Os Escravos de Jó: por que reiteramos as imagens de opressão que queremos combater? (23ª Mostra de Tiradentes)

Os Escravos de Jó: por que reiteramos as imagens de opressão que queremos combater? (23ª Mostra de Tiradentes)

Por que reiteramos as imagens de opressão que queremos combater? Essa é uma pergunta que cada vez mais se impõe em relação a filmes que se propõem a uma reflexão crítica de pontos sociopolíticos sensíveis. Em “Os Escravos de Jó”, longa-metragem cearense dirigido e roteirizado por Rosemberg Cariry, que abriu a 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o ponto nevrálgico já se coloca de partida no título do filme.

Numa alusão literal à fábula bíblica de Jó, que remete à luta por ele travada para manter a sua humanidade diante das violentas provações impostas por Satanás em uma disputa com Deus, somos apresentadas a Samuel (Daniel Passi), o jovem protagonista que é um estudante de cinema tentando compreender suas origens através da criação de imagens.

O cenário é a cidade histórica de Ouro Preto e nela há uma tentativa de contrapor, ao mesmo tempo em que se pretende comparar, os horrores do holocausto nazista, a herança escravagista deixada pelo nosso passado (ainda presente?) colonial, bem como as disputas territoriais entre judeus e palestinos. A religião aqui é apresentada apenas e tão somente como um grande pano de fundo para os conflitos étnico e políticos que todos esses embates suscitam.

Antonio Pitanga e Daniel Passi em cena de "Os Escravos de Jó
Antonio Pitanga e Daniel Passi em cena de “Os Escravos de Jó” (Foto: divulgação)

A grandiloquência na pretensão de costurar todos esses aspectos de confrontos históricos milenares que amalgamaram os pilares da humanidade (e aí poderíamos nos indagar sobre qual humanidade o filme se debruça) acaba esvaziada na medida em que o que se ressalta no longa-metragem é o sofrimento do protagonista do alto de todos os privilégios a que um homem, branco, cis, heterossexual pode invocar. Ao fim e ao cabo, estamos mais uma vez diante de uma tentativa frustrada de adaptar os anseios do indivíduo tido como universal (com todas as aspas que esse termo evoca) para emular as dores do mundo.

Infelizmente, numa tentativa mal sucedida, para além do enorme didatismo das cenas, “Os Escravos de Jó” acaba sendo uma grande miscelânea de imagens autodestrutivas e que acaba não propondo nada que provoque nos personagens qualquer ruptura efetiva com a ordem das coisas para além do senso comum.

Nesse sentido, faz-se oportuno convocar para leitura da poeta e ensaísta feminista Audre Lorde*, que, em 1983, dizia: “opressão e intolerância de diferenças aparecem em todas as formas e sexos e cores e sexualidades — e que entre aquelxs de nós que compartilham objetivos de libertação e um futuro viável para nossas crianças, não pode existir hierarquia de opressão. Eu aprendi que sexismo e heterossexismo surgem da mesma fonte do racismo.”

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E continua: “Eu não posso me dar ao luxo de lutar por uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre as frontes nas quais devo batalhar contra essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não demorará muito a aparecerem para destruir você.”

Daniel Passi e Romi Soares em "Os Escravos de Jó"
Daniel Passi e Romi Soares em “Os Escravos de Jó” (Foto: divulgação)

À medida que o roteiro acompanha apenas o protagonista sem aprofundar narrativamente, nem muito menos tridimensionalizar, os personagens secundários, estes acabam presentes na trama apenas e simplesmente para a composição do personagem principal e resulta por esvaziar a crítica a que o filme se propõe. Dois personagens interessantíssimos e cheios de potência interpretados por Antonio Pitanga e Everaldo Pontes, por exemplo, são abandonados ao longo da narrativa de “Os Escravos de Jó”. Esse artificio culmina numa estrutura fílmica artificial, tendo em vista os vários caminhos que são apresentados na primeira terça parte do filme, para emular apenas uma falida jornada do herói.

Retomando a pergunta inicial, ainda ficamos perplexas e sem compreender qual a real função narrativa, para além, unicamente, do gozo masculino, de se contrapor o fragmentado corpo nu de uma jovem mulher, caracterizada como palestina, com imagens de pessoas exterminadas por regimes genocidas. Será mesmo que a única forma de libertação que um homem consegue fabular para uma mulher é o seu corpo nu filmado de forma erótica? Por que o corpo da mulher mais velha, interpretada por Romi Soares, não aparece nu mesmo numa cena em que esta personagem encena uma relação sexual?

Que imagens criamos ainda hoje no cinema para expressar as metáforas que pretendemos? O mito de Édipo ainda dá conta da crise civilizatória contemporânea? A punição da personagem feminina que envelhece é o suficiente para culminar numa catarse que se pretende como solução narrativa? Após a sessão de “Os Escravos de Jó”, saímos do cinema com todos esses incômodos e inquietações sobre a forma imagética que se escolhe para compor um argumento e seu roteiro. E questionamos até quando vamos continuar propagando os mesmo motes falidos sem propor outras fabulações sobre o real, que dê conta de não perpetuar a violência que é o pilar do neoliberalismo que se pretende combater.

* Leia o texto de Audre Lorde na íntegra aqui.

Edição e revisão por Isabelle Simões.

Autora:

120 textos

Aquariana, mora no Rio de Janeiro, graduada em Ciências Sociais e em Direito, com mestrado em Sociologia e Antropologia pelo PPGSA/UFRJ, curadora do Cineclube Delas, colaboradora do Podcast Feito por Elas, integrante da #partidA e das Elviras - Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema. Obcecada por filmes e livros, ainda consegue ver séries de TV e peças teatrais nas horas vagas.
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