Carnival Row – 1ª temporada: roteiro fraco e reforço de estereótipos

Carnival Row – 1ª temporada: roteiro fraco e reforço de estereótipos

Compartilhe

Carnival Row“, último lançamento ambicioso da Amazon Prime Video, é uma combinação pouco lapidada de um elenco badalado, fotografia impecável e roteiro, apesar de divertido, cheio de lacunas, previsibilidades e clichês problemáticos nas representações de mulheres.

Estreando na plataforma de streaming no dia 30 de agosto, “Carnival Row” é uma série de fantasia urbana que se passa em um universo semelhante à Inglaterra do final do século 19. Com Orlando Bloom e Cara Delevingne nos papéis principais, a primeira temporada da série, construída em oito episódios, traz Travis Beacham (“Philip K. Dick’s Electric Dreams”) e Rene Echevarria (“Star Trek: Deep Space Nine”) em sua concepção.

Carnival Row / Amazon Prime Video
Cartaz oficial de “Carnival Row” (Imagem: reprodução/Amazon Prime Video)

A premissa de “Carnival Row”

Entre ares neo-noir que longinquamente lembram “Penny Dreadful“, “Carnival Row” se passa na cidade de Burgo, que muito se assemelha ao imaginário de uma Londres vitoriana, com o plot inicial de uma série de assassinatos brutais cometidos contra fadas. Com flashes constantes de Tirnanoc, o reino das fadas, o investigador Rycroft Phylostrate (Orlando Bloom) é um ponto fora da curva da sociedade burguense ao defender direitos sociais e igualitários aos seres mágicos e místicos que agora também populam a cidade.

Décadas antes, Burgo havia entrado em guerra na busca de conquistar Tirnanoc, mas falhara terrivelmente e acabara por entregar o reino ao Pacto, uma facção cruel com o objetivo de exterminar as fadas e tomar o território. É aqui que entra Vignette Stonemoss (Cara Delevingne), uma fada que trabalha como gavião, garantindo sobrevivência de outras fadas até os navios de travessia que levam a Burgo.

Vignette (Cara Delevingne) e Rycroft (Orlando Bloom) em Carnival Row
Vignette (Cara Delevingne) e Rycroft (Orlando Bloom) em “Carnival Row” (Imagem: reprodução/Amazon Prime Video)

Com orçamento altíssimo e divulgação intensa, “Carnival Row” alçou expectativa de se tornar “uma nova Game of Thrones”. A construção de um universo peculiar e mitologia própria mesclada a personagens diversos e um elenco renomado reforçaram a ideia de uma série que viria para ficar – e que foi renovada para uma segunda temporada antes mesmo de sua estreia, mas não foi bem isso que a montagem final entregou.

Oportunidades perdidas

Vignette e Rycroft haviam se conhecido sete anos antes, quando Burgo ainda estava em guerra para a tomada de Tirnanoc contra O Pacto. Depois de um romance intenso entre a então fada protetora do local sagrado e um soldado burguense, Vignette foi deixada acreditando que Rycroft havia morrido. No tempo corrente da série, a perseguição da facção contra as fadas se intensificou de forma irreversível e os seres mágicos vivem em constante fuga, superpopulando o Burgo num processo doloroso de migração.

Bloom e Delevingne em cena de "Carnival Row" (Imagem: reprodução/Amazon Prime Video)

As possibilidades de construções narrativas que partem dos migrantes, do preconceito e marginalização social sofrida pelos seres é, de certa forma, superficial nos primeiros momentos de “Carnival Row“, que prefere focar na construção dos obstáculos do romance entre Delevingne e Bloom. Enquanto se espera que a tela mostre a pobreza e a violência advindas do preconceito dos humanos com as fadas – principalmente pela narrativa dos assassinatos –, a série acaba por focar muito mais em Vignette, ainda acreditando estar em luto, chegando ao Burgo de certa forma privilegiada ao imediatamente se encaixar em um emprego, ainda que precário.

É verdade que a problemática perpassa toda a narrativa e culmina em ações-chave principalmente no desfecho da temporada, mas é quase como surpresa que essas ações chegam pelo desenvolvimento pouco consistente. O Rycroft calado e introspectivo de Orlando Bloom é um desafio para o ator conhecido por personagens falantes e carismáticos. Como âncora principal da história, seu arco é previsível para a série que prometia embate com “GoT”. Antes do desfecho final, quem assiste já entende o desenrolar de seu desenvolvimento e pouco se surpreende ou se envolve com a saga do personagem.

