[LIVROS] Os Noivos do Inverno: A leveza e a complexidade por trás de uma fantasia juvenil de protagonismo feminino

[LIVROS] Os Noivos do Inverno: A leveza e a complexidade por trás de uma fantasia juvenil de protagonismo feminino

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Os Noivos do Inverno, livro da francesa Christelle Dabos tem encantado leitores e leitoras e não sem motivos. Fruto de um concurso de literatura juvenil, o livro publicado no Brasil pela editora Morro Branco, conquista com uma história leve e cheia de magia. A protagonista é Ophélie, uma jovem de 18 anos obrigada a se casar com o herdeiro de um poderoso clã, Thorn. Contudo, enviada às pressas para a arca de seu noivo, Ophélie não imagina as tramas políticas em que está envolvida, tampouco os riscos que corre numa ardilosa corte.

No futuro, o mundo sofreu um colapso e os indivíduos passaram a habitar grandes arcas, todas chefiadas por um espírito familiar. Tomados como deuses, esses espíritos governam suas populações de diferentes formas e possuem suas memórias registradas em livros misteriosos aos quais nem eles mesmos possuem acesso.

Dotada dos poderes de sua família, Ophélie pode se transportar utilizando espelhos. Não apenas isso, contudo; ela também pode ler o passado de quase qualquer objeto. E, assim, é treinada para cuidar de um museu particular de Arcana. Mas depois de recusar dois maridos, é obrigada, por sua família, a se casar com o rude Thorn de Polo. A contragosto, ela então é enviada para longe de sua arca. E infelizmente seus poderes de transporte são limitados pela distância e pelo vazio entre diferentes arcas.

OPHÉLIE E A ROMANTIZAÇÃO DO PROTAGONISMO FEMININO

Com um cachecol que se move, óculos que se restauram e uma baixa estatura, Ophélie se destaca no frio Polo. É a típica protagonista descrita como encantadoramente estranha, ainda que não seja de todo bela. Contudo, é também determinada. Não se convence facilmente e consegue enxergar por trás das aparências. Ophélie não aceita as imposições de sua família facilmente, tampouco aceita as de seu noivo. Quando impedida, utiliza suas habilidades em busca de rotas de fuga.

Do mesmo modo, Ophélie não é conduzida, como tantas protagonistas, a paixões inexplicáveis. A dinâmica entre Ophélie e Thorn está longe de ser suficiente para a construção de um relacionamento amoroso positivo. A autora, porém, se esforça em evidenciar as considerações de Ophélie nesse sentido. Diante das circunstancias, Ophélie pode sentir apenas uma empatia por Thorn, não o sentimento que se costuma encontrar em narrativas juvenis protagonizadas por mulheres. Afinal, não existe liberdade para amar diante de escolhas baseadas na submissão de uma mulher a um poder masculino.

DINÂMICA DO RELACIONAMENTO AMOROSO DIFERENCIADA

O relacionamento de Ophélie e Thorn se inicia como relacionamentos típicos de romances juvenis. Nenhum dos dois deseja a união, arquitetada por motivos políticos. No entanto, descobre-se mais tarde que Thorn teve, de fato, participação na determinação dos planos. E contrariados, os dois não conseguem conviver harmonicamente. Enquanto Thorn manifesta o que ainda não se sabe ser uma culpa pela condição de Ophélie, ela não se conforma com as restrições e a antipatia de seu noivo. Thorn se ressente por ter envolvido Ophélie em seus planos e colocado sua vida em risco. Uma vez que é noiva de um homem odiado em Polo, Ophélie torna-se alvo de todos os seus inimigos. Ophélie, por sua vez, como era de se esperar, não aceita que a proteção seja sinônima de encarceramento.

Aos poucos, entretanto, o casal descobre que precisa compartilhar informações a fim de que se mantenham salvos. Existem inimigos diversos por todos os lados da corte do espírito familiar de Polo, Farouk. E a colaboração é imprescindível entre eles, o que culmina no pensamento de que Thorn está apaixonado por Ophélie. O livro, porém, coloca como barreira ao relacionamento a consciência de Ophélia acerca de sua realidade. Ela é consciente de que não é capaz de amar Thorn diante dos fatos passados. O que não significa que ela não possa vir a amá-lo posteriormente ou construir outros sentimentos por ele. Ainda que haja indícios de que haverá um romance futuro, Os Noivos do Inverno foge do romantismo como base principal de sua história. Foca em sua protagonista para além de sua recusa ou aceitação dos sentimentos alheios.

