Logan: perpetuando os estereótipos de masculinidade
Logan: perpetuando os estereótipos de masculinidade

Logan: perpetuando os estereótipos de masculinidade

O terceiro filme solo do Wolverine traz uma ambientação bastante diferente dos outros filmes dos X-Men, sendo a despedida de Hugh Jackman do papel. Encorajado pelo sucesso do spin off de Deadpool, que abusou de palavrões e violência gráfica, Logan segue pelo mesmo caminho, mas, ao invés da comédia, busca um tom mais sério, numa espécie de faroeste distópico.

A trama se passa em 2029. Novos mutantes pararam de nascer 25 anos atrás, e os já existentes foram quase todos exterminados. Cansado, envelhecido e alcoólatra, Logan/Wolverine trabalha como motorista de Uber, e cruza a fronteira dos Estados Unidos com o México todo dia para voltar a uma espécie de refúgio que encontrou em uma fábrica abandonada. Lá ele cuida do agora nonagenário Professor Xavier, que sofre de degeneração mental e precisa ser dopado com remédios para conter suas convulsões telecinéticas, que tem a capacidade de afetar perigosamente as pessoas ao redor.

Um belo dia, pessoas estranhas começam a aparecer no caminho de Wolverine. Primeiro, uma mulher chamada Gabriela procura sua ajuda, depois surge um playboy que procura por essa mulher. Gabriela é logo colocada na geladeira e Wolverine se vê envolto numa perseguição onde tem que salvar a pequena mutante Laura, de quem Gabriela tomava conta, e fugir do playboy vilão e sua gangue de capangas genéricos.

Logan
É claro que o vilão tem uma caveira tatuada no pescoço…

Um ponto fraco do filme é justamente o vilão, cuja atuação não-inspirada de Boyd Holbrook e seu pouco desenvolvimento enquanto personagem o tornam deveras descartável e esquecível. Outra que compromete enormemente a película é a violência gráfica em excesso. Os fãs dos quadrinhos ficaram empolgados com a alta classificação etária do filme, indicando que a porrada iria finalmente comer solta e fazer jus ao material original. Porém, a violência mostrada é sempre gratuita, nunca gerando reflexão ou sequer fruição estética.

Wolverine enfia suas garras de adamantium em tantos crânios que o efeito acaba sendo o de anestesiar a plateia. Afinal de contas, a maioria das pessoas que morrem no filme são capangas que não tem importância alguma para o enredo, e o ritmo da violência permanece o mesmo do início ao fim. Como já começa frenética, não há espaço para a intensidade crescer ao longo da história, fazendo todas as cenas de ação parecerem repetições das anteriores. 

Que divertido ver pessoas urrando e sendo dilaceradas…

Wolverine corta fora braços, pernas, pescoços, sem muitas consequências. O filme quer que acreditemos que o personagem está danificado emocionalmente e fisicamente por ter convivido tanto tempo com essa brutalidade, porém não se decide se ele sofre porque tem que cometer essas carnificinas por obrigação, para salvar seus amigos, ou se ele já está tão acostumado que ficou insensibilizado a tudo isso. Não há cenas de Wolverine olhando para os próprios punhos logo após assassinar 300 capangas e pensando no que acabou de fazer. Ele nem sequer hesita em enfiar as garras nas pessoas, fora em um momento de furo de roteiro, onde ele poderia ter se livrado do vilão facilmente no começo do filme, mas preferiu apenas deixá-lo inconsciente. 

Em uma cena, ele diz a Laura que não importa se quem você assassinou foram pessoas más ou boas, o efeito destrutivo da violência se instala mesmo assim, e é difícil conviver com tal fardo. Ele também diz ter pesadelos onde aparece ferindo as pessoas, indicando que deve ter algum remorso sobre os massacres que protagonizou. Porém, o filme mina a credibilidade deste conflito ao jamais fazer o caráter de Wolverine ser realmente questionado pelo público. Todo mundo que eu amo acaba morrendo” é algo que Wolverine diz algumas vezes durante a projeção. Só que, da forma como é construída, a trama faz pensar que ele tem algum tipo de azar, ou é um ímã de confusão, e não que seus atos em si afetaram diretamente as pessoas próximas a ele.

O Wolverine dos filmes é diferente do dos quadrinhos. Nos filmes, ele nem sequer é um anti-heroi, pois esse papel implica no personagem cometer alguns atos moralmente reprováveis, o que não acontece em nenhuma das sequências cinematográficas. Não basta apenas ser anti-social e resmungão para configurar um anti-heroi. Nos filmes, Wolverine aparece exercendo violência de forma “justificada”,  apenas para salvar os outros, com exceção de uma cena no primeiro filme onde ele ataca Vampira acidentalmente. Os filmes jamais fazem o público duvidar de suas boas intenções, o configurando, na verdade, como heroi.

