passa toda na casa de Janet e Bill, o casal perfeito que aos poucos vai vendo tudo ruir com as inúmeras reviravoltas do roteiro.

A agilidade da montagem e a acidez dos excelentes diálogos nos lembram as tiradas geniais da personagem interpretada por Maggie Smith em Downton Abbey. Quase todos os personagens já passam da casa dos cinquenta anos de idade e nutrem uma amizade de décadas. As mulheres são as personagens fortes, enquanto os maridos são apresentados como pessoas medíocres, seja pela senilidade, seja pela personalidade exótica.

A Festa

Com ares de Deus da Carnificina (2011) de Roman Polanski, Sally Potter lança um filme mais interessante na medida em que nos apresenta a perversidade atenuada de seus personagens de forma menos caricata dentro dos arquétipos que explora, a fim de torná-los demasiadamente humanos. O caos controlado e os temas políticos e sociais debatidos em cena funcionam na chave da comédia dramática, tal qual o excelente Sieranevada, dirigido pelo romeno Cristi Puiu, que também tem numa confraternização familiar a figura cênica ideal para um balanço ao mesmo tempo político e doméstico.

Com apenas três dias de ensaio e todo filmado ao longo de duas semanas em um único ambiente, a cineasta pretendia conferir a ideia de tempo real de um jantar informal entre amigos íntimos, durante os seus 71 minutos de duração.

A Festa é um filme em que todas as verdades nas quais os personagens se apoiam são postas em xeque, colocando em perspectiva aquilo que a priori pode soar negativo. O filme saiu do Festival de Berlim levando o Guild Film Prize.

Autora:

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Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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