AS PERSONAGENS FEMININAS DE CHRISTELLE DABOS

Christelle Dabos inicia sua história de forma promissora. Ainda que insira costumes machistas – como a imposição do casamento às mulheres – em contraste a uma protagonista que se recusa a segui-los, constrói também uma cultura embasada no matriarcado. A arca de Ophélie é governada por um espírito familiar feminino – Ártemis. E são as mulheres que conduzem os núcleos familiares dentro de uma grande família.

A oposição de mulheres não é algo exclusivo do gênero na história. Todos os personagens são construídos em cima de pontos positivos e negativos. Assim, de fato, há personagens femininas estereotipadas como fúteis ou rancorosas. Berenilde, tia de Thorns, oscila entre ser prestativa, vaidosa, ciumenta, raivosa, mas também amargurada pelas coisas que lhe foram retiradas na vida. Tia Roseline se introduz como uma tia conservadora, mas se revela como uma grande aliada e preciosa companhia. Gaelle, desconfiada, é essencial ao sucesso de Ophélie. Mesmo a mãe e a irmã de Ophélie, que são apresentadas como exageradas e fúteis, revelam-se preocupadas com o bem-estar da protagonista.

Do mesmo modo, há também homens apresentados negativamente. Thorn não é descrito como o mocinho perfeito. Não é descrito como bonito, tampouco narrado como gentil. A profundidade de sua história torna-o mais simpático, mas não justifica suas condutas. Farouk é o líder vaidoso e ambicioso. Pode-se dizer algo semelhante do sedutor Archibald. Portanto, a o maior número críticas às personagens femininas talvez se deva ao fato de que as mulheres são a maior parte das personagens de destaque, positivamente e negativamente.

A MITOLOGIA DE OS NOIVOS DO INVERNO

Os Noivos do Inverno é um livro como uma mitologia que cativa. Em primeiro lugar, deseja-se entender a dinâmica desse mundo organizado em arcas e no qual os seres humanos possuem diferentes poderes. Cada arca é conduzida por um espírito familiar, mas quem seriam eles? E por que cada família apresenta poderes diversificados, entre leitura de objetos, ilusionismo e outros? Ou qual a extensão dessas arcas e poderes?

Em segundo lugar, a autora constrói uma trama política interessante, embora desenvolvida superficialmente nesse primeiro livro. Sabe-se que cada espírito familiar possui um livro com registro de uma história anterior ao mundo como se conhece. E sabe-se que esses livros podem ser o caminho para grandes poderes. Isto gera uma corrida por poder político. No entanto, não se sabe o verdadeiro conteúdo desses objetos ou como sua leitura poderia interferir na organização das arcas ou nas relações entre os espíritos familiares.

Por fim, não se pode afirmar que existe um grande vilão na história de Christelle Dabos. A autora consegue construir personagens tão complexos, que nenhum deles é totalmente bom ou mau. Todos apresentam características negativas, mesmo que alguns apresentem mais do que outros. E o personagem que mais impõe empecilhos à trajetória de Ophélie está longe de ser quem se espera desde o início. Em Os Noivos do Inverno, ninguém é quem parece ser e ninguém é integralmente confiável.

UMA HISTÓRIA LEVE, COMPLEXA E CATIVANTE

A obra é uma história de magia e mistérios voltada a um público mais juvenil, mas bastante cativante. Ophélie convence como protagonista. E Christelle Dabos conquista com a complexidade de seus personagens e enredos, em uma narrativa leve. Como vários livros principiantes, introduz sem aprofundar. Desperta a curiosidade, mas fornece poucas respostas. Estas ficam reservadas para os livros posteriores. A série A Passa-Espelhos conta com mais dois livros publicados, Les Disparus du Clairdelune e La Mémoire de Babel. É previsto, também, um quarto livro.


Os Noivos do InvernoOs Noivos do Inverno – Livro 1

Autora: Christelle Dabos

Tradutora: Sofia Soter 

Editora Morro Branco

416 páginas

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Mestra em Teoria e História do Direito e redatora de conteúdo jurídico. Escritora de gaveta. Feminista. Sarcástica por natureza. Crítica por educação. Amante de livros, filmes, séries e tudo o que possa ser convertido em uma grande análise e reflexão.
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