Logan
Bom moço, só mata mauzinhos.

Logan tem tanto a intenção de separar os atos vis do próprio personagem, que insere na trama um “clone do mal” de Wolverine, chamado X-24, que comete os assassinatos cruéis de pessoas inocentes no lugar dele, com a intenção de que o público saiba perfeitamente a diferença de quem fez o quê e jamais julgue o protagonista. “Não fui eu!” ele diz a Xavier. Pois é, a plateia fica totalmente ciente disso, não há ambiguidades, e é justamente por isso que o pretenso conflito interno não convence. 

A inserção do X-24 também pode ser lida como uma metáfora bastante óbvia, representando literalmente o personagem lutando consigo mesmo. Esse, porém, foi um recurso bastante falho, porque justamente separou em corpos diferentes o “lado mau” e o “lado bom” do protagonista, numa escassez de nuance que nem mesmo tramas como Jekyll and Hyde conseguiram fazer. Somando isso ao fato de que o X-24 é apresentado como uma máquina sem sentimentos, e não possui atenção alguma do roteiro, o público não tem como apreender realmente o que seria o “lado mau” de Wolverine. 

Para fazer sentido, o filme deveria escolher qual caminho seguir: ou Wolverine é um heroi trágico que tem de lidar relutantemente com toda a violência ao seu redor, ou Wolverine é um anti-heroi que comete atos reprováveis de vez em quando, seja matando inocentes, ou seja mostrando o peso real das mortes dos bandidos que ele assassinou ao longo dos anos. Tentar misturar as duas coisas, como o diretor escolhe, faz o conflito parecer falso e vazio, expondo a incoerência interna do roteiro. 

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Com a violência explícita, o filme também parece querer se vender como “coisa de adulto”, como se existisse algo inerentemente maduro em poder observar e consumir violência. É algo no qual os videogames se refestelam, e é curioso notar que a maioria deles define como público alvo meninos adolescentes. Os rituais de masculinidade ainda envolvem a ideia de que esse gênero encontra sua expressão máxima na exerção da violência física. Ao selecionar garotos jovens como principais consumidores do gênero de ação, a mídia os está preparando para internalizar esses rituais de comportamento. Mesmo embora hoje a violência física exerça pouco papel real em nossa sociedade (os mais poderosos são velhos de terno que controlam a política e as transações financeiras) a ideia de que masculinidade e poder físico andam juntas permanece firme e forte.

Outra aplicação bastante questionável da violência explícita se dá em relação às crianças do filme. Querendo brincar com a quebra de expectativas, as crianças mutantes possuem poderes e com eles conseguem atacar os inimigos, o que as torna sujeitas a retaliação. Laura em especial, já que tem habilidade de cura rápida igual a Wolverine, é atravessada por um arpão, e recebe inúmeros tiros e golpes. A maioria das pessoas que curte o gênero sai do cinema achando o máximo a “garotinha que sabe lutar”, assim como no péssimo filme Kick Ass, onde a menina Hit-Girl arrancou vários elogios. Ainda assim, não podemos esquecer que o fato de Laura conseguir se safar de tudo é usado como justificativa para mostrar repetidas vezes uma criança sendo golpeada explicitamente na tela como forma de entretenimento. 

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Os maiores acertos do filme estão nas cenas de respiro, quando a carnificina dá uma trégua. Os primeiros 20 minutos são bem interessantes, e inclusive a experiência se torna bem melhor ao se ignorar as cenas de ação e focar nas que desenvolvem a narrativa, que felizmente não mastiga tudo e deixa vários detalhes serem solucionados pelo próprio público. (O filme nunca explica porque Wolverine está perdendo seus poderes de regeneração, por exemplo.)

O que há de melhor são os personagens de Laura e Xavier, otimamente interpretados pela novata Dafne Keen e o veterano Patrick Stewart. Xavier está adorável, e até protagoniza algumas cenas cômicas. Apesar de sua péssima condição de saúde, ele continua esperançoso e disposto a ajudar os outros.

Laura, embora passe a maior parte do filme calada, possui uma grande presença em cena, e é capaz de expressar bastante emoção com a atuação física de Dafne Keen. A personagem poderia ter sido mais desenvolvida no desenrolar da história, especialmente nas cenas em que procura uma identificação com Wolverine. O filme faria bem em tirar uns minutos do monótono sofrimento dele e se dedicar mais a explorar as nuances emocionais de Laura, investigando os efeitos que sua doutrinação militar trouxe, e como ela pode começar a se libertar deste destino. Como o foco permanece primariamente em Wolverine, as mudanças que Laura demonstra aparecem de forma um pouco brusca.