Orlando Bloom como Rycroft Phylostrate em Carnival Row

Diversos temas – políticos, sociais e psicológicos – acabam por serem apagados pela falta de profundidade e costura da narrativa. Plots sobre migração, genocídio, crenças religiosas e marginalização social são alguns dos que se apresentam timidamente, como se fossem se tornar algo, mas caem por terra com o foco perdido em construções pouco carismáticas e intrigantes de clichês.

Representação feminina problemática

No contraponto ao desafio de Bloom com um personagem que não é do seu feitio, Cara Delevingne entrega sua melhor atuação – mas é mal construída pelo roteiro fraco e direção. Vignette é uma personagem carismática, que intriga, possui sete anos de uma vida voltada à guerra e proteção de um povo, porém acaba reduzida a interesse romântico e tem todas as suas ações apenas justificadas pelo romance pobre e pouco intrigante com Rycroft.

Cara Delevingne como Vignette Stonesmoss em Carnival Row
Cara Delevingne como Vignette Stonesmoss em “Carnival Row” (Imagem: reprodução/Amazon Prime Video)

Ao esperarmos, tanto pelos flashs quanto pelas cenas no tempo corrente, que a história do povo fada e de Vignette como protetora de sua crença e dos que restaram em Tirnanoc sejam explorados, somos frustradas. Exemplo nítido disso é quando a personagem encontra a biblioteca sagrada que protegia com unhas e dentes antes da guerra violada e exposta no Burgo. O seu acesso de raiva e dor é permeado muito mais pelas lembranças dos momentos íntimos vívidos na biblioteca com Rycroft do que pelo peso emocional de ver sua cultura sofrendo violência genocida.

Outro arco complicado é da melhor amiga – e ex-amante – de Vignette, Tourmaline (Karla Crome). Forçada a trabalhar como prostituta no Burgo, a personagem exala carisma e complexidade que roubam diversas cenas, mas que acabam nisso. Não é dado maior espaço do que tentar aprofundar a personalidade mal aproveitada de Vignette. Um romance entre as duas tenta ser escrito nas entrelinhas, um amor mal resolvido de Tourmaline para com Vignette, que ganha ares de token na série porque reduz as duas mulheres a meras peças do desenvolvimento emocional e psicológico de Phylostrate.

Karla Crome como Tourmaline em Carnival Row
Karla Crome como Tourmaline em “Carnival Row” (Imagem: reprodução/Amazon Prime Video)

A personagem de Crome resume bem toda uma sorte de outras personagens femininas reduzidas às sombras dos homens da série. Excluindo-se, talvez, a Haruspex, espécie de feiticeira fada, que age em seu próprio favor, as outras personagens existem em função de desenvolvimento emocional, político ou social dos personagens homens, em sua maioria brancos.

Leia também:
» Las Chicas del Cable: empoderamento, lutas sociais e outras cositas más na 4ª temporada
» Euphoria – 1ª temporada: um estímulo ao diálogo entre gerações
» GLOW – 3ª temporada: representatividade, reflexões e muita empatia

O veredito de “Carnival Row”

Muito abaixo do desempenho que prometia, não somente na construção da série mas também na repercussão após o lançamento, “Carnival Row” não alcança o status de competição a outras séries fantásticas com universos peculiares a que se propôs. A narrativa demora a pegar e a instigar entender o que se passa na terra fictícia – e pouco desenvolve dúvidas cruciais sobre o cotidiano daquelas existências. Nem mesmo a narrativa de um thriller criminal que aparenta existir com o primeiro episódio consegue se manter.

Apesar das falhas lacunares de soluções, na própria forma que a produção escolhe para sua contação de história e nos desfechos e arcos clichês até estereotipados, a experiência de assistir “Carnival Row” pode ser divertida ao se buscar uma série nem tão leve, mas que também não se desenvolve tão pesadamente. O incômodo pesado, no entanto, é conseguir manter o divertimento e a distração de uma narrativa fantástica que apenas reforça clichês sociais e representações rasas de personagens femininas.


Edição realizada por Gabriela Prado e revisão por Isabelle Simões.


Compartilhe

Autora

14 Posts

Jornalista, fotógrafa, feminista e lésbica cearense. Ariana torta e viciada em qualquer série, filme ou livro que tenha mulheres amando mulheres, tem voltado sua atuação à defesa dos direitos humanos e à luta por visibilidade e representatividade lésbica. Não dispensa uma pizza ou uma balinha de gengibre das que vendem no ônibus. Nas horas vagas se atreve a escrever ficção científica.
Veja todos os textos
Follow Me :