[SÉRIE] Black Mirror: o futuro através da tela negra

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Passei muito tempo ouvindo falar da série “Black Mirror”, sem saber ao certo do que se tratava. Muita gente falava bem pra caramba, mas eu confesso que tinha um pouco de preguiça de procurar saber mais. Mas tudo mudou quando uma amiga definiu a série como: “uma ficção científica das humanas”, e como eu sou uma nerd de humanas assumida, corri pra ver. E não me arrependi.

A série é considerada uma ficção cientifica soft, sub genêro da ficção científica onde a narrativa gira em torno do desenvolvimento das relações humanas, entre si e com o meio ambiente, em vez de focar nos avanços tecnológicos. Esse gênero busca inspirações nas Ciências Humanas (consideradas, injustamente, ciências “soft”).  É claro que há aparelhos de tecnologia “avançada” em Black Mirror, mas eles não ganham muito destaque na narrativa e, em alguns episódios, o telefone ainda é o principal meio de comunicação e informação dos personagens. As semelhanças entre a tecnologia atual com a dos universos apresentados por Charlie Brooker fazem com que a gente tenha a impressão que essa projeção de futuro não seja tão distante de nós e tornam o enredo ainda mais crível.    

Por seu caráter crítico e pessimista, a série também é identificada como uma narrativa distópica. A distopia é uma narrativa que surgiu no começo do século XX, e foi se consolidando no decorrer deste. Depois de duas guerras mundiais, o colapso das ideologias, a guerra contra o terror, a sofisticação do capitalismo, os avanços tecnológicos, a distopia se tornou uma das principais formas do ser humano imaginar o futuro e suas possibilidades. A distopia é caracterizada por uma visão pessimista do futuro, onde as condições de vida são miseráveis e os personagens vivem em sofrimento, angústia e impotência. Ao contrário da utopia (que é um não lugar imaginado e idealizado), ela é uma continuidade do processo histórico, onde os aspectos negativos da realidade são intensificados, resultando em uma sociedade perversa.

Aliás, o pessimismo é uma das principais características de Black Mirror. Se você está buscando uma série com soluções para as questões mais profundas da humanidade, ou finais felizes, pode passar longe. Porém é um pessimismo que faz sentido quando percebemos a linha que une todos os episódios. Apesar de ser uma antologia, a denúncia da espetacularização da realidade está presente em todos os episódios. A influência de Guy Debord é bem óbvia, principalmente na caracterização dos personagens como conformados e alienados. Para Debord, o público do espetáculo capitalista é passivo, uma vez que a própria produção do espetáculo busca aliená-los. A alienação e a identificação dos expectadores com a sociedade de consumo alavanca o sistema capitalista e o crescimento da economia, ou seja, o espetáculo está diretamente ligado ao desenvolvimento do capitalismo.

“A alienação do espectador em favor do objeto contemplado (o que resulta da sua própria atividade inconsciente) se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo. Em relação ao homem que age, a exterioridade do espetáculo aparece no fato de seus próprios gestos já não serem seus, mas de um outro que os representa por ele. É por isso que o espectador não se sente em casa em lugar algum, pois o espetáculo está em toda parte” Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo.

Como eu disse, a crítica à sociedade de espetáculo aliada ao avanço tecnológico permeia toda a série; há sempre alguém hipnotizado por alguma tela, e sempre tem alguém lucrando com isso. A lógica capitalista aparece em quase todos os episódios como mantenedora daquilo que nos causa repulsa. Além disso, outras questões são levantadas, como gordofobiarelacionamentos abusivos, controle do corpo, sistema penal, etc. Cada história explora um lado diferente dessa realidade percebida por Brooker: todos estão sujeitos à tela, mas, em cada universo, de uma forma diferente.

Existem tentativas de resistência, como é de se esperar, porém elas são sempre ligadas ao desespero e, quase sempre, são inúteis. Nesse ponto, o conceito de biopolítica do Foucault cabe perfeitamente: o sistema se apropria da resistência, a neutraliza e a transforma em produto. No episódio “15 Milhões de Méritos isso fica bem claro. O ato de confronto de Bing – criticando justamente o consumismo desenfreado – é cooptado e utilizado para vender mais produtos.

Apesar dos pressupostos absurdos – um dispositivo que grava sua vida como se fosse um filme, uma mulher psicologicamente torturada diariamente, um urso animado concorrendo nas eleições – as histórias todas parecem reais, ou, pelo menos, possíveis no mundo que vivemos hoje. Me lembra um pouco uma entrevista da Samanta Schweblin que li um tempo atrás, onde ela dizia que não escrevia literatura fantástica e sim um hiper-realismo, que forçava a realidade ao máximo, tocando seus limites, mas nunca ultrapassando. Acredito que a série de Brooker também possa ser definida assim, a inquietude que sentimos no desenrolar das histórias não se dão unicamente porque o assunto e as imagens são desconfortáveis, mas porque reconhecemos ali hábitos e situações comuns no nosso cotidiano, reações que na tela parecem absurdas, mas completamente prováveis no mundo real. Em Black Mirror o futuro não importa realmente, é só uma forma de refletir o que há de podre (na opinião de Brooker) na sociedade ocidental atual.

Pra quem é nerd de humanas, como eu, a série é um prato cheio. Tem referências de romances distópicos como “1984”, “Farenheit 451” e “Admirável Mundo Novo”. Apresenta várias críticas (ainda que superficialmente, mas nem tanto quanto esperamos de um programa de TV) que dialogam com teorias de intelectuais como Foucault, Baumman e Debord, além de te deixar um pouco perturbado com as possibilidades que o mundo nos oferece. Ou seja, tudo que a gente ama amargar sobre.


Bibliografia

BURRIEL, Carlos Eduardo Ornelas. Utopia, distopia e história.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo.

NEGRINI, Michele e AUGUSTI, Alexandre Rossato. O legado de Guy Debord: reflexões sobre o espetáculo a partir de sua obra. Link


Texto escrito por Isabela Sena e postado originalmente em  Forasteras


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