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Logan se encarrega de mostrar o mundo intolerante em que esses mutantes vivem, com passageiros gritando “EUA, EUA!” de dentro do carro que Wolverine dirige. De fato, 2029 não parece muito diferente de 2017, nem no quesito tensão social e política, nem na questão de experimentos tecnológicos e genéticos. O filme é melhor justamente quando flerta com esses temas.

Experiências ilegais, modificação genética de alimentos, injustiças sociais e testes anti-éticos, o uso do México como laboratório, e assim por diante. É uma pena que o enredo justamente só passeie superficialmente por essas questões, fazendo delas apenas ambientação, mas nunca foco (afinal, temos muitas cabeças a cortar pela frente). Se Logan realmente se propusesse a ser menos um entretenimento adolescente e mais uma reflexão do nosso mundo atual, com discussões pertinentes, e trazendo uma crítica real à violência que mostra, seria um filme muito melhor.

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É bastante óbvio que a trama não passa no teste de Bechdel, com apenas Gabriela e Laura dando as caras durante o filme inteiro, e pouco interagindo uma com a outra. Também não é melhor na questão racial: embora tenha vários personagens mexicanos, incluindo Laura, Gabriela e várias das outras crianças mutantes, o filme não é lá muito preocupado com o destino deles. Logo no começo, Wolverine estraçalha uma gangue de bandidos mexicanos. A morte de Gabriela é usada para avançar a história de Wolverine, assim como a de outras pessoas não-brancas, e a jornada das crianças é periférica ao enredo. Essas pessoas são usadas como meros acessórios de roteiro na história de sofrimento pessoal do protagonista.

Existe também uma preocupação em exotificar os mexicanos, como se o encontro com um deles fosse algo incomum na vida de Wolverine, mesmo ele atualmente morando no México, e como se uma enorme parte dos Estados Unidos já não fosse composta por descendentes de mexicanos. Toda vez que um personagem mexicano aparece, há um estranhamento nesse encontro com Wolverine, enfatizando o fator “estrangeiro” deles. Laura, por exemplo, não tem suas frases em espanhol traduzidas, para ressaltar a dificuldade de comunicação entre ela e Wolverine. Ele por acaso não aprendeu a falar sequer um pouco de espanhol no tempo em que ficou vivendo no México?! Ele não convivia com nenhuma pessoa mexicana ou descendente? São suposições que o filme faz, mas difíceis de comprar.

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Além disso, Wolverine, por ser canadense, passa facilmente na fronteira entre Estados Unidos e México todos os dias, já conhece até o guarda pelo nome. Enquanto que Gabriela é ferida pela patrulha ao tentar cruzar a fronteira ilegalmente. O filme poderia se debruçar mais sobre essas questões de privilégio e discriminação, mas prefere apenas mencionar o fato e não tocar mais no assunto. E, claro, jamais questiona o fato de que sempre os norte-americanos fora-da-lei buscam abrigo no México nos filmes de Hollywood, como se o país fosse terra de ninguém, e bastasse chegar lá e se instalar.

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Por fim, um ponto muito curioso foi a inserção de Caliban na trama, um mutante albino com o poder de farejar o paradeiro de outros mutantes. Ele ajuda a tomar conta de Xavier no refúgio, só que acaba funcionando exatamente como uma esposa dona-de-casa para Wolverine. Caliban cozinha, passa roupa, dá os remédios de Xavier, e reclama com Wolverine sobre as coisas que deixou de fazer. “Eu não quero reclamar, mas você está péssimo. Não para de beber. Trouxe pouco remédio. Você precisa me contar as coisas. Não faça isso, que acabei de passar pano no chão.

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E Wolverine, como todo clássico homem brucutu, evita conversas a todo custo, reclama de volta, quebra coisas na casa, e sai do ambiente batendo portas. É interessante como, para não ferir a “virilidade” do protagonista, o filme busca a introdução de um outro personagem, mesmo que seja outro homem, para fazer o serviço doméstico e emocional da casa. Não é à toa que Caliban é caracterizado como um homem muito mais afeminado e frágil que Wolverine, e que ainda é facilmente capturado pelos vilões.

O filme perdeu uma grande chance de mostrar o próprio Wolverine cuidando da casa e servir de exemplo para os espectadores machões. Fazer tarefa doméstica não cai pedaço. Wolverine não precisaria necessariamente gostar de fazer essas tarefas (quem gosta, afinal?), mas trazer uma outra pessoa para se encarregar desse serviço só serve para perpetuar a ideia machista de que homens “verdadeiramente masculinos” não assumem tarefas domésticas. Já passou da hora dos filmes mudarem essas representações estereotipadas de masculinidade.

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Cineasta, musicista e apaixonada por astronomia. Formada em Audiovisual, faz de tudo um pouco no cinema, mas sua paixão é direção de atores. Vocalista da banda Noite e compositora nas horas vagas. Também escreve sobre cinema em seu site Cine Medusa.
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